Entrevista Sebastião

MATIAS MARIANI, PAULO FERRAZ E PEDRO ABRAMOVAY Revista Sebastião Grifo

por Fabio Weintraub

Conquanto recusem a pecha de sebastianistas – pela falta de nostalgia ou anseio de glorioso resgate da poesia brasileira – os jovens editores da Revista Sebastião partilham da sensação que há algo encoberto no debate sobre a produção contemporânea, indecisa ante inesperados rubicões, talvez perdida numa nova Alcácer-Quibir. Paulo, Pedro e Matias não são apóstolos de uma nova igreja nem partilham ilusões quanto ao advento do Quinto Império. Dispõem-se no entanto a lutar para superar o estado de aparente apatia e intransitividade em que a poesia nacional se encontra hoje, fomentando a discussão desimpedida (contra a retórica publicitária e as estratégias do favor), esquadrinhando tendências, comparando escolhas. Na entrevista que se lerá a seguir, os poetas falam um pouco de seu trabalho como editores e poetas, abordam o problema da dimensão pública (e da figuração do espaço urbano) na poesia realizada por cada um deles e tratam do diálogo possível entre literatura e cinema, entre muitos outros assuntos.

Memorial: O projeto do selo Sebastião Grifo surgiu num local historicamente importante para a “literatura paulistana”: a Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Antonio Candido em seu célebre ensaio “A literatura na evolução de uma cidade” destaca o papel desempenhado por essa academia como “meio plasmador da mentalidade das elites no século passado”. Que tipo de sociabilidade floresce hoje no Largo e em que medida isso “afetou” o trabalho realizado por vocês?

Paulo Ferraz: As realidades da Faculdade de Direito no séc. XIX e início do XX são bem diversas da atual. A nossa geração, pós-ditadura (eu sou de 1974, Matias de 1979 e o Pedro de 1980), é extremamente pragmática (não raro reacionária), conformista e ambiciosa, conseqüentemente, legalista e burocrática. Foto: Fernanda Pittelkow

Nossa geração é extremamente Pedro Abramovay, Matias Mariani e Paulo Ferraz. Foto: Fernanda Pittelkow

pragmática, conformista

e ambiciosa

Os alunos, que compartilhavam o interesse por filosofia e literatura, hoje, ou delas nada sabem ou, quando muito, buscam-nas como “verniz”. Se há uma influência é pela via da negação. De bom, não vejo senão valores individuais, empreitadas particulares que poderiam eclodir em qualquer

outro lugar. Entre esses valores, destaco o LuigiAugusto, vencedor do prêmio da Cult, na categoria romance, e o fotógrafo Mário Rui  Pedro Abramovay, Matias Mariani

e Paulo Ferraz.

 

Feliciani.No mais, a existência de uma Academia de Letras, que mal ou bem conseguimos manter, agrega algumas dessas pessoas, interessadas pelo debate com o contemporâneo. Infelizmente na São Francisco vive-se dos cadáveres do Álvares de Azevedo e do Castro Alves até hoje. O Selo Sebastião Grifo nada tem a ver com a São Francisco, a não ser o fato de termos os três nos encontrado lá.

Memorial: A cidade de São Paulo e as novas formas de organização do espaço urbano constituem tema importante para a poesia de vocês. Falem um pouco das diferentes maneiras pelas quais tal tema é metabolizado por cada um dos três, bem como das novas formas de figuração do espaço urbano presentes na poesia brasileira pós anos 80. PF: Antes de mais nada, me interessa o homem por trás do urbano, suas intervenções e manifestações num meio criado por ele. Por isso tento desenvolver uma poesia que explore as formas de organização, principalmente um certo “equilíbrio caótico” em que vivemos, o novo em contraste com o velho, personagens antagônicas que circulam num mesmo lugar, objetos e imóveis que estão sob os olhos de qualquer um, poluição sensorial, paisagens que se transformam. Vejo o centro urbano como a mais “democrática” das comunidades, já que ninguém está livre de suas manifestações, positivas ou não.

Não se trata de retirar do

lixo urbano o luxo estético

Entretanto, quero frisar que não se trata de retirar do lixo urbano o luxo estético, pois essa é a meu ver uma postura esteticamente equivocada e politicamente conservadora (no mínimo alienada e alienante), não busco encontrar requinte e nobreza no urbano. Nem mesmo, por meio de uma sublimação metafórica, passar do concreto ao abstrato, mediado por citações eruditas, como as que se têm feito nos últimos anos (que alguns dizem ser “irônicas”, mas tenho lá minhas dúvidas). Há certo distanciamento da poesia atual em relação ao nosso tempo, se não nos temas, já que o cotidiano urbano é quase unanimidade, ao menos na linguagem, deslocada, excludente, tendendo às “coisas do alto”. Tenho muitas dúvidas quanto à possibilidade de hoje lidarmos com temas universais e conseguirmos comunicabilidade, ainda mais com o mundo contemporâneo, por isso busco uma poesia que trate de questões particulares desse “centro democrático”, mas que não fique restrita ao registro imagético (essa é outra tendência forte, a mera descrição de fatos e cenas, em geral não indo além disso), ou seja, uma poesia que, com os pés no real, jogue com o os conceitos, valores e a linguagem do leitor, sendo o humor e a ironia recursos que potencializam esse jogo, fazendo o leitor ver-se ao ver o outro, sem super ou subestimá-lo. Quem vê o mundo muito do “alto” perde detalhes, nivela pelo genérico, pelo superficial, falsifica, ou seja, acaba vendo damas boticellianas em vez de operárias, donas de casa, executivas etc.

Pedro Abramovay: Na verdade, no meu caso especificamente, sempre morei em cidades grandes, e a realidade não-urbana me é algo bastante estranho. Além disso, nunca me irritou morar em São Paulo, não me irrito com trânsito, enxergo a composição visual paulistana (e das grandes cidades em geral) como algo muito interessante e, sobretudo, gosto imensamente de arquitetura e urbanismo, o que faz com que minha poesia de alguma forma receba estes fatores

Matias Mariani: Apesar de estar atualmente morando fora do país, continuo considerando São Paulo elemento essencial na minha poesia. Essencial por ser a mais orgânica das cidades em que já morei, orgânica em sua feiúra, em sua desorganização, sua fecundidade. O movimento de suas estruturas e costumes, mesmo sem intento ou objetivo, expõe verdades visuais sobre os seres que a habitam: oleodutos sobre oleodutos no Pinheiros, cartazes sobre cartazes no centro, heras cobrindo pichações nas casas do Morumbi. Esse rol de imagens é essencial para mim, mesmo que só como lembrança, compromisso, enquanto moro em cidade muito mais asséptica. O que transparece em São Paulo é, ao meu ver, aquilo que habita o submundo de toda a metrópole contemporânea, um diálogo ininterrupto, e sempre violento, entre todos os elementos formadores de sua sociedade.

Matias Mariani. Foto: Fernanda Pittelkow A tradição como elemento formativo, não como

caução intelectual

Matias Mariani

Memorial: Quem se depara com o nome escolhido para batizar a revista de crítica literária editada por vocês – “Sebastião” – imagina talvez um projeto com ressonâncias populares. No entanto, ao abrir a revista, vemos que se trata de um Sebastião “de grife” (com lastro erudito), de um projeto sóbrio, de “bom gosto”. Um projeto no qual as mediações culturais e o apuro na formalização parecem predominar em face de uma concepção mais espontânea do fazer poético. O que vocês teriam a dizer sobre isso?

PF: O nome “Sebastião” tem para nós uma genealogia própria: é um editor do séc. XVI, mas ao mesmo tempo não é ninguém, nós reinventamos a personagem, dando a ela a personalidade e a familiariadade (o que pode se encarado como uma brincadeira com os editores reais: José Olympio, Francisco Alves, Martins Fontes e outros) que um nome é capaz de dar. Não nos valemos de palavras de ordem que apontassem para uma plataforma estética ou para as estratégias do selo. Quando se chama uma revista de Klaxon, Antropofagia, Invenção, Navilouca, Poesiaemgreve aí, sim, há ressonâncias estéticas. Em Sebastião não. Talvez essa suposta ressonância seja fruto de um certo descrédito no nome, hoje relegado a pobres, caipiras, nordestinos, pretos e portugueses. Nós não somos os primeiros a adotar um nome de pessoas para uma revista, pense em Joaquim, José (que tinha um Sebastião como editor), Nicolau e Teresa, por sinal, todos nomes populares, mas todas de “grife”. Concepção mais espontânea? De quem? O que mais se tem na poesia de hoje são rigor formal, mediação cultural e erudição. Quem se arrisca ao espontâneo hoje corre todos os riscos de ser tachado de inábil. Não acredito que tenhamos abusado da mediação cultural, pois ainda que as gravuras da revista remetam à uma diagramação à antiga, nenhum texto, nenhum poema, nem mesmo a proposta da revista dependem dessas “mediações”, à diferença de certos poetas cujos poemas necessitam de diálogo, com versos que, de tão cifrados, beiram a incompreensão. Isso não acontece em Sebastião. Optamos, sim, por não usar o papel da revista como o de um jornal, com título e mais duas ou três colunas por página. Nós temos recursos gráficos para não ficar restritos a isso, e nesse primeiro momento o que temos é uma homenagem ao Sébastien Gryphe e ao começo da tipografia, ligando-os diretamente às formas típicas do contemporâneo, sem que, a nosso ver, isso interfira no conteúdo. O que está em primeiro plano, e sempre estará, são os poemas e as análises. Vamos esperar pelo futuro. PA: De grife não, de Grifo. Na verdade, ouvimos algumas pessoas dizerem que se trata de uma revista acadêmica, uma revista não popular. De fato, não temos a pretensão (que outras revistas e sites têm, e é muito bom que a tenham) de com a nossa revista popularizar a poesia. Queremos simplesmente trazer uma nova forma de debate e abrir um diálogo entre crítica e poesia. Acreditamos que com isso estaremos contribuindo com o enriquecimento da história poética brasileira. A popularização não nos interessa muito neste momento.

MM: Qualquer nome escolhido para uma revista traz consigo proposta, mesmo que não necessariamente estética. A nossa escolha de um nome próprio, Sebastião, tem pouco a ver com as citadas “ressonâncias populares”, e menos ainda com o tal “lastro erudito”. Sebastião não se desculpa por ser erudita, à medida que qualquer discussão séria sobre poesia tem o dever de levar em conta aquilo que já foi e está sendo dito sobre o tema. Ao mesmo tempo, porém, ela não encara esse conhecimento como “lastro”, ou seja, algo que ‘garanta’ a validade de seus argumentos, e sim como mais uma dentre as ferramentas utilizadas na construção destes mesmos argumentos. Um elemento formativo e não um modo de caução intelectual. Quanto às supostas “ressonâncias populares” do nome, cremos que um pacto com a popularidade é algo extremamente perigoso em uma revista, ainda mais em época com viés tão profundamente mercadológico como a nossa. Tal compromisso invariavelmente gera um empobrecimento da discussão, além de ter como conseqüência um clima policialesco contra possíveis excessos ‘escolásticos’ dos textos. Acredito piamente que se a poesia irá algum dia voltar a ser algo popular, o será pela sua riqueza e não pela sua privação intelectual. Quem advoga em favor de tal privação, muitas vezes disfarçada de ‘democratização’, faz grande desfavor ao cenário poético atual. Sebastião é Sebastião por nada mais do que uma vontade de fazer desta revista um indivíduo, alguém com critérios e opiniões e, ao mesmo tempo, generoso o suficiente para abraçar as diversas formas poéticas de qualidade presentes no Brasil. É isso que queremos expressar com a escolha do nome. Uma pessoa, um ser que deglute o que está aí, sempre de forma ativa, cerebral.

Memorial: Ainda com relação à revista, vemos, nos três editoriais, um desejo de “grifar a produção contemporânea”, “fomentar a discussão objetiva sobre a poesia brasileira” e resistir ao “charme pós-moderno” de uma certa crítica que, na falta de parâmetros judicativos consistentes, converte a pluralidade de dicções da produção lírica contemporânea numa massa indiferenciada. Como vocês descreveriam esse processo de “esvaziamento da crítica” de um pontode vista histórico, genético?Que modelos/exemplos antecedentes de uma crítica “bem sucedida” vocês pensam em mobilizar para fazer frente à “falência” (ou “abstinência”) crítica em que nos encontramos hoje?

Há muito pangaré com

ares de puro sangue

PF: Os três editoriais reagem implicitamente ao fato de a produção poética contemporânea, embora cada dia melhor divulgada, não ter a recepção crítica merecida, pois o que se tem, em geral,são resenhas, que não vão além doapresentar a obra ao leitor, desvendar alguns “segredos” do livro,e mesmo dar lastro, background ao poeta e algumas classificações vazias e insuficientes. O que queremos é fomentar o debate, ouvir lados opostos, abrir espaço para métodos diversos de análise e de criação, e não necessariamente eleger um paradigma crítico e poético como o ideal, tanto que a revista traz poetas que não estariam juntos se o critério fosse outro. Damos espaço para que se defendam as correntes que houver. O debate pode se dar tanto por via direta, com poeta e críticos de formações distintas; quanto indireta, pela comparação entre as diversas correntes que se apresentam na revista, sendo aí possível a parceria poeta/crítico. Creio que com as décadas de rivalidades vanguardistas, a geração atual parece ter medo de não gostar da obra do outro, de ser tachado de sectário, medo de externar qualquer opinião negativa, mesmo que fundamentada; daí muita superficialidade e tapinhas (ou punhaladas) nas costas. Nem tudo vai bem na poesia brasileira como parece. Do ponto de vista da competência técnica, hoje temos uma poesia de qualidade, comparada à produção anterior. Contudo, do ponto de vista cognitivo, no que se refere à penetração do real, tal poesia se afigura intransitiva, apática, distante, por vezes débil. Queiram ou não, poucos se destacam de fato no turfe que virou a lírica contemporânea. De qualquer modo, há muito pangaré com ares de puro sangue inglês recebendo altas apostas, justamente porque um bom poema hoje se faz com uma boa dose de manejo da língua, citações e intertexto. A pluralidade não pode ser o escudo para a falta de critério. Se há tendências diversas, seria no mínimo interessante que soubéssemos quais são essas tendências, no que diferem ou no que se assemelham em recursos, temas, influências, estéticas, propostas. Eis o problema: o plural não pode ser o amorfo, a multiplicidade de vozes não pode ser desculpa para a surdez. Se a objetividade é um grau de exigência quase impossível de ser alcançado, ao menos queremos evitar o gratuito, seja na defesa, seja no ataque. Essa é a forma de se debater e não de criar polêmicas. Memorial: Além da revista “Sebastião” e da coleção de poesia “Sebastião Grifo”, vocês estão à frente de um site de poesia, o Palavra P. Comentem o projeto desse site aproveitando para falar do papel da internet no debate poético contemporâneo. PA: O Site Palavra P é um projeto que não se concretizou. Em 1999, o Matias e eu trabalhamos em um provedor de internet (MacBBS) e lá tivemos a idéia de montar um site de poesia, afinal tínhamos hospedagem gratuita e facilidade para o registro do domínio. Nossa idéia era fazer uma revista na internet, com alguma rotatividade e com a participação dos leitores. Não queríamos montar um banco de dados, pois isso já existia. Por isso a rotatividade. Além disso queríamos ser criteriosos, sobretudo com relação aos poetas colocados nos espaços “Poesia” e “Poesia Hoje”. Era um lugar para expor um pouco a nossa idéia de poesia. Mas, infelizmente, tanto eu como ele nos afastamos do projeto e ele tornou-se apenas um banco de dados. No entanto, é importante citar que, apesar de nosso total desleixo com a continuidade do projeto, o site foi um dos mais visitados na área cultural, recebeu indicações para prêmios, chegando a ter uma média de 15000 visitantes por mês, muito talvez pelo domínio que conseguimos registrar. Este sucesso fabuloso de público que nós tivemos mostra que a internet vem cumprindo um papel de popularização e divulgação da poesia brasileira. Hoje em dia, qualquer pessoa consegue espaço para publicar seus poemas em sites, e provavelmente vai ser lido por mais gente do que se tivesse publicado um livro por uma editora especializada. Da mesma forma, acreditamos que, com o crescimento do número de revistas poesia, o espaço para publicação cresceu imensamente. É justamente por este motivo que acreditamos que a Sebastião tem um papel a cumprir. As revistas de inéditos existem, são importantes e devem continuar existindo, mas uma nova revista que trouxesse apenas mais espaço para publicação não acrescentaria muito para o cenário poético brasileiro. Memorial: Em comentário ao livro Constatação do óbvio, de Paulo Ferraz, o poeta e ensaísta Nelson Ascher destaca, entre outras coisas, um

investimento na discursividade – freqüentemente submetida a uma sintaxe labiríntica e vazada em “monólogos dramáticos” resistentes ao esgarçamento confessional. Pedimos ao poeta Paulo Ferraz que discorra sobre tal observação à luz de sua produção mais recente.

Paulo Ferraz

Uma arritmia imagética Paulo Ferraz

PF: Em “Constatação do óbvio”, busquei abrandar a participação do “eu-lírico”, optando por um “lirismo de observador”, daí um certo predomínio de cenas sujeitas às investigações da voz do poema, em geral despersonalizada. A forma labiríntica, a discursividade (às avessas, a meu ver, pois os poemas não funcionam nunca como “discurso” em sentido estrito) e a métrica heterodoxa (“uma contabilidadequase abstrata” nas

palavras do Nelson) entraram como recursospara diminuir a presença do “eu”,conseqüentemente do judicativo, do confessional e do melódico, já que as quebras dos versos e a sobreposição de frases rompem com a unidade semântica do verso, retardando a compreensão da frase, criando uma arritmia imagética ao lançar imagens paralelas e intertextos reflexivos. Ou seja, tudo isso cria dificuldades para o espontâneo, evitando “verdades”, deixando espaços para que leitor reconstrua passo a passo o texto, o qual, na expressão popular, “só acaba quando termina”. Hoje tenho testado a possibilidade de usar esses recursos técnicos tocando o subjetivo, deixando uma carga emocional mais aparente, quase que me envolvendo com a cena, principalmente em poemas mais longos (andar numa corda bamba pouco prestigiada), nos quais se faz necessário uma abertura maior ao juízo, à opinião, à comicidade e ao melódico, beirando a narrativa. É um risco que tenho corrido intencionalmente, o de abrandar sem facilitar; manter o rigor sem cair no incomunicável; ser “discursivo”, mas não verborrágico, usar minha voz, mas sem excluir vozes paralelas; ser subjetivo e não autista. Memorial: Matias Mariani, além de poeta, abraçou o cinema como canal criativo. Será possível rastrear, nos poemas de Mariani, algum débito em relação aos procedimentos da sétima arte (técnicas de corte, montagem, recursos narrativos etc.)?

aos procedimentos da sétima arte (técnicas de corte, montagem, recursos narrativos etc.)?

Investigar como a língua invisível do

cinema roça a da poesia  Pedro Abramovay Foto: Fernanda Pittelkow

MM: Acho que, antes de mais nada, o que me interessa é o ponto em que estes dois campos, poesia e cinema, se tocam e se afastam como linguagem, como sistema. Li outro dia uma entrevista com o cineasta/antropólogo francês Jean Rouch, na qual ele defendia a linguagem do

cinema como sendo algo universal, ou seja, uma não-linguagem. Discordo veementemente desta afirmação. Pedro Abramovay

Me vem a cabeça um fato narrado por Jean-Claude Carrière, baseado em depoimento de Buñuel, que até a década de vinte havia em cada sala de cinema espanhola a presença de um funcionário explicador durante a sessão. Este senhor, munido de um longo bastão, gritava para o público, enquanto as imagens se sucediam: “O homem olha pela a janela… Vê a mulher com outro na rua…O homem está furioso…Acabou de reconhecer a mulher… Está com idéias assassinas…” etc. Sua indispensabilidade nascia do fato que o que estava sendo mostrado, sistemas de plano e contraplano, closes e planos-seqüências, era realmente uma nova linguagem, em relação à qual a audiência era praticamente “analfabeta”. O refinamento desta linguagem é evidente ao longo dos anos (passo importante, sendo os cortes no mesmo eixo inseridos pelo próprio Rouch) mas, ao mesmo tempo, como foi ela de tal modo impregnando nossos costumes cotidianos, ganhou a impunidade esperada de qualquer língua franca. Para compreender que tal impunidade não demonstra uma ausência de regras, basta pensar na expressão de espanto que teria um homem do século XIX quando confrontado com um videoclipe da MTV. Dito isto, acho que o meu gosto reside em investigar onde se “roçam” estas duas línguas: a invisível do cinema e a tradicional da poesia. Muitas vezes me agrada também retirar um conceito, um método, que habite alguma destas linguagem e tentar inseri-lo na outra. Acho que empreendi isso, com discutível sucesso, em alguns poemas do meu livro. É claro que não me considero nenhum pioneiro nesta praça. Godard esteve lá antes de todos nós, fazendo o caminho contrário, e antes dele Maya Deren. Na literatura, vemos esse impulso em autores tão diversos quanto o indiano Salman Rushdie e o brasileiro Fernando Bonassi. Enxergo também esse interesse, de forma talvez mais camuflado, em alguns poemas de Frederico Barbosa e Régis Bonvicino. Os autores citados, ao cruzarem as fronteiras entre dois sistemas lingüísticos, nos descrevem, mesmo que acidentalmente, características da Língua como totalidade, como comunicação, como pensamento proferido. Memorial: Pedro Abramovay, em entrevista recente a uma emissora de rádio, falou sobre iniciativas de auxílio aos moradores de rua da região central da cidade. Pedimos-lhe que nos fale um pouco dessa experiência e de seu eventual impacto sobre sua “poética”.

 Foto: Fernanda Pittelkow

Uma inquietação que tem muito a ver com a atitude política do poeta

PA: Atualmente coordeno o Centro Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito da USP. No XI desenvolvemos inúmeras atividades políticas e sociais como trabalhos de alfabetização e adultos, acesso à justiça no Capão Redondo, cursinho pré-vestibular para pessoas de baixa renda, projetos com cooperativas populares, entre outros. Portanto nos últimos dois anos minha vida vem sendo ocupada muito mais com atividades políticas do que com atividades poéticas. Algumas pessoas me perguntam se o fato de eu ser uma pessoa engajada, com posicionamentos de esquerda, não deveria fazer com que minha poesia fosse uma poesia social ou algo assim. Eu não vejo essa influência de uma forma direta. Procuro sempre dizer que a melhor forma de expressar uma idéia claramente – e em política é fundamental que as idéias sejam colocadas claramente – é em prosa. Assim, sempre que eu tenho como objetivo não o texto em si, mas a mensagem que ele quer passar, escrevo artigos – em prosa – para jornais ou revistas. Desta forma, a poesia não aparece como canal para transmitir minhas idéias políticas, meus objetivos com a poesia são meramente estéticos. É evidente que em momento nenhum nego minha realidade e acabo escrevendo sobre o que me rodeia, por este motivo minha atividade política (tanto quanto minhas relações afetivas, minhas aulas na Faculdade, minhas inquietações pessoais, etc.) está presente no que eu escrevo. Além disso, a atividade que nós desenvolvemos no XI nos provoca uma inquietação de espírito que sem dúvida tem muito a ver com minha atitude, aí, sim, política, como poeta. Poeta que não está apenas preocupado em produzir poesia, mas também em discutir e construir o cenário poético brasileiro.

Cálamo: entrevista

Cálamo: Poesias

Sebastião: Poesias

Santo André: entrevista

Santo André: Poesias