Poesias Sebastião

Tarso de

Melo

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NUM MUSEU (dentro

do livro e agora

na estante) a memória aponta

– estranho mosaico entre

deuses de gesso e prata – um

minúcia de tinta

vôo vazio, cores de plástico

em outro, ausente

qualquer

divindade ou astro, nenhuma

tinta ou pedra que seja,

sequer seus cacos,

apenas a tela e o que foi

presença, seu traço

(da série Deserto, 2001)

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SEUS CACOS ao alcance do olho

estilhaços: um cão late

ao longe, talvez ao acaso

o que sobra da vida

entre um e outro passo

poça, o que fica da chuva

como uma flor – precisa

em seus disparos; a dor

como presença

nos detalhes; o corpo de

uma cor, seus claros

espaço que se abre

temporário

no agosto desse concreto

armado

(da série Deserto, 2001)

ATRAVÉS

I

diziam mais, agora

vapor, a cidade cortada por trilhos

ao meio

nuvens, como sempre

e o dia ainda deitado

do rio, a margem mais alta

e à outra margem cães

todos os lugares, cão

o que se lê aqui

se lê como se nunca

: tocada – a leitura –

por náuseas que só aqui

ao telefone

um cara de sobrenome

judeu insiste

em me vender drummond

a vinte por cento

inúteis, as coisas

na cabeça tomam

-me

leio repetidas vezes

não sei o que

faz o ano escoar

gandhi à venda

uma esquina

duas

estações de trem

sucessivas

sono e vidro

trilham quebrados

daqui, sacadas

e luz interrompida

branco, bege

e o recorte de um galho

intromete-se na leitura de

baudelaire

um poema como qualquer

outro, a angústia é um

recolhido, outra vez,

escreve

os pés pelas mãos

quando morreu, exato,

não soube retirar-se

do que havia para deixar

exercícios de escrita

gramática, caligrafia:

derrubada de árvores

bosque, o que foi

depois de novo o trilho

sofro ficções

mitologias com que

me deparo

dia inexato

as ruas através

: escadas

(e o frio severo

serena) noite

sobre a conversa

um som que chega

parte, vitrôs

e a alma escura

disfarça o osso nu

rompido, crônico

à distância, outros

uma forma impura de silêncio

se impõem lugares

exatos – casilla de

correo, vincos para ler,

notícias, indícios

: estações escapam

pelos cantos imensos da casa

melancólico e vertical

um outro dia, outro

desmontados, surpresa

aparente e nada:

fumaça forjada em

meio à

origem da palavra

desejo, desidiu

e os olhos abrigam

pelo aço rasgado

os vazios do vagão

passando

II

abrupto (muralha retendo

a paisagem) barulho irrompe

desde a geometria distante

de um ponto morto no olhar

(poema inédito em livro)

CARBONO

para Marli

No Nordeste faz calor também.

Mas lá tem brisa:

Vamos viver de brisa, Anarina.

Manuel Bandeira

um dia igual aos outros

olhos vermelhos, boca

seca, respiração frustrada

: vivo (treze de junho de

dois mil e um) asfixias,

monóxidos, dióxidos –

sua asma agora é minha

*

poderia falar do azul,

seus resíduos, lugares

que freqüenta, outros

– não este sufoco cinza

e sólido, diário suicídio

*

tentando o impossível (num

quadro de magritte) o pintor –

palheta em punho – mulher fora

da tela – atmosfera em que solta

a tinta – perfaz um braço no espaço

*

lua alta, estrela luz na noite

– desconheço a chama, o chão,

a chuva – o ar, um pouco,

enlace de carbono, aperto que

toma meu peito, sua falta

(poema inédito em livro)

M., 1

lembrar amanhã: estalos

no vazio ao redor

de um dia chegando simples

: nada se transtorna

(o céu se resolve em céu,

os prédios revolvem)

a estrutura – tocada – resiste

no dia seguinte

de uma a outra inscrição no calendário

que se esvai idêntico

(ler talvez não seja,

formigas tentam ensinar)

tempo ignorado, nosso

vocabulário obscuro adere

ao que, dentro, sustenta

(do livro Um mundo só para cada par, 2001)

SEGUNDA PESSOA:

como se constrói, desmonta

e assusta os olhos que se aproximam

tomando suas formas

o horizonte um cartaz

e os objetos, indiferentes,

ensaiam – moldura,

espelho – dizer, desmentir

*

frias, tocar as cores móveis

entre a mão e paredes:

como se constrói, desmonta

sugere, um outro vazio, presenças

que o sol desmancha (um botão

pode ser mais que isso)

e sobra um dicionário e canetas

a riscar o que sonho

*

tomando suas formas, constrói

como se desmonta

(do livro Um mundo só para cada par, 2001)

M., 2

pabellón del vacío, o peito

que se entreabre

à passagem precária das horas

primeira lição, segunda:

(imagens guardadas

no espaço inconstante

de escadas) despedaçar

a fala (um altar

para os degraus), palavras que minguam:

lua

(do livro Um mundo só para cada par, 2001)

MATISSE

aprendo no corpo observado,

estudo de ausências,

linhas que não se encontram

branco, um traço na cor

(uma música e seus tons,

deus e suas tintas no papel)

o sonho entre os livros

guardando, intactos,

um painel de buscas, e chuva

disposta a anatomia em cacos

completa, em sombras,

no olho que se retira – informe

esboço a romper seu próprio campo,

reserva de luz, e vulto

(do livro Um mundo só para cada par, 2001)

Tarso M. de Melo nasceu em Santo André, São Paulo, em 1976. Editor da extinta revista Monturo, colaborou n reedição das cartas de Paulo Leminski a Régis Bonvicino (Envie meu dicionário – SP: Editora 34, 1999). Autor, entre outros, dos livros A lapso (Santo André: Alpharrábio, 1999) e Deserto (Santo André: Alpharrábio, 2001).

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