Poemas Sebastião

Matias Mariani

 

o tamanho dessa casa

essa casa é um

pouco grande

demais

sobram

espaços

entre

muros

sobra

chão

e teto

excessos

que são

fendas planas

se enchem de

fluídos de ausência

quando a deixam sozinha.

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composição

você e um girassol

duas coisas diferentes

pontas de amarelo

fendas negras no azul

você e um girassol

fímbrias

algumas folhas

um rosto que se move

duas coisas

muito sol

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entre

as tetas são quase todas suas

não me sobra nada que eu possa

guardar entre um fechar de mão

e um abrir de pernas todo tipo

de sexo feito com outras coisas

na cabeça uma garganta que alguém

ofereceu entre duas paradas do metrô.

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enquanto não

espero me pego

pensando mas

enquanto não

sobram cílios

espalhados pela

cama e não se

precisa ser nada

de mais para

percebê-los

como larvas

que nunca

viveram

enquanto

não

espero

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uma pressa

acrescida de todas as raivas

me sobe pelo quinto dedo

da mão esquerda

e quando explode

por baixo da unha

escondo o sangue

entre os panos finos

da toalha de mesa

me levanto com calma

me desculpo aos presentes

e escorrego pela porta pequena.

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um senhor,

fábrica de coisa importantes,

não se sente bem pensando

que nesse momento milhares

de pessoas parem ao mundo

sabores diferentes de inutilidades

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armando

eu disse maria você está morando na urca

uma urca ártica compreende ele pertence

ao exército real sueco não é fucionário

público vestido de verde o gabeira me

tinha falado sobre os orelhões pequenos,

para deficientes e crianças, eu disse maria

que seja infinito enquanto dure como diz

não é a toa que existe uma coisa como

Bergman os livros são figuras na sala e

olhos do canário e você compreende ele

havia me pedido um com dedicatória não

pode ir eu mandei e dois dias depois ele morreu.

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fausto

not all the books

even if I had the money and

space to keep them not all the

books even if there was such thing

as a good library down in mexico

city not all the books even if books

and films and cds were the same thing

even if owning was a toothless word not

all the books even if reading was an

activity that attracted me at all.

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carlos

stay in europe:

and there was claude right there

was him he was your color and his

mother mine and he goes to the right

arm of the president of Cote d’Ivore

and says such and such the man sends

his choufeur to the village his mother

stayed in the club med and there was

a bird what do you mean with its two

eyes one in the african priest ripping the

neck of a chicken the other in an unspecific

home in the spanish harlem my daughter is

called I said my daughter is called and wait

a minute, asia, my daughter is called asia

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Dante screams through

half-a-smile and although I

can see some sense on the

study of literature a woman

on a picture knows something

else as she makes me look the

other way I miss a plane that passes

by and three cocroaches that would

make my day seem less as if

it was part of a pointless badly

written but reasonably well

performed play.

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o mundo deste fim

O mundo deste fim

é feito

de brinquedos quebrados (

carrinho sem roda

boneca sem cabeça

plástico que já foi bola

)

O mundo deste fim

é teso

em detalhes arquitetônicos (

pia forrada de barba

cacos de unha

poeira em dobras humanas

)

O mundo deste fim

é medo

da sombra feita de espelho.

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…………………………………………. Palma

…………………………………………. d’

…………………………………………. olho

…………………………………………. :

…………………………………………. borda

…………………………………………. rompida

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rabos de cachorros

a alegria que

co move

o movimento

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você lê

Você lê neste instante:

INSTANTE

e só pensa depois.

Você lê neste instante:

TE QUERO

e pensa que não é com você.

Você lê neste instante:

FILHO MORTO

e pensa em outra coisa.

Você lê neste instante:

LEIA NESTE INSTANTE

mas não se dá conta.

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Escrever palavras

é

fazer barulho

na cabeça dos outros.

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abaixo

do couro claro do seu rosto

feixes de músculos distendem

algo entre o sorriso e o sofrimento

atrás

do vidro azul dos seus olhos

glândulas esguias secretam

algo entre lágrima e lubrificante

através

do nylon negro de suas mechas

o passar do vento emite

algo entre suspiro e assobio.

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praia

a pele

pálpebra

incande

sente

vermelho

a pele

sol

biquíni

afirma-se

a moça

sóis

da pele,

incende

iam

a gente.

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a manhã

Ela, os olhos

quasares radiando

ao nada e ninguém

As mãos frente ao corpo

Dedos fibrilantes, nas pontas

supernovas estourando

…………….Não havia intensidade

…………….que não houvesse nela.

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Braços e pernas

extras

no escuro

toda

pessoa e cadeira

tem.

…………….A solidez da ausência

…………….(em muito excede)

…………….a ilusão de qualquer presença.

Matias Mariani nasceu na cidade de São Paulo em 1979. Autor de Dois pontos (Saõ Paulo: Sebastião Grifo, 1999). Atualmente é estudante do curso de cinema na New York University.

Paulo

Ferraz  

Um arranjo de flores

Dia desses, notei que

no vaso que exponho –

que o síndico não me

escute – na janela –

por uma questão de

luminosidade,

nada mais! – além da

begônia, que há meses,

numa luta contra a

natureza dessas

plantas que se compra

já em flor de ambulantes,

cultivo, havia um broto

mínimo de brinco-

de-princesa. Claro

que o impulso imediato

foi o de arrancá-lo antes

que crescesse. Impulso,

pois logo pensei no

porquê de ter (tinha

suas razões) nascido

neste vaso a trinta ou

mais metros de altura:

primeiro, que fora

por minha conduta

irregular – mereço a

multa? – motivado;

depois, que trabalho

teve o passarinho ou o

vento para ter a

semente trazido

até este andar! De mais a

mais, com um certo aperto as

duas plantas – por Deus o

síndico bem deve

ser cego! – cabiam no

vaso direitinho.

Fim da história, início

do poema: só aqueles

que passaram a noite

numa mesma cama

de solteiro sabem

quanto o amor se espreme.

A partir da topografia

Aprende-se muito

com a ausência. Cito a arte

da cartografia, do

paciente desenho

feito olhos a dentro

sem régua ou compasso,

com o qual catalogo, a

posteriori, pintas,

sinais de nascença, e as

(não sem ser expert no

teodolito) marcas

de uma catapora.

Só no mundo

Malinement, tout près, tout près

(Sapeca, perto, perto) A. Rimbaud

Com certeza não me

viu – por muito que na

rua outras almas vivas

não houvesse e eu seguisse

na direção oposta,

apostando num choque,

num esbarrão (seus poucos

anos – dezesseis ou

menos – palpitavam

no suor nas pestanas,

ralo de pequenas

gotas de um calor que

pouco tem de externo; e

nos mamilos jovens,

nascidos com pressa

sem perder a forma

dos que não conhecem

boca adulta) -, tanto

que, nem um passo além de

mim, num gesto curto e

delicado (um semi

círculo para traz de

si) com o fura bolos

do rego da bunda

tira sua calcinha.

Para Noel

Perfeitas em peso e

medida, duas obras

do gênio me tocam:

são as portas sem trancas

que cedem com um simples

toque (ou, se alto o porre,

com um tombo) e essas louças

para mijar. Nossa,

chegar sem sentir as

pernas, dar de testa

com a parede, abrir o

zíper e observar o

dourado no ralo

não têm tradução!

Prescrição médica

As mocinhas da aula

de canto não tomam

gelado, não caem na

noite, não se expõem a

correntes de vento,

fumar nem lhes passa

pelas cabecinhas

e nunca ouvem Maysa.

Octávio

Octávio, menino,

mirava sua funda

contra os bem-te-vis

(Octávio, pra meninos,

menina) que nada

viam. Octávio usava

brincos com suas penas.

Sangue índio – falava,

balançando a cuca

loira que o lembrava

de índios do cinema.

Depois, cuspia em todos.

Octávio, temido,

também o mais querida.

Beco do Candeeiro

Todos carregam engastada

na alma a sua rua Lopes Chaves,

menos eu, pois tive o beco

do candeeiro extraído, mesmo

sem nele ter caminhado.

Carrego é um buraco. Alguém que

conheça o rato me avise,

vou lá e tomo na porrada.

No canteiro

Bicho ao inverso, cresce

primeiro o esqueleto

descarnado – a pele

lhe é posta por último,

quando o corpo atinge o

tamanho almejado -.

Triste vê- lo assim de

pé no útero-tapume

(feto concebido in

papyru) formando-

se de ferro e vidro –

que o deixarão para

sempre autista – para

ter em si criaturas

frágeis, parasitas

que ignoram onde pisam

comem, fodem, cuidam

de seus filhos, bichos,

plantas -.

Suas sapatas

nunca irão sambar.

Mulher de saia descendo escadas (eu subindo)

Vista em seu constrangimento

de descer de um nível a outro

quase que despida para

quem sobe, impossibilitada

de qualquer reação – fosse antes

uma lufada de vento,

defenderia-se firmando as

mãos sobre as coxas -, sublima

– se no mais perfeito exemplo

de chiaroscuro (um abajur de

langerri – ou de algodão? – brilha

pra mim lá onde o sol na bate).

Vagas para rapazes -ambiente familiar

(A planta o pai trouxe

inteira na cabeça –

do piso à cumeeira

sem esquecer detalhes

e cor – de Paris. O

pai queria ser dono

de um palácio. Quando

nasci havia mais de

dezena de cópias

nos Campos Elísios,

e mesmo na Barra

Funda. Depois vieram

os prédios, o asfalto,

os carros e o pai se

foi. Logo, vendemos

o mármore, os móveis

e um quê de vaidade.

Mamãe tentou por uns tempos…)

Ah, sim, são duzentos

reais o mês num quarto

pra quatro, banheiro: o

do corredor, mas –

aviso – corto a força

após cinco minutos.

(Hoje alugo vagas,

a planta ainda é a mesma

que o pai trouxe, as cópias

nos Campos Elísios

e na Barra Funda

já nem estão de pé.)

Porque não como peixes

Na infância do corpo o

medo das espinhas

transposto pra carne,

preferia a abstinência à

tarefa complexa

de no garfo e faca ou

na boca apartar o

gosto da iminência

de ter a garganta

ferida. Na infância

da alma o medo, o medo.

Maneiras de olhar

Até pouco tempo

garrafas vazias e

panelas sem uso

viravam pintinhos

que nunca cresciam e

minhas rãs tinham lindas

pernas de vedete e

formigas na boca,

dês que muitas, eram

saboroso prato e

minhas pálpebras eram

os interruptores

do sol e… pois veja

que essa infância é coisa

de desocupado.

Paulo Ferraz nasceu em Cuiabá, MT, em 1974. Bacharel em Direito e mestrando em Teoria Literária, ambos pela USP, e autor do livro Constatação do óbvio (São Paulo: Sebastião Grifo, 1999).

Pedro

Abramovay 

Da Poesia

poesia tem um quê de escultura

posto que é arte que não põe, retira

sendo assim o avesso da pintura,

que disfarça o seu ponto de partida

o poeta o perfeito branco perfura

tirando da página sua ambrosia

deixando impressa somente a estrutura:

a poesia que pode ser lida.

Centro

1. Gente

Feixe de corpos

de olhos de peixe

preenche o espaço

(escasso em vãos)

de presença nula

mas absurda ausência.

Passam e esquecem,

a cada passo,

os olhos que cruzam.

2. Prédios

O velho cede

ao quase novo já velho.

O belo cede

ao quase feio já belo.

O forte brilho fosco

se afoga nas antiestrelas

e o conhecimento se

des(in)forma nas palavras-ruído

dos cartazes.

Desvarios de um insone

A madrugada tem um charme

Insuperável.

O seu silêncio

torna cada ruído

intenso.

Talvez sejam os

sonhos

das pessoas que

estão dormindo e que

inspiram a gente.

Quem sabe não é a lua…

É triste ver como

amputaram,

castraram

o céu das grandes cidades

Os homens só olham pra baixo…

ganha-se o dia

e perde-se a poesia.

Talvez seja a falta de

estrelas que me faça estar

aqui,

escrevendo,

um poema comprido,

desses que eu sempre tive

preguiça de

ler.

A madrugada é triste…

É a esperança do outro dia,

que provavelmente vai ser

igual a

todos os outros dias.

Principalmente quando já tiver passado.

Mas enquanto ainda não é,

pode ser tudo, como

o primeiro dia do ano…

É o melhor momento para se estar

só,

é a

ausência do mundo.

De costas pro sol,

de frente pro resto do

universo.

Quero pular pra além dos

li-mi-tes…

A madrugada é a angústia,

é a insônia,

o não conseguir ficar de olhos abertos

e ao fechar os olhos,

um carrossel de imagens.

O mundo fechou a porta e me deixou

do lado de fora,

esperando a manhã,

que não vem nunca.

Que a morte não seja uma

madrugada eterna.

Da pele alheia em meus olhos

escapa ao

pano a pele,

transborda ao

olho, à boca, o

pouco bege e

rege o sonho

Pedro Abramovay nasceu na cidade de São Paulo em 1980. É aluno da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, poeta, tradutor, autor de Ver só (São Paulo: Sebastião Grifo, 1999).

Cálamo: entrevista

Cálamo: Poesias

Sebastião: entrevista

Santo André: entrevista

Santo André: Poesias