Entrevista Cálamo

CHANTAL CASTELLI e RUY PROENÇA – Grupo Cálamo

por Fabio Weintraub

Que tipo de serviço pode ser realizado numa “oficina” de criação literária? Como limpar o carburador de um poema? É possível verificar a suspensão de um verso? Soneto tem freio de lona ou de pastilha?

Eis perguntas que se pode fazer aos poetas do grupo Cálamo, núcleo originado a partir do projeto de oficinas culturais da Secretaria do Estado da Cultura.

Em entrevista exclusiva para o site do Memorial, Chantal Castelli e Ruy Proença recuperam o percurso do grupo (livros, recitais, pesquisas), em atividade há mais de uma década, relatam algo dos impasses e vantagens ligados à criação em grupo, falam das influências decorrentes da leitura dos grandes nomes de nossa tradição lírica e se posicionam em relação ao “arrivismo literário” vigente no Brasil neste início de século.

Memorial: A constituição do Cálamo está ligada ao projeto de oficinas culturais desenvolvido pela Secretaria de Estado da Cultura. Vocês poderiam fazer uma pequena retrospectiva do percurso do grupo desde então e falar da importância dessas oficinas para a vida literária de São Paulo?

Ruy Proença: De fato. O Cálamo surgiu de encontros em oficinas de poesia, realizadas a partir de 1990. Estas oficinas faziam parte de um projeto maior de oficinas culturais, englobando diversas modalidades de arte, implantado pelo governo Montoro na Oficina Três Rios, em 1984, e que, em 1990, foi desdobrado em muitos centros de trabalho, ao final da gestão de Fernando Moraes à frente da Secretaria de Estado da Cultura. Com a multiplicação e a especialização das oficinas, as de literatura foram concentradas na casa que foi de Mário de Andrade, à Rua Lopes Chaves, nº 546, e que passou a se chamar Oficina da Palavra (“Nesta rua Lopes Chaves / Envelheço, e envergonhado / Nem sei quem foi Lopes Chaves. // Mamãe! me dá essa lua, / Ser esquecido e ignorado / Como esses nomes da rua”).

De início, no final de 1990, alguns participantes das oficinas de poesia, como Rodolfo Dantas, Suzana Montoro, Marcelo Lima, Joacyr Bezerra Lima, Fabio Weintraub, Delza Faldini, Anderson Gomes Mota e Chantal Castelli, formaram um pequeno núcleo que se reunia à parte da programação oficial para levar a cabo projetos próprios de poesia, entre eles um mural a ser exposto na própria Oficina da Palavra. No decorrer de 1991, dois participantes desistiram, enquanto outros foram sendo atraídos pelo grupo, entre os quais eu, Flávio de Souza Corrêa, Cesar Garcia Lima e Beth Nanni.

Éramos então dez pessoas. Tínhamos em comum a passagem por várias oficinas literárias, oferecidas, entre outros, por Fernando Paixão, Carlos Felipe Moisés, Duda Machado e Eunice Arruda; tínhamos o vício da poesia e uma vontade de traçarmos nosso caminho.

O que passamos então a chamar de “oficina” eram nossos encontros aos sábados à tarde, cujo objetivo principal era exercitar a criação individual de textos a partir de um estímulo compartilhado, oferecido a cada encontro por um dos participantes. Ao final do dia, fazíamos uma roda de leitura para dividir resultados e tecer comentários. Paralelamente ao trabalho de criação, os encontros passaram a ser uma oportunidade, por meio da troca de informações, de nos atualizarmos com relação a tudo que dissesse respeito à poesia.

O projeto de oficinas literárias do Estado infelizmente minguou rapidamente após a eleição de Fleury. Não obstante, o Cálamo prosseguiu seu trabalho, mesmo quando a porta da Oficina da Palavra se fechou para o público. Isto é, obtivemos uma autorização especial para continuarmos nos reunindo na casa, apesar da inexistência de atividades “oficiais”, de programação regular.

Nosso primeiro projeto de livro coletivo foi a publicação de uma antologia de poemas de nossa autoria – em parte criados na oficina e em parte provenientes da produção individual. Essa antologia chamou-se Lição de Asa e saiu pela Iluminuras, em 1993.

                                                      

Um grupo de                                      Ruy Proença e Chantal Castelli

autogestão

sem plataformas

A partir de Lição de Asa, mudamos nossa maneira de trabalhar: passamos a eleger temas ou autores como objeto de estudo. Além da criação de textos, criamos um núcleo cênico para a elaboração de recitais, dos quais falarei mais adiante. Trabalhamos assim sucessivamente com Mário de Andrade, Jorge de Lima, com os poetas árcades e textos sobre a Conjuração Mineira, Guimarães Rosa, poesia erótica, textos jornalísticos e, de uns tempos para cá, estamos trabalhando com Drummond.

Frutos dessa atividade foram mais duas antologias do grupo – Vila Lira Rica (SP: edição dos autores, 1995) e Desnorte: leituras em torno à obra de Guimarães Rosa (SP: Nankin, 1997) -, vários recitais de poesia, discussões com outros autores, com críticos e com professores de literatura, participação em debates, etc.

Ao longo desses anos todos (mais de dez anos!), a composição do grupo foi se modificando parcialmente. Alguns saíram e outros foram entrando. As experiências e informações foram se alargando. Entraram no grupo: Sylvia Manzano, Rosa Mattos, Luiz Gonzaga Neto, Elaine Armênio, Bráulio Lopes, Priscila Figueiredo e Ana Paula Pacheco. Nessa época, a participação no grupo girava ao redor de 12 pessoas.

Mais tarde, por volta de 1999, o inevitável: a Oficina da Palavra acabou se fechando também para nós. Passamos então a nos reunir na Biblioteca Infanto-Juvenil Viriato Corrêa. Nessa época, entraram para o grupo Rosana Piccolo, Fernando Talarico, Cecília Toledo, Marco Aurélio Peluso, Rômulo Figueira Neves e Luís Inácio Costa. Ao todo, entre reuniões do grupo e discussões abertas, recitais, etc., calculo que terão participado das atividades do Cálamo, nesses 10 anos, ao redor de uma centena de pessoas.

O trabalho do Cálamo foi importante, diria até fundamental, para o desenvolvimento do trabalho individual de cada autor. Hoje, vários autores do grupo já têm trabalhos publicados: Chantal Castelli, Fabio Weintraub, Rosa Mattos, Rosana Piccolo, Luiz Gonzaga Neto, Marco Aurélio Peluso (novela), Sylvia Manzano (contos infanto-juvenis) e eu. Outros, embora ainda inéditos em livros próprios, já publicaram em antologias e revistas, e têm trabalhos praticamente prontos para publicação, como Priscila Figueiredo, Ana Paula Pacheco (contos), Rodolfo Dantas, Bráulio Lopes, Joacyr Bezerra Lima, Luís Inácio Costa e Rômulo Figueira Neves.

Memorial: À diferença de outros grupos, vocês não somente discutem e divulgam os poemas uns dos outros, mas também criam em conjunto. O trabalho desenvolvido dessa maneira não corre o risco de homogeneizar as vozes (ou mesmo os padrões de gosto e avaliação) dos membros do grupo?

Chantal Castelli: Penso que o principal aspecto do grupo reside no fato de ser um grupo de criação. Além disso, o Cálamo é um grupo de autogestão, não possuindo líderes ou mesmo plataformas. Sendo assim, a diversidade de dicções poéticas é uma de suas características, que é, ao contrário, favorecida pelos encontros de criação e avaliação. Temos o privilégio de estarmos entre pares, o que, como observa Auden, permite que critiquemos os trabalhos uns dos outros com disponibilidade e honestidade.

O Grupo CálamoUma certa sintonia

pode aflorar

RP: Apesar de criarmos sob um mesmo teto, sob um mesmo estímulo, a criação é um ato soberano, individual, intransferível. Cada autor é dono de uma voz singular. Não temos plataformas, manifestos. Estamos abertos para o mundo, correndo riscos, errando. Pessoalmente, imagino esse trabalho um pouco como o de uma banda de música, no que tem de troca de experiências, e um pouco como o dos pintores do grupo Santa Helena, que saíam juntos para pintar, armavam seus cavaletes diante da mesma paisagem e, no entanto, produziam coisas diferentes.

É claro que, com o passar dos anos, acaba havendo, entre alguns membros do grupo, uma afinação de valores e critérios de avaliação, uma certa sintonia, que pode aflorar aqui e ali na poesia. É uma evolução natural, mas isso não chega a anular a marca pessoal dos textos. Além do mais, mesmo essa possível sintonia precisa ser relativizada, pois dentro do grupo há diferentes interesses, diferentes visões de mundo, diferentes graus de envolvimento com a poesia… e vai por aí a fora.

Memorial: Examinando as antologias publicadas pelo Cálamo, nota-se um empenho em dialogar com a tradição, elegendo autores e obras muito diferentes entre si: os poetas árcades, Mário de Andrade, Guimarães Rosa… O que determinou a escolha desses autores? De que maneira o estudo e a “leitura poética” dessas obras influencia (se é que se pode falar em influência) a produção individual de vocês?

CC: Dentre as diferentes propostas de pesquisa apresentadas pelos poetas do grupo, procuramos escolher autores ou temas que ampliem nosso repertório e cujo estudo enriqueça nosso trabalho de criação. A “influência” pode ocorrer em diferentes níveis, uma vez que cada poeta apropria-se de modo distinto da leitura e do estudo de cada autor. O que é importante ressaltar é a importância mesma desse diálogo com a tradição. Nenhum poeta pode supor-se destacado daquilo que o precede, o que seria no mínimo ingenuidade. A “originalidade” só pode ser proclamada nos termos de uma volta às origens, reatualizadas pela experiência particular do poeta.

Sempre corremos o risco do pastiche  Chantal Castelli e Flávio de Souza Correa

 

RP: O modernismo nos colocou diante de um falso dilema: a revolução estética permanente ou nada. O “novo” passou a ser o carrasco do ex-“novo”. Se isto teve algum sentido num momento histórico preciso, de embate entre visões de mundo, não se pode dizer o mesmo quando consideramos um plano histórico mais largo. A própria noção do novo criou sua tradição e, no fundo, verificou-se que a idéia de uma arte de gênese espontânea não passava de utopia. Todos nós, queiramos ou não, bebemos em alguma tradição. Se assentamos mais um tijolo na tradição ou se usamos o tijolo para demolir os alicerces da tradição, pouco importa. Sempre há o diálogo intertextual. Por isso, com humildade, resolvemos revisitar alguns de nossos predecessores: Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Mário de Andrade, Jorge de Lima, Guimarães Rosa e, atualmente, Drummond. Nem sempre foi fácil a tarefa. Aprendemos um pouco e, certamente, restaram muitas lacunas. Enfim, como o cosmos, o tempo de poesia é feito de alguns pontos brilhantes e muita escuridão.

Trabalhando com autores tão altos de nosso repertório, sempre corremos o risco do arremedo, do pastiche. Mas o que importa mesmo, é discutir, se é que isso é possível, as bases da criação, procurando entender diferentes modos de apropriação do mundo na linguagem, princípios criativos, procedimentos operacionais, etc. Simultaneamente, vamos fazendo nossas escolhas. A poesia, em geral, é uma aliança de conhecimentos e experimentos técnicos de linguagem com a experiência pessoal, com a visão de mundo pessoal. Neste sentido, parafraseando Drummond, “poesia se aprende fazendo poesia”, como amar se aprende amando. E discutir a poesia ou o texto alheios é uma maneira de refazer percursos de criação que podem enriquecer nossa experiência pessoal.

Memorial: O Cálamo se define como um núcleo de pesquisa, criação e difusão de poesia. Além dos livros publicados, de que outras formas o grupo tem assumido os encargos da difusão poética? Como funciona o “núcleo de recitais” do grupo? Quais as dificuldades envolvidas nesse trabalho de transposição cênica dos poemas? Qual a importância e a eficácia desse tipo de iniciativa no que se refere à formação de público para a poesia.

CC: O Cálamo já apresentou diversos recitais, com poemas, entre outros, de Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Jorge de Lima… Evidentemente nem todos os poetas do grupo participam dos recitais, que implicam habilidades diversas da escrita poética, este o principal trabalho do grupo. As dificuldades dessa transposição cênica dos poemas vão desde aspectos materiais, como local para apresentação e ensaios, iluminação, etc. … até os inerentes à natureza dessa atividade, uma vez que os poemas são acima de tudo para serem lidos. Sendo assim, a escolha e apresentação do repertório deve considerar sua capacidade de assimilação por uma platéia mais ou menos exigente. Não acredito que esse trabalho forme novo público para a poesia, mas que seu público seja justamente o daqueles que já são leitores e apreciadores de poesia, proporcionando-lhes novos modos de apreendê-la.

O grupo Cálamo encenando Tietes do Tietê  Não acredito que

os recitais

formem novo

público para

a poesia

RP: Além dos projetos de livros coletivos, que já há algum tempo deixamos de lado, uma parte do Cálamo se dedicou à elaboração de recitais, funcionando como um núcleo cênico dentro do grupo maior. Fazem parte desse grupo Fabio Weintraub, Flávio de Souza Corrêa, Rodolfo Dantas, Chantal Castelli e Priscila Figueiredo. Vários desses recitais foram realizados em colaboração com músicos e atores. É o caso, por exemplo, de Edu Viola e Lu Maria, do Duo Bico de Pena (Renato e Angelique Camargo), das atrizes Marina Bastos e Marlene Desidério. Os espetáculos foram sempre concebidos como uma mistura de teatro e música. O próprio núcleo cênico do Cálamo se encarregou da conceituação de cada espetáculo, chamando, de vez em quando, diretores para supervisionar o trabalho (como ocorreu com Isabel Setti, no espetáculo Hoje, o Tejo). Até se chegar às apresentações, uma série de ensaios são realizados. Tentando recuperar de memória alguns dos espetáculos apresentados, posso citar: Arlequinada polifônica (Mário de Andrade), Jorge de Lima: tributo inconsútil (Jorge de Lima), Gonzaga, Marília e outras minas (Arcadismo e Conjuração Mineira), Tietes do Tietê (poemas sobre o Tietê), Hoje, o Tejo (poesia contemporânea portuguesa) e Café com Bandeira (Manuel Bandeira).

Os resultados dos recitais foram sempre muito gratificantes. É pena que as horas gastas em ensaios sempre tenham sido infinitamente maiores que as gastas nas apresentações, o que impediu se levar o resultado do trabalho a um público mais amplo. Apesar disso, julgo que quem teve oportunidade de presenciar algum desses espetáculos se sentiu recompensado.

Memorial: Em entrevista recente para o site do Memorial, o poeta Aníbal Cristobo fez menção ao flerte perigoso dos poetas com a indústria cultural, à excessiva adesão aos esquemas publicitários. Como vocês encaram os lobbies e o tráfico de influência entre os poetas? Qual a cara do “arrivismo literário” no raiar do terceiro milênio?

A poesia não

é feita também de matéria indigna?  Chantal Castelli e Rodolfo Dantas

CC: Um dos aspectos desse “comércio” literário é a tentativa de conciliar contrários, modificando a linguagem poética de tal modo que o poema resulta em algo diverso dele mesmo, muitas vezes um videoclipe ou uma propaganda. Vai sem dizer que não é minha intenção proclamar um isolamento da escrita poética em relação a outras formas de expressão. Entretanto, sabemos que o poema é essencialmente o trabalho com a palavra, e que possui um tempo próprio, avesso ao tempo da televisão ou da publicidade. A tentativa oportunista de adequá-lo a estes esquemas é, no mínimo, falseamento de sua natureza.

RP: Um dos efeitos nefastos catalisados pela maneira de agir dos poetas concretos, que dominaram como ninguém os meandros da propaganda, foi que cada poeta se tornou um publicitário de si mesmo. A invisibilidade é, para os poetas, uma doença fatal. Raros poetas gostam de pregar no deserto e, mesmo aqueles que assim o fazem, por contraste, ironicamente também acabam por conquistar seu lugar ao sol.

Feliz ou infelizmente, a mídia hoje é o meio mais prático de se chegar aos leitores. Como há mídias e mídias, é preciso distinguir o joio do trigo. Ninguém condenaria em bloco o aparecimento de várias publicações literárias que têm dado vazão à produção recente, por mais “mercadológicas” que algumas delas possam ser ou parecer. Por outro lado, em sã consciência, seria difícil imaginar um poeta declamando seus textos no programa do Faustão. Entre um e outro extremo, entre as maneiras legítimas e as ilegítimas de divulgar o trabalho, fica o vasto pântano onde muitos poetas chafurdam – interesses materiais, tráfico de influência, trocas de favores… tudo o que é detestável quando se trata de poesia. Mas afinal, assim como a vida, a poesia não é feita também de matéria indigna?

Memorial: Ultimamente o grupo de vocês anda desenvolvendo um trabalho de pesquisa (e criação a partir da pesquisa) sobre a obra de Carlos Drummond de Andrade. Falem um pouco desse projeto, aproveitando para comentar a “administração” do legado drummondiano pelas novas gerações de poetas.

 Espetáculo Gonzaga, Marília e outras minas                             O diálogo com a tradição em termos de “herança” ou “legado” soa como apropriação indébita

CC: O modo como a pesquisa sobre a obra de Drummond resulta em estímulo para a criação poética segue a diversidade do grupo, já mencionada anteriormente. Sendo um projeto em andamento, não é ainda possível visualizar a totalidade das criações. Penso, entretanto, que o que aparece mais são os temas presentes na obra de Drummond, mais do que questões relativas ao seu modo de expressão. Uma hipótese é que, ao contrário de um autor como Guimarães Rosa, que já foi alvo de um projeto do Cálamo, Drummond não possui uma escrita tão fortemente marcada pela transfiguração e pela originalidade (no sentido que já aponto na questão 3) sintática e lexical. Tal característica impede, em certa medida, as tentações do pastiche, obrigando-nos a outras formas de interpretação. Isso não significa que os riscos de mimetizar a obra de Drummond não estejam presentes, mesmo que pelos temas que nela são mais facilmente reconhecidos: a “vida besta”, o gauchismo, as origens familiares, a negatividade, entre outros. É nesse aspecto que talvez se reconheça a “herança” de Drummond em tantos poetas nossos contemporâneos. Porém mais do que pensar em termos de “herança” ou “legado”, que muitos gostam de apontar em escritos alheios ou próprios, o que me parece uma apropriação indébita, prefiro pensar nos termos daquele diálogo inevitável com a tradição, no que isto implica de risco, mas também no que propicia como experiência e consciência poéticas.

RP: Há um ano vimos trabalhando com a obra do Drummond. É um dos legados mais importantes da poesia brasileira do século XX, talvez o mais. Dedicamo-nos a uma leitura mais sistemática de toda obra drummondiana, bem como de uma boa parcela de sua fortuna crítica para, a partir daí, pescar estímulos para nossa criação. Tudo somado, ampliamos nossa consciência poética: nossa consciência de leitores de poesia e, conseqüentemente, de autores. Se do trabalho surgir um ou outro bom poema, como às vezes ocorre (embora nem de longe comparáveis ao modelo), já teremos feito alguma coisa.

Após revisitar Drummond, fica-me a impressão de que é quase impossível escrever em pleno século XXI desconhecendo sua obra. Ao mesmo tempo, gera-se uma sensação de desconforto, de fracasso, pois podemos ser qualquer coisa, menos Drummond. Muitos autores gostam da idéia de se filiar a este ou àquele poeta. Estupefato, já fui testemunha de um poeta que declarou, alto e bom som: “minha poesia começa onde termina a poesia de João Cabral”. A vaidade humana não tem limites!… Mil vezes antes o discurso dos integrantes do Pink Floyd que, dizendo tentar imitar os Rolling Stones, chegaram à conclusão de que isso jamais seria possível; partiram então para fazer aquilo que estava a seu alcance. E acabaram fundando um novo som!

Mas, deixando de lado arroubos narcísicos e voltando a Drummond: a força e a complexidade de sua poesia estão na maneira pela qual ele renovou a herança poética que recebeu: seu lirismo desencantado e desmitificador, sua melancolia cingida à matéria histórica, à corrosão não-metafísica do tempo presente; melancolia temperada pela ironia, melhor, pela auto-ironia e pelo ceticismo.

Com que, então, alguns poetas se proclamam herdeiros, continuadores de Drummond? Não terão eles o senso de autopiedade mais apurado que o de auto-ironia? Terão eles se dado conta da complexidade daquela poesia? Não surpreende que, às vezes, até mesmo uma suspeita “mineiridade” geográfica seja alegada como pretexto para pleitear tal aproximação!

Felizmente, há os casos legítimos também. Considero que alguns poetas estão conseguindo, à sua medida, contribuir para alargar o legado drummondiano: entre os que estão na estrada há mais tempo, penso no trabalho de Chico Alvim; e entre os mais jovens, nos trabalhos de Donizete Galvão e Heitor Ferraz

Cálamo: Poesias

Sebastião: entrevista

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Santo André: entrevista

Santo André: Poesias