Quadrilhas Poéticas

O encontro de poetas em academias, agremiações, grupos sempre desempenhou papel de relevo na constituição da literatura brasileira “como sistema”, formando público leitor, fomentando a avaliação crítica da produção e ajudando na continuidade de circulação de obras e opiniões. Que se tome, como um exemplo entre outros possíveis, a literatura produzida na cidade de São Paulo. Podemos lembrar do débito da poesia romântica em relação ao grupo de estudantes da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, do grupo constelado em torno da Semana de Arte Moderna ou, mais perto de nós, do triunvirato concretista. É inegável o quanto a produção e o debate literários se nutriram da sinergia desses grupos, das instituições, revistas e ações a que eles se associaram.

No entanto, parece que, nas duas últimas décadas, após a pregação vanguardista dos anos 50-60 e a polarização concretos X marginais dos anos 70, os agrupamentos de poetas perderam muito a visibilidade e o sentido de sua militância. Exemplo disso é a declaração de um Drummond, publicada no Folhetim em 3/06/1984, em entrevista a Augusto Massi e Lúcia Nagib :

“Sou muito contra essa história de dar palpite sobre a literatura brasileira atual, porque a literatura não é uma pessoa, não é um grupo que se reúne às tantas horas, na livraria tal, não é como na política, em que você vê aqueles elementos organizados em agrupamentos, ministérios etc. A literatura é um pouco secreta, ninguém sabe quais os livros que estão sendo elaborados. O que posso falar é que não se observa no Brasil, no momento, a tendência a um agrupamento, não no sentido de unificação de idéias, mas no de apoio mútuo, para que as coisas se manifestem. […] a gente não sente a palpitação de um movimento literário, em que forças diferentes se manifestem dando a impressão de que surgiu no Brasil um novo conceito de poesia, uma nova forma.”

A validade do diagnóstico drummondiano se estenderá até os dias de hoje? Desde fins dos anos 90 se testemunha a multiplicação de grupos (editoras, revistas, eventos) voltados para a produção e difusão de poesia. Verificar até que ponto as ações desses grupos – e a pluralidade de dicções que distingue o panorama lírico contemporâneo – oferecem condições para a criação de “um novo conceito de poesia” é a proposta da edição de setembro do projeto “Poetas na Biblioteca”. Para tanto, convidamos escritores de três grupos paulistas de produção e discussão poéticas: Chantal Castelli, Rômulo Figueira Neves e Ruy Proença, do Cálamo (núcleo atualmente ligado à Secretaria Municipal de Cultura); Matias Mariani, Paulo Ferraz e Pedro Abramovay (poetas editores da revista Sebastião e ao site Palavra P) e, por fim, Fabiano Calixto, Kleber Mantovani e Tarso de Melo (poetas de Santo André, ligados à livraria Alfarrábio e à extinta revista Monturo).

Cálamo: entrevista

Cálamo: Poesias

Sebastião: entrevista

Sebastião: Poesias

Santo André: entrevista

Santo André: Poesias