Entrevista Santo André

FABIANO CALIXTO, KLEBER MANTOVANI E TARSO DE MELO Poetas de Santo André

por Reynaldo Damazib

Reunidos em torno da livraria e editora Alpharrabio, em Santo André, os poetas Fabiano Calixto, Kleber Mantovani e Tarso de Melo vêm realizando uma poesia minimalista, mas consistente, de refinada construção. Já em seus primeiros livros demonstram uma inquietação criativa e uma experimentação criteriosa com o verso, procurando condensar imagens fortes em estruturas mínimas, elípticas. Poetas e corinthianos apaixonados, os três editaram a revista de poesia Monturo, importante veículo alternativo de divulgação e reflexão sobre os rumos da nova literatura brasileira, e lançaram recentemente o livro Um mundo só para cada par, produção coletiva com poemas de amor. Além de revelar maturidade no trato com a forma, a edição apresenta um releitura crítica do lirismo, incorporando reflexões estéticas e filosóficas, assim como as ruínas do cenário urbano. Nesta entrevista os três falam de expressão e rigor, da resistência dos meios literários, de influências literárias, de processo criativo, do conflito entre o mundo contemporâneo e as incertezas do eu lírico. E, claro, da militância clandestina da poesia.

Memorial: Pode-se falar em um “núcleo de criação” de Santo André, formado em torno do trio de poetas Tarso de Melo, Fabiano Calixto e Kleber Mantovani? Existe uma militância poética organizada entre vocês, ou o encontro se deu por afinidades literárias? Neste caso, quais seriam as afinidades?

Tarso de Melo: O que ocorre aqui em Santo André tem certas semelhanças com o quadro geral paulista ou nacional, quanto à literatura, em que diversos autores, paralelamente à sua produção pessoal e isolada, tentam amenizar esse isolamento através de revistas, encontros, debates etc. Em Santo André, talvez por causa de suas dimensões culturais, há um “ponto de encontro” mais determinado, a livraria e sede da editora Alpharrabio, funcionando como um espaço de tendências variadas, democraticamente, de modo que nós três – Fabiano, Kleber e eu – constituímos apenas mais uma das vozes que passam pelo Alpharrabio. Nesse sentido, podemos representar Santo André, mas não propriamente como destaque da voz geral, apenas como uma de suas vozes atuais. Ainda que não sejamos uma “milícia” organizada, já por diversas oportunidades nos manifestamos em conjunto, em leituras, numa revista (a finada Monturo), e agora no livro Um mundo só para cada par. Todas essas ocorrências se deram de forma natural, sem qualquer programa, e certamente determinadas por afinidades literárias maiores entre nossas vontades em alguns momentos, maiores em relação às que mantemos com outros escritores que passam por ali. Essas afinidades, basicamente, definem-se pelos autores que aceitamos como influência e também pela postura em relação à tradição literária brasileira, com sentido evolutivo, crítico, contemporâneo.

Os poetas se fecham em

determinados nichos

Memorial: Há o predomínio inegável de versos enxutos, com cortes abruptos e choques sintático-semânticos nos livros Fábrica, A lapso e Sombras em relevo. Que princípios estéticos norteiam os trabalhos dos três? Com que autores vocês dialogam na poesia contemporânea?

TM: É engraçado apontar as semelhanças que, de fato, há entre os três livros citados, no momento em que lançamos um livro que, a meu ver, deixa claras as tomadas diferentes que fizemos a partir deles. Esse livro, Um mundo só para cada par, ainda que marcado também por “versos enxutos”, “cortes” e “choques” – o que talvez ocorra devido ao temperamento dos autores e de uma postura em relação ao poema que necessariamente manifesta-se através de forma curta e elíptica – já apresenta um vôo um pouco mais largo para as imagens. Posso falar pelo meu caso: sinto uma “liberdade” maior quanto aos métodos de escrita, deixando o fluxo do poema um pouco (bem pouco) mais livre se comparado com a

concisão explorada em A lapso. Não que eu acredite que em A lapso eu tenha expulsado qualquer imagem mais “poética” – até mesmo vejo nele coisas que, com mais “engenho e arte”, eu teria tornado mais oclusas, escondidas, difíceis. Mas agora sinto-me num momento de pesquisar outras coisas, de encontrar outros referenciais. E até mesmo para dizer com quem é meu diálogo atual, esse momento – entre a transição e o questionamento – torna a resposta muito perigosa, pois tenho tentado todos os diálogos possíveis, com outras artes, com outras literaturas, com outras pessoas, com outros ramos do conhecimento. Talvez o melhor diálogo.

Kleber Mantovani: Não vejo em ninguém de nossa geração este “princípio estético”. Vejo um período de transição em que as experiências se fazem presentes e são importantes. No momento não me vejo seguindo um princípio estético determinado, o que considero como redutor das possibilidades da poesia. Falar em diálogo… Andam falando muito em diálogo ultimamente. É um sintoma da falta de diálogo. Os poetas se fecham em determinados nichos, pouco ou nada estéticos, mas econômicos, devido à política editorial dos jornais, e fazem poemas, e se publicam, sem se importarem com o leitor em particular. Fica difícil este diálogo. Um poeta que eu gosto muito é o João Cabral e se essa afinidade pode ser chamada de diálogo, tudo bem.

Memorial: Como surgiu a revista Monturo? Qual o projeto literário que a orientava e por que a revista parou de circular? Apesar das dificuldades, há sempre novas revistas literárias sendo lançadas no país, como as recentes Babel, Sebastião e Sibila, além da persistência de outras, como Inimigo Rumor e Medusa. Qual a importância desse tipo de publicação no mercado editorial brasileiro?

TM: Sempre acreditei no potencial revolucionário das revistas literárias, tanto pelos exemplos históricos, quanto por aquelas que tenho conseguido ver de perto. Acho louvável, mesmo, que algumas durem décadas, sempre revolucionando a si mesmas, como forma de sobrevivência. Mas também penso, às vezes, que é da natureza de publicações como Monturo surgir bruscamente e desaparecer em pouco tempo – apenas como pólvora, flash, luz no fim do túnel. Assim foi com a revista, que surgiu de discussões que nos interessavam e não víamos em outras revistas à época, cerca de 1998, um jeito de mostrar os poemas junto a entrevistas curtas, traduções, ensaios, até mesmo para passar a idéia de que a coisa x deve ser lida no horizonte y sem que isso exclua outras possibilidades de leitura. E a revista acabou quando tais questões já pareciam insuficientes para alimentar o projeto, os números seguintes, e que a revista, portanto, já não fazia mais sentido – além de problemas de outras ordens, que não vêm ao caso. Mas há sempre a vontade de fazer uma nova revista e, certamente, hoje eu editaria uma revista completamente diferente de Monturo. Por isso acredito ser da natureza da revista mudar, transformar-se, não se conformar ao seu próprio projeto.

As discussões sobre

poesia emperram numa

postura “qualquer coisa”

Memorial: No editorial da segunda edição da revista Monturo, vocês dizem que o problema da atual geração de poetas no Brasil não é ser retórica, como afirmam alguns críticos, mas ser qualquer coisa. Poderiam explicar melhor esta idéia?

TM: Isso é algo que ainda hoje, freqüentando livrarias, imagino. Há, todos sabem, uma avalanche de livros de poesia (mas não só de poesia), de editoras gigantescas, minúsculas, médias, auto-edições, tudo – e não falo aqui da expressão dita literária que serve a propósitos os mais diversos, como anjos, religião, auto-ajuda. Refiro-me mesmo àqueles livros que abrimos, folheamos, lemos a orelha, resenhas, e não há nada que nos envolva naquela atmosfera que os leitores de poesia costumam encontrar nos textos. Antes – e ainda hoje há quem atire em sentido contrário – as propostas de modernização da literatura encontravam resistência por parte de um meio literário viciado em certo modo retórico de expressão artística. Hoje, se não for possível apontar tal resistência, não será difícil, no entanto, verificar que as discussões sobre poesia estão emperradas por uma postura “qualquer coisa” – sem projeto, sem proposta, sem vigor – em relação à poesia. Era a isso que o editorial de Monturo se referia. Mas – para não deixar dúvida quanto à existência delas – lembro que há sempre exceções surpreendentes.

Memorial: No livro de Kleber Mantovani, Sombras em relevo, há uma epígrafe para o poema “escrevo”, que fala de uma língua africana em extinção, el molo, que estaria sendo anotada por um professor com grande dificuldade, pois restaria apenas um pescador de 84 anos praticante daquele idioma. Essa luta para manter a linguagem contra o tempo e a morte seria uma metáfora para a poesia?

KM: Esta pode ser uma das inúmeras outras metáforas da poesia e mais, da própria função da linguagem. Naquele caso, o que me chamou a atenção foi o caráter heróico do professor, anotando a maior quantidade de palavras possíveis, na ânsia de preservar sua própria cultura, mesmo sendo ele um não-falante desta língua. Temos inúmeros outros exemplos pelo mundo afora, como a causa do Timor, em que há esta preocupação em não se deixar dominar por outras culturas. É o mesmo tema que abordo no poema “qual chão”. Aconteceu depois de ler o livro Céu Vazio – 63 poetas eslavos, de Aleksandar Jovanovic, em que ele expõe a dura realidade do povo no leste europeu, em que não há uma tradição cultural estática – do ponto de vista geográfico que delimita a soberania nacional – e nesta babel cultural há estes conflitos todos que conhecemos, limpeza étnica, refugiados etc. Um problema político, que acontece ao largo dos interesses do povo, e que torna impossível a convivência pacífica entre eles devido, principalmente, aos limites impostos por esta diversidade lingüística.

Antes de escritores,

 somos leitores

Memorial: O poeta e tradutor Júlio Castañon Guimarães situa o livro A lapso, de Tarso de Melo, na linhagem “de uma poesia que se quer construção rigorosa”. Ao mesmo tempo, há referências a Murilo Mendes e a presença de elementos pictóricos na formulação dos poemas. Como se dá, para o autor, a relação entre o construtivo e o imagético na criação dos textos?

TM: É motivo de muito orgulho o fato de ter a orelha de meu livro assinada por um poeta-crítico como o Júlio, aliás, um dos maiores estudiosos da obra de Murilo Mendes – que tem sido leitura quase diária já há alguns anos. Bons leitores geralmente são capazes de apontar nos poemas uma poesia mais rica do que o próprio autor confia ter colocado no livro. A tendência natural, e necessária, é de que o poeta sinta muita desconfiança quanto à realização de seus poemas, o que se resolve apenas quando os poemas são lidos, comentados, discutidos – e a função de pedir uma apresentação para o livro deve ser mesmo essa: uma prévia das discussões que o livro pretende suscitar. Digo isso para afirmar que o aspecto da relação entre construção e imagem é o que mais atormenta meu processo criativo, minha relação com meus poemas, por ser nesse ponto que acredito poder

encontrar o que imagino como próprio de minha expressão. Mais do que recursos indissociáveis, é sua natureza. Antes de escritores, somos leitores (alguns se esquecem disso, mas devemos ser), e quando escrevemos, entre outras coisas, tentamos resolver nossas influências de forma particular, de forma nova. E essa recombinação das leituras – somada ao que não é só leitura – pela subjetividade de cada autor é que alimenta a inesgotabilidade da criação (e aqui me ocorre o exemplo de Borges). Retornando à questão, posso afirmar, no meu caso, que tento esse arranjo de influências (não só literárias, repito) justamente sob uma tendência à contenção, ao adensamento, à construção consciente, e, lado a lado, um interesse profundo pelo potencial poético de imagens como as da poesia de Murilo Mendes ou João Cabral de Melo Neto, que talvez seja o poeta que melhor resolveu essa mesma confluência entre a riqueza das imagens e sua “construção rigorosa”. O tormento criativo a que me referia, hoje consigo ver mais claramente, reside no ponto exato em que a contenção ameaça a imagem, e vice-versa. Ou mais, em que a própria expressão se vê ameaçada pelo gosto que tenho por dizer contido, trancado, elíptico. Essa é minha preocupação.

Memorial: Fábrica, de Fabiano Calixto, é quase um livro de apontamentos poéticos do cotidiano, com fortes imagens de um subúrbio industrial decadente e seus relâmpagos de epifania. Como conciliar as incertezas do eu lírico com a materialidade crua desse cenário urbano corroído, na linguagem cifrada do poema?

Fabiano Calixto: As incertezas do eu lírico estão intrinsecamente ligadas à essa materialidade crua do cenário urbano, ou seja, no desespero construtivo e sensitivo do ato da criação. A linguagem, para mim, está acima, de uma forma ou de outra, desse possível conflito. Não que eu queira escrever algo sem sentido ou vazio, muito pelo contrário; quero escrever o poema mais ímpar que se possa ler. Duda Machado, por exemplo, em seu extraordinário “Carapicuíba” do livro Margem de uma onda, escreve sobre a barra de sair do trabalho, depois de um horário rígido, e pegar uma condução entupida, sem espaço, quase sem ar, um verdadeiro teste de claustrofobia; e o poeta não se limita à semântica: o poema propõe uma forma e demonstra a consciência de linguagem do autor. Isto é o tipo de engajamento que eu gosto (e que pratico), do poeta que escreve sobre seu mundo, sem cair na gagueira participante do tipo Violão de Rua ou coisa parecida.

Resumindo: a vitalidade do artefato verbal e a consciência do estar-no-mundo: isso para mim é a tensão, e isso é poesia.

Cálamo: entrevista

Cálamo: Poesias

Sebastião: entrevista

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