Poesias Cálamo

Chantal

Castelli

GATO

a pupila

e sua poça

a orelha

concha rósea

o nariz

nau, trapézio:

salto

deslize

do queixo ao

ventre

perolado

II

a testa

de tanta astúcia

trama o fim

de tudo

no doce travo

deste dorso

curvo

CONSTELAÇÃO

para Carlos Drummond de Andrade

Tento recompor

as paredes de louça,

a porta da rua apodrecendo,

os tijolos aparentes

no muro onde dois registros

— água e luz —

saltavam, dois olhos

de vidro opaco.

Contemplo-os agora

da janela da memória

— ou serão também espelho,

reflexo de mim mesmo?

A tarde parecia eterna

nos pés do menino junto à horta,

na caixa d’água que era berço e túmulo,

na coleção de cacos e suas flores mínimas,

resumo de conversas na cozinha,

tinidos, subentendidos…

Tento recompor

a memória prévia,

o tempo duplo,

a casa em chiaroscuro,

no papel que

(mesmo querendo)

não posso rasgar.

REVELAÇÃO

Tento decifrar

uma foto que não há:

ao lado da janela meu pai e eu

e nosso reflexo no vidro

de uma tarde morta.

O retrato impossível me fita,

imagem-lembrança de desejo,

provando mudo

que o que resta

não é jamais o uso

dos melhores sonhos,

mas apenas a idéia

viajando na carne:

os pés sobre os quais não dancei,

a mão que não retive,

os lábios que não marcaram minha face.

Somente o olhar

espiritual-imperfeito

alcança-me agora

dessa tarde morta

e sem registro.

Que desde já me siga a notícia da partida;

que desde já o tempo sele a carta

que em quarenta anos receberei:

“É morto”.

Que se grave em meu corpo

o mapa de tuas ausências;

várias serão, pois vários

são os modos de o conheceres

a cada noite.

Que pouco meus olhos procurem os teus:

para que não vejas a cova

em que me abismo;

para que eu nada estranhe o dia

em que minha imagem recusarem.

Que desde já me siga a notícia da falta,

imensa como a noite no mar

onde nem estrelas ou farol

me guiarão.

LESTE

A pálpebra

— felina pupila —

alonga-se noturnamente,

meia-lua onde

meu dorso curva

num deslize perfeito.

Persiana mínima,

na tua pausa entrevejo

o caroço no centro

partido

que é leito de sede

sem peias

pátio por nossos corpos

salvo

há milhões de anos.

ESTASE

No zoológico de Belgrado

confinado entre as grades

de seu longo corpo

o tigre não assiste ao noticiário

mas sabe das bombas

e da escassez de comida

(logo adiante um urso

ameaça a própria pata).

Só na inerme jaula,

sua esfera,

nessa hora entre lobo e cão

o tigre recolhe os anzóis

e o olho deita ferrugem

em sinal de derrota.

Nem uma noite se passa

sem que tenha notícias suas.

SEM TÍTULO

Não há abismo possível

entre o despertar e a véspera,

cravada de esperas

– da chuva, do chute,

do mijo.

Nada reinocenta

a criatura que dorme

junto ao lixo

– os olhos varados de nada,

como um túnel

no centro da noite.

Não temos o direito

de esquecer

– caixas vagam pelas ruas

como colchões sobre os oceanos,

restos de habituais naufrágios.

O ESCORPIÃO

Qual filho a visita

anos depois

deitando sombra

na luz rosada da gruta?

À velha pouco importa o rosto

se é certo que lhe profanam o dia

e lhe seqüestram

a vara, a cuia,

a corda.

“Força é partires comigo”,

diz o filho,

borrando as fronteiras de um mapa

onde nem dívida ou favor havia.

E, no entanto,

que importa ainda o destino

(ao fim de três dias)

se já em seu ventre

o abandono cresce

à proporção do espaço que,

de súbito aberto no teto,

não mais esmaga

seu miúdo corpo

de velha feita menina?

Beija agora o escorpião,

que desce por sua garganta

e é seu.

SEM TÍTULO

Do banco de Mnemosine

tento trazer à tona

minha porção de inferno:

todo ouro que roubei

todo irmão que matei

toda trava

que meus olhos sela.

Queria ainda

a máquina invisível

sugando-me os pés,

conduzindo-me incansável

de vestíbulo a vestíbulo

no oráculo sem sol.

E nada, nem a chuva,

lavando de meus dedos

as membranas, favos de mel,

incita agora as serpentes

cujo morno olhar

me condena à pedra,

plácida estátua

de esquecer.

PHOTOGRAPHIA DE PROMPTUARIO

Gino Meneghetti

anarquista, revolucionário

(são seus filhos Lênine e Spartacus,

e talvez Atéa, Nullo, Vendetta)

cospe merda

enfia no cu a serra

só para achincalhar o sistema.

Contudo

Gino Meneghetti

ladrão elegante

jamais roubou:

trocava o furto

pela flor.

Notem ainda

as sobrancelhas

para fora caídas:

Quem jamais encarou

Gino Meneghetti

em sua tristeza?

SEM TÍTULO

Posto que luz alguma

entre as pálpebras surja,

e, sem ser lâmpada ou lua,

planos de vôo

não possam traçar,

nossos olhos são agora

pasto de mariposas

pouso para uma sede

que em nós já não seqüestra

língua, mãos

ou ventre,

ainda que nos saibamos prestes

a quarenta dias

de um deserto sem deus.

Chantal Castelli nasceu na cidade de São Paulo em 1975. Bacharel em Letras pela FFLCH-USP, onde desenvolve atualmente pesquisa em nível de Mestrado sobre a obra memorialística (Boitempo) de Carlos Drummond de Andrade. É autora de Memória Prévia (São Paulo: Com-Arte, 2000), livro do qual foram extraídos os presentes poemas.

Rômulo

Neves

FEMINILIDADE

Minha barba cresceu neste final de ano,

raspei a cabeça

para manter a harmonia

entre pele e pelo

e o espírito feminino

foi-se embora,

aí coloquei brinco

chorei um poço no cinema,

flori a mesa do jantar.

Nada adiantou,

continuei bugre de grosso casco,

Até depilei a pena

mas a barba não raspo.

ENTREGADOR

doido

com sua bicicleta azul envenenada

nem pedala,

deleta

os obstáculos

à sua frente.

O trânsito, martírio,

é para ele uma toada.

Nem vê o vermelho

e o verde

dos freios e embreagens, o que lhe canta

(e encanta)

é o azul

da sua pedalada.

NÃO É BELO, NEM VIOLEIRO

Visto de dentro é um tormento

visto de fora, se não queima, embolora.

Situa-se mal em todo lugar que pare,

embora ande pisando em falso,

deslocando-se e sempre deslocado no tempo e no espaço.

Cada dia é pior que o outro,

iça uma bandeira de palerma

a cada olho-no-olho,

monta um rabo-entre-as-pernas

a cada dente-por-dente.

Acaba escrevendo para acomodar os caroços, que brotam

das juntas, na fôrma de aço do mundo.

ENCICLOPAEDIA

Tem vinte volumes,

mais dois de dicionário,

milhares de gráficos

e apêndices chatos

e bem no verbete cinema,

que gosto tanto,

fui rasgar a coitada.

Um rasgo bonito,

em que a folha divide-se

na espessura e, por um

breve intervalo,

forma abas que se descolam

mantendo intacto o texto

de um e do outro lado.

Está lá: um rasgo cinematográfico

sem ninguém para descobrir seu talento.

VELHO CARVOEIRO

Aos sete anos

mamãe me fez festa:

aniversário com tema,

como os de super-herói.

Fez fantasia de carvoeiro:

um calção, negrume,

fuligem, magreza,

barro e fumaça,

dia de alegria.

Gostei tanto

há cinqüenta anos

não tiro a farda

fantasia.

COMEÇO

Minha unha quebrou

logo em seguida um dedo

vi ainda minha mão ser esmagada

o antebraço doeu um tanto

o quanto possível para

eu desistir do suicídio.

Desliguei o moedor

e comuniquei o incidente à CIPA.

Aposentado, vivo a incitar

o povo a trocar um pouco de

sangue por liberdade.

PERGUNTO

No elevador penso na roça

Na roça penso no elevador

Carlos Drummond de Andrade

Contraiu os músculos

Que contornam

O olho esquerdo

Enfiou o dedo

Indicador esquerdo

Por trás da orelha

Coçou

De cima para baixo

Três vezes

Com a mão direita

Tirou da boca

O toco de mato

Que apertava com os cacos

De dente

Para poder liberar a boca

E cuspir

Abandonou as cócoras

E, rápido, o pé direito

Descalçou a sandália

E apoiou-se

Na panturrilha esquerda

A mão esquerda

Que abandonou a coceira

Do cocoruto

Apoiou a bacia por trás

Enquanto o ombro direito

Apoiou-se no batente,

Como que se camuflasse de porta.

Apenas depois

De tirar da cabeça

o chapéu, furado na testa,

respondeu:

– Fazenda São Lucas?!

Não sei não, moço.

FALTA DE ENTENDIMENTO

I

As partículas alfa, gama e beta

Fazem uma breve

Porém marcante

Visita à epiderme

Substituem pêlos, cabelos

Óleo e tudo que encontram

Por uma leve, fina e elegante

Camada de pó.

Dão outras formas

Ao elastano e às glândulas sebáceas,

Um choro, de pura ignorância

De desconhecimento

Do valor da mudança,

Como que não sabe

da importância do Napalm

de Ho Chi Min,

é eternizado numa foto.

II

As petúnias espalhadas pela

Terra fofa, devoluta por lei

Não se importam mais com o ruído

Estão em perfeita ordem

Com o metal retorcido

Por entre carnes embebidas

Na seiva rubra e quente

de outras vidas

Os dormentes que saltaram

Sentem-se anos mais novos

Como próprios carvalhos

Jovens e serelepes

A contorcerem-se de prazer

Com ventos noroeste

Nem se importam

Com a algazarra de macas

Sirenes e lágrimas.

III

Como o fogo destituiu

Das cortinas a função

De tapar-lhe os olhos

O saudoso edifício

Pode deliciar-se

Com a ilusão

de serem cometas

os corpos em brasa

que caíam reluzentes

na noite fria

Incomodava um pouco

Os esguichos nas partes baixas

Mas ainda assim

Refrescava

Aquele calor interno

Que lhe subia pelo

Espinhaço,

há muito não o sentia.

As Catástrofes

São rápidas conquistas

De uma nova harmonia

Somos nós

que demoramos para entender.

O SERVO DA FAMÍLIA DO FILHO PRÓDIGO

Busca anel

busquei anel

Busca sandálias

busquei sandálias

Mata novilho

matei novilho

Toca

toquei

a noite inteira

Dava até uma baita pena

do outro filho do patrão

Aí me lembrava

Que ser filho

Já é uma grande recompensa.

Se é filho pródigo

ganha louros

se é fiel,

no mínimo respeito

Se estivesse cá embaixo

na labuta

a história seria outra:

se fiel

ganha um pão

se pródigo

raspa o chão

com a cara.

Então pensava

que era bem feito,

se é para ser injusto

melhor que seja

de mão cheia.

Comecei a servir

ao jovem desgarrado

com muito mais gosto.

TAL

Meu nome é tal, vez por outra passeio de quadra em quadra,

esquinas apagadas de razão, e nego o verso ser meu cabresto,

se bem, menos a alforria ria para o traço lítere do meu carvão.

Meu ofício ocioso soterra ímpeto de baluarte galante,

ante isso, dá-me liso o nome na praça, se bem, menos queria aí

do que no rol dos culpados por um desassossego.

Meu tempo é de ontem, tem tique de futuro, e se conserva agora,

estátua meu ponteiro, no que vi abre compasso para o que quero,

se bem, menos de quero e de vi resta, resta sim o que faço.

Meu nome é tal como conservo atrás do pronome indefinido um

une dez tais que vês, e vez por outra passeio de mim a ti

se bem, menos há de ti a mim que de um tal a outro.

Rômulo Neves é bacharel em Ciências Sociais pela FFLCH-USP. Ator, dançarino, poeta.

     Ruy Proença       

LUGARES

há lugares na alma

tão escuros

que até os cegos

podem contar as estrelas

cadentes

contar as estrelas

e fazer muitos desejos

tantos quantos cabem na alma

de um cego

há praias na alma

tão escuras

que até os videntes

pensam que é céu

cada grão de mica encerra

uma estrela que caiu

de modo que o mundo

da alma

parece não ter pé nem cabeça

FISSURAS

fissuras, porosidade

alvura maculada

alguma umidade

certa aspereza

somos no íntimo parentes

desta quente e velha parede

tantas vezes caiada

O MUNDO É MINERAL

O mundo é mineral.

Quando o fogo

se apaga

paisagens desoladas

cobrem-se de rochas nuas.

O corpo do universo

em nada imita o corpo da mulher.

Antes fosse a cegueira

minha companheira.

Devastado interiormente

nem foi bomba a causa.

Talvez a cabeça de Deus

tenha rolado para planícies mais amenas.

Não poder sentir as raízes

abrindo à unha a terra estranha.

Não poder contemplar os bois

amassando as costas dos morros.

Tudo em verdade é sem esperança.

Só o vento dança

a anônima valsa do gás carbônico.

O milagre foi banido

de onde não existe pecado.

Sou um louva-a-deus sem altar.

Nada a fazer

senão aguardar

a hora da execução.

(Dêem-me de beber

que tenho sede!)

RÉQUIEM

É tudo mentira.

Tu não verás

a lua apodrecer

entre os edifícios

nem o turvo rio

perder o pulso.

Não verás cortarem

a luz do quarteirão

nem tampouco tombar

a árvore na tempestade.

É tudo mentira.

O sol da mais longa noite

voltará a coroar teu céu.

Terás ainda de sobrevoar

o fogo do asfalto

cuidando para não queimar

teus jovens pés descalços.

E um vento lento

cego

bom

sem sobrenome

arrepiará

o espaço justo

infinito

sob tua saia.

Nele

partirás a galope.

BEBÊ NASCE EM ÁRVORE

Podemos imaginar num relâmpago

que o bebê

nasce da árvore.

Mas isso seria

falsa poesia

ou mera futurologia.

Há quatro dias

a mãe está na árvore

fugindo da catástrofe:

a inundação

dizimando povoados

cidades inteiras.

Algumas pessoas estão

no alto das árvores

e nos telhados.

Como nos livros sagrados

a salvação quando existe

vem do céu.

Uma hora

após o nascimento:

um homem uma corda um helicóptero.

CAFÉ-SOÇAITE

McVeigh, extremista de direita.

Explosão em Oklahoma City, 1995.

Saldo: 168 mortos.

Pena: aguardando execução.

Kaczynski, Unabomber, solitário mago da matemática.

A partir das matas de Montana

lançou uma seqüência de atentados com cartas-bomba.

Pena: prisão perpétua.

Yousef, terrorista muçulmano.

Autor intelectual da explosão do World Trade Center, 1993.

Saldo: 6 mortos, centenas de feridos.

Pena: prisão perpétua mais 240 anos

Luís Felipe, chefe da Latin Kings, quadrilha de hispano-americanos no Bronx.

18 delitos de extorsão; mandante de 3 assassinatos.

Pena: prisão perpétua mais 45 anos.

América,

4 de teus filhos

estão urrando nas jaulas:

Timothy McVeigh

Ramzi Yousef

Theodore Kaczynski

Luis Felipe.

4 de teus filhos

4 negras ovelhas

4 vezes

fostes renegada.

QUANDO EU FOR FELIZ

Quando eu for feliz

o céu será claro

e de fácil acesso.

Terá chovido em meu campo

e saberei que a chuva

adocicou meu corpo.

Me dirão: a chuva

lixiviou a ansiedade.

Quando eu for feliz

amarei uma ou três mulheres

que me farão feliz

e que farei felizes.

Quando eu for feliz

não serei mais despejado.

Quando eu for feliz

não serei mais demitido:

trabalharei naquilo

que me faz mais feliz.

Quando eu for feliz

haverá mais poesia

no homem-escritório.

Ninguém sofrerá de Parkinson

Aids Alzheimer.

Ninguém morrerá

por livre e espontânea vontade.

Ninguém ficará louco

senão de amor.

Quando eu for feliz

me bastarão as pequenas coisas:

uma xícara de café

um telefonema

um poema

um cafuné.

MAZURCA

Não parem a festa –

a vida como um transatlântico

ainda que encalhado.

Poesia:

em meio à precária festa

meu modo meu gesto

de aprender a morrer.

Se escrevo diamante

sapato de diamante

sapateado

eu

que não sei dançar

acendo lâmpadas e as penduro

na teia de relações

de um transatlântico em apuros.

As palavras não dormem.

Eu não durmo.

Eu morrerei.

Ruy Proença nasceu em 9 de janeiro de 1957. É engenheiro de minas. Poeta e tradutor. Autor de Pequenos séculos (São Paulo: Klaxon, 1986), A lua investirá com seus chifres (São Paulo: Giordano, 1996) e Como um dia come o outro (São Paulo: Nankin, 1999) e tradutor de Boris Vian: poemas e canções (São Paulo: Nankin, 2001).

Cálamo: entrevista

Sebastião: entrevista

Sebastião: Poesias

Santo André: entrevista

Santo André: Poesias