Poemas Mattoso

 

PARTE UM: PÓS-CEGUEIRA

Dez sonetos políticos (da recente trilogia CENTOPÉIA / PAULISSÉIA ILHADA / GELÉIA DE ROCOCÓ)

Dez sonetos latino-americanos (alguns inéditos, a sair no livro “PANACÉIA”)

Dez parassonetos palindrômicos (inéditos, para o livro “PANACÉIA”)

PARTE DOIS: PRÉ-CEGUEIRA

Dez poemas do livro inédito “GALERIA ALEGRIA” (sob o heterônimo de Garcia Loca, entre 1977 e 1980)

Dez haicais (entre 1983 e 1991)

Dez “limeiriques” (entre 1982 e 1989)

Dez poemas livres da série “POLITITICA” (entre 1978 e 1992)

MINIANTOLOGIA POÉTICA

DE GLAUCO MATTOSO

PARTE UM: PÓS-CEGUEIRA

Dez sonetos políticos

(da recente trilogia CENTOPÉIA/PAULISSÉIA ILHADA/GELÉIA DE ROCOCÓ)

SONETO POLÍTICO [2.25]

A esquerda quer mudança no regime:

trocar todas as moscas sobre o troço;

mais gente repartindo o mesmo almoço,

pra ver se a humanidade se redime.

A situação não quer mexer no time:

o jogo da direita é o mesmo osso,

o mesmo cão, e nada de alvoroço,

mantendo o status quo que nos oprime.

Um cego como eu, politizado,

consciente de não ser tão incapaz

que não possa escolher qual é meu lado;

Pra mim, desde que seja dum rapaz

o pé pelo qual quero ser pisado,

direito como esquerdo, tanto faz.

SONETO DEMAGÓGICO [2.95]

O povo quer comida e diversão.

Caudilhos são biscoitos de polvilho.

Papai passa o mandato para o filho

e a massa passa à base de água e pão.

Mamãe põe no domingo o macarrão.

A filha do engenheiro espalha o brilho.

A esquerda quer da pólvora o rastilho

e a puta faz da foda o ramerrão.

A pátria tem governo, que merece,

e o voto do eleitor é a voz de Deus,

que, por sinal, não ouve a nossa prece.

Na sala dos ex-votos, boto os meus:

dois olhos, onde tudo já escurece,

debaixo de milhões de pés ateus.

SONETO DIALÉTICO [2.128]

A síntese do avanço consciente

é aquele velho método sagaz

que preconiza dar um passo atrás

a fim de dar dois passos para a frente.

A tese se apresenta incoerente,

mas a contradição já se desfaz

em face da estratégia, que é de paz,

embora lembre a marcha combatente.

Antítese do avanço é o retrocesso,

ao obscurantismo associado,

e nesse ponto exato me interesso.

Questão de ordem faço deste dado:

Tão logo fiquei cego, o passo meço;

Tropeço, mas não caio: adianto o lado.

SONETO FISIOLÓGICO [2.171]

Quem disse que a política não fede?

O esgoto do Congresso é prova disso.

Parlamentar que quer mostrar serviço

bem sabe donde a prática procede.

Do vaso, e não das urnas, vem e mede

tamanho e proporção dum trem roliço.

E quem quiser meter o dedo nisso

esteja onde o governo tem sua sede.

Ministros já instalaram gabinete

no espaço mais propício à sua função:

Despacham no recesso da retrete.

Quem faz, por outro lado, oposição

critica a fedentina do tolete

propondo obrar com força e retidão…

SONETO ANTOLÓGICO [2.172]

As frases memoráveis da República

deviam ter, na pedra ou voz gravada,

registro, qual legenda avacalhada

num filme de comédia ou cena lúbrica.

“Prometo que agirei na vida pública

da mesma forma que ajo na privada!”;

ou: “Fi-lo porque qui-lo!”, tão surrada;

ou: “Não me deixem só!”, suprema súplica.

Também vou proferir, eu que não minto,

a pérola imortal de quem adora

mandatos, completado o quarto ou quinto:

“Da vida partidária saio agora.

Já fiz o que devia, e alívio sinto.

Caguei, limpei a bunda, e vou-me embora!”

SONETO MARXISTA [2.211]

Os russos, cujo pé não é pequeno,

fizeram a cabeça do Fradim;

levaram seu regime até Pequim;

pisaram nos nazistas sobre o Reno.

Lembrando do cubano e do chileno,

entre um artigo e outro do PASQUIM,

defendem os peões no botequim

um socialismo etílico e moreno.

Indígenas exigem, nada ingênuos,

do proletariado a tirania,

mas só os caciques têm poderes plenos.

E eu digo que utopia preferia:

Capitalismo é coisa de somenos.

Mais vale um pé na mão que a mais-valia.

SONETO ILUMINISTA [2.250]

Voltaire disse que nunca concordava

com nada que você queira dizer,

mas que defenderia até morrer

o seu direito ao uso da palavra.

Enquanto a Inquisição fere, escalavra

e queima vivo quem ousa descrer,

defende o bom sacrílego o prazer

do livre-pensador, labuta brava.

Irônico destino esse que pega

safados pecadores, sobre os quais

recai missão igual à de quem prega!

Feliz fatalidade essa que faz

duma lúcida dúvida a fé cega

de que as opiniões são desiguais!

SONETO ESQUERDISTA [2.321]

Enquanto os verdadeiros esquerdistas

apelam pra guerrilha e pro terror,

os intelectuais se dão valor

apenas porque pensam nas conquistas.

Cantores, professores, jornalistas,

o ator, o padre, o músico, o doutor

na feira das vaidades dão à cor

vermelha vários tons, marchands marxistas.

Prestígio tem aquele que se diz

das causas populares paladino.

Na prática, o guru se contradiz.

Anel, carro importado, vinho fino.

Ao cheiro do povão torce o nariz,

mas brinda ao seu Guevara, ao seu Sandino.

SONETO DIREITISTA [2.323]

Enquanto os verdadeiros direitistas

dão golpes e se instalam no poder,

eunucos patrulheiros do lazer

censuram filmes, vídeos e revistas.

Se julgam da moral especialistas,

ditando o que devemos ou não ler.

Masturbam-se, porém, sem poder ser

na prática os tais sadomasoquistas.

Fascismo pela imprensa é rotineiro.

Civismo pretextando, educadores

defendem a criança o tempo inteiro.

Mal sabem os palhaços ditadores

que os filhos não se trancam no banheiro

e agora acessam tudo, ao vivo, em cores…

SONETO CENTRISTA [2.324]

“Extremos nunca! Não me comprometa!”

Assim diz quem é neutro e não se alia

à febre material da burguesia

nem ao materialismo de caneta.

“Nem a favor, nem contra!” É uma ampulheta

parada, cuja areia entope a via

e nunca sai do horário: meio-dia.

Não caga nem levanta da retreta.

“Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”, diz.

“Nem oito, nem oitenta”, diz também,

alheio à divisão dos dois Brasis.

É vaca de presépio e diz amém,

até que a voz das urnas ou fuzis

lhe jogue em plena cara quem é quem.

…///…

Dez sonetos latino-americanos

(alguns inéditos, a sair no livro “PANACÉIA”)

SONETO ARGENTINO [2.286]

Durante a ditadura de Videla,

patota seqüestrava o cidadão,

mantido, clandestino, num porão.

Ali, menina virgem é cadela.

“Picana” ou felação? A escolha é dela

Pudica, escolhe o choque, mas em vão:

seu corpo não resiste a uma sessão.

Acaba suplicando o pau na goela.

Quando ela chupa, ri o torturador

e xinga a moça até de “pelotuda”

porque prefere a pica em vez da dor.

A porra jorra sobre a voz miúda

da pobre adolescente, cuja cor

parece inda mais branca, assim desnuda.

SONETO ARGENTINO # 2 [2.288]

Alguém pensou que a tímida mocinha

manteve a virgindade? Nada disso!

Depois de ser currada por mestiço

(o “cabecita negra”), ela é galinha.

Escrava da patota, a loira “niña”

se presta a todo tipo de serviço:

entrega a xota e o cu, chupa o lingüiço,

engraxa a bota e trampa na cozinha.

Um dia, outra menina cai na cela

e vira carne nova no pedaço.

A loira já não serve de cadela.

Na nuca leva um único “balazo”.

Assim a ditadura de Videla

quebrou, de cabo a rabo, outro cabaço.

SONETO BRAZILIANISTA [2.316]

A história do Brasil, vista de fora,

tem cara de chacina suburbana.

País continental, caldo de cana,

amargos episódios comemora.

Palmares e Canudos, quem deplora?

Mascates, Guararapes, quem se ufana?

Farrapos da polícia alagoana

são dívidas de sangue sem penhora.

Insistem que o país foi incruento,

o oposto de outros pontos do barril

de pólvora, um planeta de sargento.

Mentira deslavada! Esse Brasil

não passa dum quintal sanguinolento,

avícola da paz, guerra civil!

SONETO BRAZILIANISTA # 2 [2.317]

Brasil é uma união de nações lusas.

Na América espanhola se separam.

Aqui pensamos ser o que contaram.

Frustradas tentativas são oclusas.

A Inconfidência em Minas tem suas musas.

Paulista em trinta e dois, nos sufocaram.

O grito Farroupilha, nos calaram.

Razões do Contestado são confusas.

A Confederação foi do Equador.

Diversos Uruguais tentamos ser,

mas somos Paraguais com mais calor.

Pra lá de Tordesilhas pra valer,

separatismo aqui não tem valor.

Confraternização para inglês ver!

SONETO URUGUAIO [2.390]

Suíça americana foi alcunha

que algum banqueiro deu, por ato falho.

Quem fez a “Apologia do Caralho”

é o mesmo que compôs seu hino: Acuña.

Província Cisplatina foi à unha,

mas tem dado ao Brasil muito trabalho.

Da copa de cinqüenta é o nosso coalho:

Maracanã calado é testemunha.

Orgulha-se do autor de “Maldoror”,

mas tem na capital, Montevidéu,

a cópia da argentina, em desfavor.

Seu trunfo mais concreto é arranha-céu:

a torre a que Gaudí não deu valor,

mas manda Barcelona ao beleléu.

SONETO PARAGUAIO [2.391]

No tempo do Solano era um colosso,

mas, vítima da Tríplice Aliança,

reverte a condição de liderança

e torna-se um quintal do Mato Grosso.

A guerra o leva até o fundo do poço.

Só sobra velho, inválido e criança.

Jamais a autonomia antiga alcança,

mas ao Brasil é carne de pescoço.

Guarânias, generais e contrabando

produto interno bruto são ainda.

E bota bruto nisso, vai botando!

Nação irmã nos é sempre bem-vinda.

Cá, quando um ditador sai do comando,

tem casa pra morar, perto da Dinda.

SONETO REPUBLICANO [2.388]

Da cruz do Pedrão Álvares Cabral

até a suspeita morte do Tancredo,

explode o mau humor do Figueiredo.

A distensão do Geisel abre mal.

O Médici foi tri, mas ilegal.

O Costa e Silva é burro que dá medo.

Castelo Branco tarda, mas vem cedo

tirar da mão do Jango o manual.

O Jânio renuncia à força bruta.

Viaja o Juscelino pra Brasília.

O tiro do Getúlio arma a disputa.

Estado Novo segue a velha trilha.

República café-com-leite é fruta:

Banana a gente dá, vende e partilha.

SONETO MONARQUISTA [2.389]

Dom Pedro deu o grito do Ipiranga

e funda no Brasil único império

da América Latina. É jovem. Gere-o

como quem pinta o sete e solta a franga.

O filho foi Segundo e, em vez da tanga,

prefere um guarda-roupa bem mais sério.

Instala parlamento e ministério.

Escreve. Estuda. É calmo e não se zanga.

Abole a escravatura e perde o trono.

Faz selo, grava disco e telefona.

Das artes e ciências é patrono.

Marquês ou conde pode ser cafona.

Um dia, todavia, o Pedro Nono

dará grau de arquiduque a uma bichona.

SONETO COLONIAL [2.397]

Enquanto éramos só capitanias

estava em Tordesilhas tudo bem.

Até que resolveram ir além

Raposo, Borba Gato e Fernão Dias.

Alargam-se as fronteiras. Rodovias

se cruzam na Amazônia. No armazém

empilha-se a madeira. Vão de trem

minérios em milhões de travessias.

Será o Brasil apenas um quintal

de impérios e metrópoles do norte,

de States, Inglaterra, Portugal?

Colonizados, sim, até no esporte,

pois nosso futebol, campeão mundial,

tem multinacionais como suporte.

SONETO CIVIL [2.398]

Aqui, de ditadura em ditadura,

democracia cai nos intervalos.

Cavalaria é própria de cavalos.

Um homem pode ser cavalgadura.

República com fardas se inaugura.

As botas fazem bolhas, causam calos.

Moeda fraca escorre pelos ralos.

Fuzil, neste país, ninguém segura.

Um dia, a economia desmorona.

Golpismo, Estado Novo, Redentora,

acaba tudo em pizza, em puzza, em zona.

Passa de mão em mão, como se fora

a troca duma guarda sem dragona,

sem honra ou tradição, só sucessora.

…///…

Dez parassonetos palindrômicos

(iInéditos, para o livro “PANACÉIA”)

SONETO PAULINDRÔMICO [2.406]

Ter algo que dizer não é o que conta.

O “como” é que o poeta faz de monta.

Algum palestrador alega assim,

que o verbo é pedra em si, não ferramenta.

Mas isso não é cláusula pra mim.

Prefiro achar que ter um bom motivo,

além do jeito, é justo requisito.

Concordo, enfim, com Paulo Henriques Britto

que existe inspiração num verso vivo.

Ocorre que um poema é meio e fim,

porém precisa ser de alguém que enfrenta

dor, fome, angústia, azar, algo ruim.

Não basta o “como” em verso ou prosa pronta.

Temer o tema é o medo que amedronta.

SONETO REFLEXIVO [2.407]

A velha hippie assim se sente: velha.

Ao menos é o que o espelho já lhe espelha.

É quase cinqüentona, e lembra quando

cantava o hoje sumido namorado,

o menos lindo em todo aquele bando.

Olhando para a pêra na fruteira,

ouvindo a voz de Milton Nascimento,

chorou, se comoveu por um momento,

mas logo se refez. Estava inteira.

O filho chega, alegre, comentando

que teve seu currículo aprovado:

“Agora estou de novo no comando!”

A mãe, entusiasmada, já aconselha,

e põe-se a retocar a sobrancelha.

SONETO ALINHADO [2.408]

Fugindo à ditadura, inda estudante,

perfaz no continente exílio errante.

Lê Mao, junta-se aos bons, percorre a mata.

Conhece na guerrilha a companheira

que nele vê um Guevara e ama um Zapata.

O tempo passa, e os sátrapas se vão.

O pária volta à pátria de seu pai.

Mulher e filhos ficam no Uruguai,

e em Quito e Bogotá seu coração.

Foi líder sindical. Se candidata

à Câmara. Se elege e, embora queira,

não pode ir ao plenário sem gravata.

Escravo do partido, doravante,

respeita até etiqueta em restaurante.

SONETO RETICENTE [2.414]

Gabeira, em “O que é isso, companheiro?”,

descreve o caso, nunca por inteiro:

Depois de preso, aguarda no quartel

e vê no corredor outros detidos

forçados ao mais sórdido papel.

Soldados os obrigam a lamber

no piso de ladrilhos a sujeira

das botas que ali passam, brincadeira

que insufla nos recrutas o prazer.

Curtiu a cena, até que um coronel

o fez tapar os olhos e os ouvidos,

porém no paladar seu livro é mel.

Quem sabe, um dia, um outro ex-guerrilheiro

nos conta quem lambeu chão de banheiro…

SONETO INTERNAUTA [2.416]

Quem entra na Internet está plugado

ao mundo. Quem não entra, atrasa o lado.

Será verdade? O rádio só não basta?

Não serve o telefone de contato?

TV não tem visão bastante vasta?

O mundo vai mudando dia a dia.

Ninguém caminha junto, inda que tente.

Progride, assim, o micro inutilmente,

pois quanto mais se apressa mais adia.

Porém na perspectiva calma e casta

dum servo do Senhor, no seu recato,

ou pelo olhar vulgar dum pederasta,

A rede mundial só lança o dado;

Quem joga, ganhe ou perca, é viciado.

SONETO PREMIADO [2.417]

Tu pensas que és a glória da nação

apenas por ter condecoração?

Troféus, estatuetas, copas, taças,

medalhas, láureas, placas e diplomas,

os pés no calçadão, bustos nas praças…

Comendas não são tudo nesta vida!

Doutor honoris causa é qualquer um

que, só porque também soltou seu pum,

já julga ter a merda mais fedida!

Do meu anonimato não desfaças,

pois com o mais terrível dos glaucomas

ganhei o campeonato das desgraças!

Exijo mais respeito, cidadão!

Não sou tão pouca porcaria, não!

SONETO REFORMADO [2.420]

Se chama

Gil Gama.

Foi comandante

dum centro de tortura

em tempo não muito distante.

Tirou do guerrilheiro a confissão.

Da esposa, filha e irmã tirou a candidez.

Capacho de outros rostos brincando ele fez.

E deu por encerrada sua missão.

Agora não há o que levante

sua pica outrora dura.

Veste elegante

pijama

na cama.

SONETO PANORÂMICO [2.421]

Meu quadro de São Paulo é o duma ilha

que quanto mais se atulha mais brilha.

É vasta e de longe se avista,

mas de perto tem a face

dupla, múltipla, mista.

Quem topa suar

tem campo à pampa,

pois Sampa trampa

do sol ao luar.

Na avenida Paulista

trombadinha quando nasce

contrasta com torres, contrista.

No centrão a janela faz pilha,

muralha ante a gentalha maltrapilha.

SONETO TORRESMISTA [2.426]

Não basta a ditadura que já dura

e vem a ditadura antigordura!

Saímos do regime militar,

caímos no regime do regime.

Censuram-nos até no paladar!

Trabalho, horário, imposto, compromisso.

Orgasmo não se tem como se quer.

Só sobra o bom do garfo e da colher,

e os nazis nariz metem até nisso.

Maldita seja a mídia, sempre a dar

espaço à medicina que reprime!

Gestapo da “saúde” e “bem-estar”!

Resista! Coma! Abaixo a ditadura!

A luta tem um símbolo: FRITURA!

SONETO PREGUICISTA [2.427]

Não basta a ditadura da injustiça

e vem a ditadura do magriça!

Caímos no regime do exercício,

egressos do regime militar.

Censuram a poltrona como vício!

Dever, serão, cobrança, obrigação.

Mal temos um tempinho de lazer,

e os nazis o nariz querem meter,

impondo-nos o esporte e a malhação.

O tempo é precioso. Desperdice-o!

Senão a gente ainda vai parar

num eito, num presídio ou num hospício.

Resista! Durma! Assuma esta premissa:

A luta tem um símbolo: PREGUIÇA!

…///…

PARTE DOIS: PRÉ-CEGUEIRA

Dez poemas do livro inédito “GALERIA ALEGRIA”

(sob o heterônimo de Garcia Loca, entre 1977 e 1980)

9.6.1

El arte de gobernar consiste

en el arte de malversar.

El arte de escribir consiste

en el arte de plagiar.

De lo que se deduce

que los políticos son poetas

y los escritores son ladronzuelos.

9.6.2

Decir política

equivale a decir ciencia

de lo festivo

de lo relativo

y subversivo;

ciencia sujeta

en sus conclusiones prácticas

al circo

al palco

al camarín.

9.6.3

El género humano

y cualquiera de sus partes

se divide en dos clases:

unos empuñan el carajo

y otros lo sufren en el culo.

No hay lubrificación, ni desproporción,

ni progreso muscular, ni testicular,

que pueda impedir el que un hombre

nacido o por nacer

no sea de aquéllos o de éstos.

No queda más que la homosexualidad

para quien pueda gozarla.

Verdad es que no todos pueden,

ni quieren, ni siempre.

Pero cuando uno de aquéllos o de éstos

no goza, el otro goza dos veces.

9.6.4

En política

lo que comienza

con miedo

suele terminar

con mierda.

9.6.5

“El ejercício de la política

en los países de mierda

puede definirse con una sola palabrita:

constipación.

Por consiguiente,

democracia significa cagalera.”

(Um general da linha-dura,

discorrendo sobre a Lei do Ventre Livre

no Conselho de Segurança Nacional)

9.6.6

La política no es asunto propio

ni de artistas ni de pederastas;

la política es el arte

de cambiar los carajos

lo mínimo posible

mientras permanecen

siempre los mismos culos.

Los artistas son inconvenientes

por su afán de cambiar

carajos y culos

a tontas y a locas;

los pederastas son sospechosos

por aceptar pasivamente

carajos antecesores y sucesores.

9.6.7

Los poetas de verdad

son los guardianes de la gravedad.

Están siempre prontos

a reírse de todo,

pero dicen la verdad

burla burlando.

La mentira es propia de los políticos.

Éstos hablan para engañar

y callan para encubrir.

Cuando están con otros, lloran.

Cuando están a solas, se ríen

de la desgracia ajena.

9.11.21

El Arte necesita

de la contracultura

de la psicodelia

o de la banda del club

de los corazones solitarios

del sargento Pimienta:

es una flor roquera

que pide vientos fuertes

y terrenos duros.

9.11.22

En resumen, todos nosotros

somos unos poetas,

esto es, unos compuestos

de hombre, lobo y loco.

9.11.23

Dicen que dijo un crítico

que tengo dos vicios poéticos:

la repetición y la repetición.

No digo lo contrario.

El poeta que repite

cosas ya por otros escritas

hace buen uso de la poesía

porque mira atrás,

a sus antepasados.

El poeta que se repite a sí mismo

realiza su obra

porque mira adelante

hacia la posteridad.

Asimismo, la repetición del vicio

se vuelve en virtud.

…///…

Dez haicais

(entre 1983 e 1991)

4.1.7

Molhada é “meleca”.

Se seca, já virou “monco”.

Nariz não defeca.

4.1.18

Um haicai sem rima

parece clima nublado:

Sombra de obra-prima.

4.1.29

Golpe militar.

Basta um par de generais

num papo de bar.

4.1.30

Por mais que ele mande,

mais se expande o desrespeito.

O Brasil é grande.

4.2.27

Duras são tuas fezes?

São reveses da clausura…

Só resta que rezes.

4.3.11

Travesti de porre.

Gilete no pó reflete.

Um pivete corre.

4.3.17

No trânsito lento

tento entrar na transversal.

Engarrafamento.

4.3.32

Liberdade é pão,

mas Consolação é prêmio.

Paraíso é Adão.

4.3.37

Cena original:

Vaginal como um paquete,

flui a Marginal.

4.3.38

Ator principal.

Palmas para o pipoqueiro

do Municipal.

…///…

Dez “limeiriques”

(entre 1982 e 1989)

3.9

Certa vez, um menino nihonjin,

cujo inkei era pequenino assim,

viu o meu cajado

quando estava assado,

e o seu cresceu até aqui pra mim.

3.14

Conheci um capiau

sem igual no cheiro mau.

No resto da piça

fedia carniça

e na glande, bacalhau.

3.16

Num xibungo do Nordeste

descobriram nova peste:

é o tal “mal de corno”.

Traz tanto transtorno

que ninguém quer fazer teste…

3.17

Uma dama carioca

que era viciada em coca

pra poupar viagem

fez sua bagagem

e mudou-se pra maloca.

3.18

Uma puta de Brasília

empregou toda a família:

prima na Esplanada;

na Praça, a cunhada;

no Planalto, pôs a filha.

3.19

Teve um general no Rio

que era curto de pavio.

Jurou, rabugento:

“Eu prendo e arrebento!”

Mas era seu cu no cio.

3.20

Era um cara de Goiás

que pegava boi por trás.

Mas um certo dia -

pois é, quem diria -

foi pego… por um rapaz.

3.21

Uma índia do Amazonas

tinha uma daquelas conas

de engolir picudo

com colhão e tudo.

Hoje é musa das machonas.

3.22

A filhinha do caiçara

tinha vergonha na cara.

Dava todo dia,

quando o pai saía,

mas nunca chupava vara.

3.23

Certa vez uma gaúcha,

cuja bunda era gorducha,

pediu prum pivete

lhe fazer cunete

e o moleque disse: “Puxa!”

…///…

Dez poemas livres da série “POLITITICA”

(entre 1978 e 1992)

6.14

Quando um fato é publicado

pode ser boato.

Quando um boato

não pode ser publicado

é fato.

MERDA DE PROLETÁRIO [6.16]

Cagar no horário de trabalho

é um dos direitos do trabalhador.

A cagada remunerada

é a única maneira de imaginar

que a nossa força de trabalho

vale alguma coisa.

6.22

Política é a arte

de meter a mão no excremento.

Poesia é a arte

de meter o excremento na língua.

Jornalismo é a arte

de jogar política e poesia

no ventilador.

O POLÍTICO E O POETA [6.23]

Política e poesia

requerem diplomacia.

Ler somente a tradição

e escrever como moderno.

Só comer com o governo

e cagar com a oposição.

6.27

Há duas maneiras

de governar:

pela força

ou pela farsa.

6.28

Governos existem para garantir

os direitos das minorias abastadas

e referendar os defeitos

das minorias abastardadas.

As maiorias não têm virtudes a preservar

nem pecados imputáveis.

Portanto não precisam de governo.

Governos não existem

para beneficiar amigos que não o são,

mas para reprimir inimigos

que sempre existirão.

6.37

Só há dois casos em que um sujeito

não deve se meter em política:

quando ele não acredita em política

e quando ele acredita.

LUGAR INCOMUM [6.41]

O Brasil é um país de contrastes (e paradoxos)

e, ipso facto, um país de clichês.

Vejam vocês:

A propaganda oficial anunciava

que “ninguém segura este país”

e o próprio governo criou

uma lei de segurança nacional.

6.47

Uma pessoa politicamente correta

é alguém incorrigivelmente chato

que pensa que os outros

são todos chatos corrigíveis.

6.48

Não há boa ditadura

nem má democracia.

Há ditadura dura

e democracia macia.

Não há bom ladrão

nem mau cristão.

Há ladrão bão

e cristão tão.

Não há mau gosto

nem mau rosto.

Há quem goste do amarelo

e quem o feio ama…

…///…

Entrevista

Bibliografia

Abertura