Depoimento Massi

A poesia de Augusto Massi

Reynaldo Damazio – Hoje temos a honra de receber um convidado que vínhamos cortejando há muito tempo: Augusto Massi. Como vocês sabem, ele é poeta, crítico, professor universitário, entre outras coisas. Gostaria de observar que, sendo econômico como poeta, esbanja generosidade com a produção alheia. Por exemplo, podemos lembrar o trabalho feito com a coleção “Claro enigma” (São Paulo: Duas Cidades, 1988-1990), marco importante na história da poesia e do mercado editorial brasileiro, e a antologia e o evento “Artes e ofícios da poesia” (1991) e a organização da Poesia Completa de Raul Bopp (Rio de Janeiro, São Paulo: José Olympio/ Edusp, 1998).

Fora as aulas na Universidade de São Paulo, a edição das revistas Inimigo Rumor e Teresa etc. Quer dizer, ele economiza um pouco com a própria poesia, mas doa muito tempo para a poesia alheia, o que é um sinal inequívoco de generosidade. Por isso, infelizmente, só publicou dois livros de poesia: Negativo (São Paulo: Cia. das letras, 1991) e o recente A vida errada (Rio de Janeiro: 7 Letras, 2001), pela simpaticíssima coleção Moby Dick. Com a palavra, então, Augusto Massi.

UMA DÉCADA DE SILÊNCIO

Augusto Massi – Primeiro, gostaria de agradecer o convite. Já estive aí, do outro lado, sentado na platéia. “Poetas na biblioteca” é uma iniciativa da maior importância. E, melhor ainda, tem tido continuidade. Por isso, considero o convite de grande importância para mim. Raramente sou chamado na condição de poeta.

Dito isso, vamos começar pelo início. Publiquei meu primeiro livro em 91. Dez anos atrás. Quem mandou dar o título de Negativo? Entretanto, é preciso frisar, nesses dez anos, nunca deixei de escrever. Quis permanecer em silêncio e observar os meus contemporâneos. Por um lado, diria que sou uma pessoa solitária, um individualista feroz, por outro, gosto de participar de projetos coletivos, sou uma personalidade dialógica. Nem sempre é fácil combinar as duas coisas. Às vezes, sinto que não sobra tempo nem para a solidão nem para o diálogo. Um rouba tempo do outro. Vivi sempre essa questão como uma zona de conflito permanente. Hoje olho tudo com mais humor, conquistei uma certa habilidade de transitar por tempos e lugares diferentes.

Voltando à poesia. Comparado aos poetas da minha geração, estreei tarde. Quando comecei a escrever, os espaços eram restritos e as discussões fortemente marcadas por polaridades com as quais nunca me identifiquei: poesia engajada x vanguarda, conteúdo x forma etc. Para obter ressonância, o poeta jovem era obrigado a aderir a um grupo. Na época, pensei em escrever um ensaio debatendo tais questões, mas cheguei à conclusão de que seria mais um desses ensaios intitulados “balanço da década” ou “situação da poesia brasileira contemporânea”. Organizar a “Claro enigma” foi o modo mais radical que encontrei de responder criticamente ao debate. Através da coleção pude publicar poetas que não tinham espaço, aproximar críticos e poetas, dialogar com as artes plásticas, interferir no mercado editorial. Do meu ponto de vista, “Claro Enigma” representou uma intervenção crítica. Penso que até hoje ninguém destacou esse aspecto, o quanto havia de reflexão e tomada de posição.

As pessoas discutem apenas o lado prático do projeto. É claro que houve uma preocupação de caráter editorial. Vale a pena lembrar que a Poesia Completa do João Cabral, editada pela José Olympio, era bem feia, trazia vários poemas por página, em papel-jornal, sem informação bibliográfica e, ainda por cima, era cara. Isso só para sublinhar que o descaso também afetava os grandes nomes. Não eram bons tempos para a poesia: Murilo Mendes, Cecília Meireles, Raul Bopp, Vinicius de Moraes, Ferreira Gullar ainda não tinham suas poesias reunidas, a distribuição era precária, novos autores publicavam por conta própria. A marginalidade era mais condição do que opção. A “Claro enigma” quis dar certa dignidade às edições de poesia: um poema por página, bibliografia completa, leitura de um crítico importante, diálogo com a obra de um artista plástico etc. Foi a forma que encontrei de repensar todo o processo: questão editorial, cânone, crítica, mídia etc.

Mas, infelizmente, tudo isso não bastava. Editada a “Claro Enigma”, constatei que houve uma grande repercussão na imprensa, no entanto, a resposta crítica foi tímida. Segundo: travei contato com inúmeras obras já publicadas e centenas de inéditos, ou seja, a produção era bem maior do que imaginava. A “Claro Enigma” sozinha não podia configurar um panorama completo. Por exemplo, até hoje lamento não ter publicado um poeta como Jayro José Xavier, autor de Idade do Urânio (Rio de Janeiro: Cátedra, 1974) e Enquanto vivemos (Rio de Janeiro: Achiamé, 1981).

Diante de fatos como esse, percebi que estava desperdiçando um tipo de informação valiosa. Foi pensando nisso que idealizei, com um dos meu melhores amigos, Murilo Marcondes de Moura, e com a Secretaria Municipal de Cultura, sob gestão petista da Marilena Chauí, a semana chamada “Artes e Ofícios da Poesia” (MASP, maio de 1991). Como o objetivo era ultrapassar o caráter efêmero do evento, organizei uma antologia na qual, diante da ausência de reflexão crítica, os autores fizessem um depoimento sobre sua trajetória individual. Embora o livro tenha enfrentado sérios problemas de edição e distribuição, teve um papel pioneiro no sentido de mapear autores, estabelecer diferenças e afinidades, resgatar nomes esquecidos e publicar inéditos. Alguns depoimentos são de primeira: José Paulo Paes, Armando Freitas Filho, Orides Fontela, Glauco Mattoso.

Posso dizer que aprendi bastante ao dialogar com outros poetas: observei como estruturavam os livros, dividiam as estrofes, faziam os últimos cortes, escolhiam os títulos etc. Tudo isso me fez repensar inteiramente minha inserção como poeta. Porém, da perspectiva dos grupos, o ambiente era tão fechado e hostil à poesia, que resolvi não publicar Negativo dentro da coleção. Não adiantou nada. Disseram que eu havia feito a “Claro Enigma” com o intuito de me publicar. No fim, depois de tanto esforço para reunir os poetas, acabei lançando meu trabalho sozinho. Para piorar, acabei ouvindo coisas do tipo: “É verdade, publicou todos na ‘Claro Enigma’, mas no fundo só queria se dar bem, ele próprio acabou saindo pela Cia das Letras”. Hoje não daria tanta importância a esses comentários. Na época isso me marcou profundamente.

A vida errada é o avesso dessa história: não tem por trás uma grande editora, a coleçãozinha foi pensada por pessoas das quais me aproximei em função da revista Inimigo rumor. Este livrinho tem mais a minha cara. Não ligo se vai sair resenha na imprensa, se vai ter algum tipo de reconhecimento, o que vão falar… Hoje sei que o mais importante é ter um grupo de amigos com quem eu possa discutir poesia. Agora, não deixa de ser curioso, logo eu que sempre briguei para que os livros tivessem visibilidade e entrassem no mercado.

LIVRE PARA ERRAR

A pressão de publicar arrefeceu quando percebi que continuaria a escrever poesia de qualquer jeito. Sou poeta independentemente da publicação. Num determinado momento quis até me livrar disso: “Vai ver não sou poeta, deixa pra lá, quero continuar fazendo minhas coisas”. Mas, felizmente, a poesia foi teimosa e tive de me entender com ela. Aí encontrei outro tom. A vida errada é um livro bem diferente do Negativo. Nele há uma aceitação maior do erro. Considero isso um ponto importante para toda a minha geração.

Sinto que vários poetas, alguns muito bons, adquiriram um grande domínio do texto, caso do Sebastião Uchoa Leite (a quem editei e admiro) e do Armando Freitas Filho (a quem pensava editar e também admiro). Invejo o leitor refinado transitando entre os poemas e por dentro deles. Entretanto, sinto que falta alguma coisa. Talvez uma ambição de que a poesia dê conta da vida. Sinto necessidade de uma linguagem menos “poética”.

Em função disso, quis romper com a linha de trabalho adotada em Negativo. Muitos poemas remetiam à pintura ou a citações literárias. As referências cultas eram importantes num primeiro livro, estavam ali para afinar o instrumento. Com A vida errada, realizei um esforço brutal para me desvencilhar do cacoete das citações e filiações. Um dos aspectos que aprecio neste novo livro é que os poemas evitam esse procedimento. É claro que estamos atados por mil fios a determinados universos culturais. Por exemplo, se usar a palavra “intratável”, imediatamente penso no “Cacto” do Manuel Bandeira. Para mim, intratável virou uma poética, evoca automaticamente “era belo, áspero, intratável”. Se alguém me disser: “Você é intratável!”, vou achar ótimo (risos).

Diversas vezes quis escrever poemas sobre São Paulo. Nunca acertava o tom. Tinha a consciência de que precisava escapar da poesia tecnicamente bem acabada, mas impermeável às impurezas mais cotidianas. Em Negativo limei excessivamente as arestas. Atualmente me interesso pelo que é irregular e inacabado. Negativo é delicado, A vida errada é brutalista.

Não renego o Negativo, porém, já não me sinto próximo daqueles poemas. Gosto do muco do nascimento. Tenho que limpar, fazer crescer, educar. Assumir certa paternidade de estilo. Em A vida errada há algo tenso: um poema ainda pede outro poema, sinto que não esgotei o assunto, o ciclo não acabou. Ainda estou ligado ao livro. Ele me alimenta. Está vivo. Penso sempre na imagem que Kafka usou para justificar a estrutura do seu primeiro livro. Ele queria reunir num volume três novelas: O Veredicto, A Metamorfose e Na colônia penal. Argumentou junto ao editor que a ordem deveria ser mantida pois A Metamorfose desempenhava uma função mediadora, do contrário, “duas cabeças bateriam com violência uma contra a outra”. Estou procurando justamente esta colisão, o choque, o atrito.

INTERMEZZO

Entre Negativo e A vida errada, publiquei um livrinho de tiragem reduzida, uns 200 exemplares, Móbiles. Foi escrito em parceria com Age de Carvalho, de quem editei toda a poesia, num volume intitulada Ror (1980-1990). A história desse livrinho começou com um convite do Carlito Azevedo. Ele tinha bolado uma coleção na qual dois poetas escolheriam um tema comum e, posteriormente, escreveriam dois poemas que seriam prefaciados por um crítico e ilustrados por um artista plástico. Não tinha nada a ver com livro de arte! O principal era poder criar uma conversa em vários níveis. Mas, como a convivência entre poetas é um fato singular, só foram adiante Dois dias de verão, de Armando Freitas Filho e do próprio Carlito (ilustrações de Artur Barrio e apresentação de Silviano Santiago, Rio de Janeiro: 7 letras, 1995), e justamente o Móbiles (ilustrações de Alberto Martins e apresentação de Benedito Nunes, Rio de Janeiro: 7 letras, 1998).

O Age vive há muitos anos fora do Brasil, em Viena, na Áustria. Como ele não colhe benefícios nem acolhe subsídios da “vida literária”, achei que seria simpático mobilizá-lo novamente. O diálogo foi rapidamente reativado e o tema escolhido recaiu sobre os “filhos”. Convidei o Betito (Alberto Alexandre Martins), poeta e gravador, para ilustrar e o Benedito Nunes para prefaciar essa nova iniciativa do exército do Pará. Havia uma série de convergências em torno dos “Alexandres”: o Betito é Alexandre, tem um filho com esse nome, eu também tenho um filho que se chama Alexandre, pensei no móbiles de Alexander Calder… foi se criando um fio comum, essa conversa giratória, meio cósmica, arborescente… O móbile é uma espécie de raiz invertida, forma leve e finamente estruturada. Esse livrinho teve um efeito de libertação, funcionou como um balão de ensaio para A vida errada. Eu que nunca tinha feito um poema experimental, movido pelo impulso da vanguarda clássica… arrisquei montar um móbile verbal, as palavras flutuavam na página, irradiando novos sentidos, sem a amarração do verso tradicional.

A vida errada recolhe textos que estavam programados para um livro maior, Desfamiliarizado. Queria explorar o conceito de estranhamento (unheimlichkeit) empregado por Freud, refletir sobre a família moderna, que está se desagregando e se recompondo em novos núcleos… é uma idéia móbile. Eu estava sob o mesmo impulso estético, psicológico… busquei uma forma que desse conta dessa aparente falta de estrutura. Mas Móbiles era um trabalho mais aberto, por conta da própria leveza do objeto, aceitava a contribuição da distância e do vento. Eu não tinha tanto controle sobre o que estava fazendo.

A vida errada é um livro carregado de experiências e da cerrada convivência com alguns amigos. Tenho longas conversas pelo telefone, noite a dentro, com o Carlito, no Rio, com o Murilo Marcondes de Moura, em Belo Horizonte, isso resultou na incorporação de uma linguagem coloquial fruto da própria dinâmica das conversas. A poesia ficou mais sacana…, me sinto mais à vontade nessa nova pele. Existe uma possibilidade de não ser Augusto Massi o tempo todo.

Vilma Arêas – Vou fazer um pequeno comentário. Não conheço A vida errada, mas, pela sua explanação, parece que esse “errado” é também errático, aquilo que perambula, que erra porque não está engessado, porque se abre à aventura. No entanto, a minha pergunta é outra. A produção literária brasileira, desde a modernidade até o período contemporâneo, estabeleceu uma relação original entre a prosa e a poesia. Sempre houve uma porosidade entre os gêneros, mas parece que, especialmente na poesia e na prosa contemporâneas, a convivência se estreitou. Por exemplo, o livro do Rodrigo Naves, O filantropo, que eu adoro, é poesia. Bem, no seu caso, sinto também um ritmo diferente, que tem a ver com uma certa prosa. Pergunto-me se isso tem a ver com os poetas marginais, com o Chico Alvim…

POESIA CIVIL

Augusto Massi – Em primeiro lugar, acho que há uma vertente da prosa contemporânea que está no encalço de uma forma nova, entre a poesia e a prosa, alimentando-se de ambas, buscando algo inacabado, inclassificável pelos padrões tradicionais. Vejo isso em Cujo de Nuno Ramos. A indeterminação está presente desde o título. Há mistura de filosofia, pintura, prosa e inquietações pessoais.

Vejo isso também em O filantropo, de Rodrigo Naves, onde há um desejo de brigar com as biografias, de ter mobilidade… No livro há uma saudável confusão, por exemplo, num texto sobre Mira Schendel, em que não sabemos definir se é um obituário, um texto de catálogo ou uma ficção. A prosa se alimenta dessa indefinição.

Sinto isso também no seu último livro, Trouxa frouxa. Esse livro, com título difícil de pronunciar, é dotado também de um lirismo tenso, que denuncia a mesma busca. Mas, apesar da tentativa de querer romper barreiras, ainda percebo uma grande diferença entre as buscas da prosa e da poesia. Na poesia, a busca vem sendo feita desde os modernistas. Bandeira e Drummond foram cronistas, Rubem Braga pulou a cerca e caminhou no pátio da poesia. Eles recriaram a língua brasileira, espaço de solidariedade entre prosa e poesia: crônicas líricas, poemas narrativos.

Estou ancorado na experiência modernista. Para mim, o ideal literário está na conquista de um espaço no qual a poesia tenha uma dimensão civil. Eles escreviam para as pessoas em geral, não para um público exclusivamente composto por letrados. É claro que começaram como todos nós, editando livros de 150 ou 200 exemplares. Mas eram cidadãos do mundo. Drummond, Murilo, Oswald escreveram alguns dos mais belos poemas sobre a Segunda Guerra Mundial. Faziam parte do que chamamos cultura ocidental, tinham uma vocação cosmopolita.

ESTRAGAR O JORNAL

Na poesia recente há experiências semelhantes, penso em Chico Alvim, na Orides Fontela… Vários poetas buscaram esse caminho. Hoje, de quem estou mais próximo é do Ferreira Gullar. O que não significa que não goste dos demais. Recentemente, o número comemorativo das 500 edições do suplemento cultural MAIS! trouxe poemas de Ferreira Gullar, Chico Alvim, Décio Pignatari e Sebastião Uchoa Leite. Para mim, foi impressionante constatar o abismo que havia entre Gullar e os outros três. Ele possui uma ambição ausente nos demais. Havia um risco enorme de “chover no molhado”. De cara, pensei: “Mais um poema sobre a morte? E ainda por cima sobre o Rilke, o ídolo da geração de 45?”. Tudo poderia dar errado. Mas você ultrapassa os primeiros versos e não pára mais. Mesmo num jornal, onde se lê distraidamente, o poema seqüestra o leitor, impressiona pela questões que mobiliza. Ele estraga o jornal. Estraga a calma da leitura dominical, nos expulsa das conversas cotidianas e nos manda para Cabul. Ele não está falando somente da morte do Rilke, quer tocar o coração daquilo que em outros tempos denominamos totalidade.

Reconheço a qualidade dos poemas do Chico Alvim, do Décio Pignatari e do Sebastião Uchoa Leite, mas percebo que estão circunscritos apenas à esfera da poesia. É claro que em outros momentos Chico Alvim também transcende e alcança um patamar altíssimo, mas a ambição de uma poesia atravessada de ritmos, alumbramentos, cicatrizes, visão histórica, só vejo no Gullar. Em Muitas vozes os poemas, de tão simples, nem parecem mais poesia. Ele bebe na mesma fonte de Manuel Bandeira, ali vale tanto o “porquinho-da-índia” quanto “o aeroporto em frente me dá lições de partir”. Com Gullar, o acesso à realidade se dá por várias portas: podemos entrar pela citação culta do Rilke, podemos entrar pelo tema da aproximação da morte, pela disposição convulsiva dos versos na página (graficamente é uma sugestão mallarmaica), pela porta biográfica, pois ele está falando da própria morte… Poucos possuem essa transcendência. Por exemplo, o Armando Freitas Filho, vem se repetindo nos últimos livros justamente porque não consegue transcender a experiência cristalizada já numa certa fórmula. Aos 70 anos, Gullar ainda causa espanto, arrisca em coisas que nunca havia tentado. Não se trata de ter mais talento. Pode parecer vago. Mas, uma coisa ninguém me tira da cabeça, é que ele… não tem medo de errar. Esse é um ponto decisivo, um traço que define o seu trabalho enquanto artista.

O medo de errar prejudicou o José Paulo Paes e ainda atrapalha a poesia do Armando Freitas Filho e do Sebastião Uchoa Leite. Toda uma geração ficou abafada, reprimida, prensada entre a tradição modernista e os rigorosos pressupostos do concretismo. O José Paulo Paes demorou para se livrar desse fardo. Só num livro, sintomaticamente chamado Prosas, aflorou uma voz própria e madura. Antes ele era um poeta irônico, culto, girava em torno de alguns temas, mas tudo muito controlado, sem direito ao erro. Infelizmente veio a amputação da sua perna esquerda, uma sacanagem da vida à qual ele teve de responder. Descobrimos então que o José Paulo Paes tinha pai, que morou em Curitiba, foi amigo do Dalton Trevisan… Prosas articula toda uma experiência que ele havia acumulado e que não encontrava espaço na poesia dele.

TALENTOS QUE A USP SEQÜESTROU

A criação tem dificuldade especialmente em São Paulo, onde a tradição crítica é forte, sólida, organizada. No que se refere à criação, São Paulo é mais opressivo do que o Rio de Janeiro. Me dei conta de que lá não havia um peso crítico que realmente oprimisse os criadores. Aqui, você assiste a uma conferência do Roberto Schwarz, uma aula do Alfredo Bosi, lê um texto do Davi Arrigucci… é quase poesia. Às vezes, a crítica é melhor que a criação. Um texto como o que o Davi Arrigucci escreveu recentemente no Jornal de Resenhas sobre o Sebastião Uchoa Leite descobre coisas que a gente não enxergava na sua poesia. Eu diria que alguns achados pertencem mais à leitura inventiva do Davi Arrigucci do que ao olhar poético do Sebastião.

Isso cria um entrave mimético. Com quem quero dialogar? Com quem me identifico? Durante muitos anos, pensei sempre na figura de críticos. Quer dizer, aqui em São Paulo, a crítica alcançou tal qualidade que é impossível não dialogar com ela. O curioso é que São Paulo só entra no quadro geral da literatura brasileira através dos modernistas. Antes era inexpressivo perto, por exemplo, de Minas. Logo no início do século XX, com os modernistas, a gente pensa: “Agora vai deslanchar”. Mas, com a fundação da Universidade de São Paulo, todas as pessoas que tinham vocação artística, caso da Gilda de Mello e Souza, do Paulo Emílio, do Décio de Almeida Prado… todas essas pessoas abdicaram da criação em favor da crítica. O Décio queria fazer teatro, ser ator, diretor…, mas virou crítico. O Paulo Emílio tardiamente voltou à ficção. Dona Gilda escreveu excelentes contos e, lamentavelmente, desistiu. Todos eram herdeiros naturais do Modernismo, mas acabaram sendo absorvidos pelos quadros da Universidade. Se do ponto de vista da reflexão crítica é preciso reconhecer que a USP foi um acontecimento notável, do ângulo da criação foi um desastre. Estou escrevendo um ensaio sobre essa mudança de rota.

No fundo, tudo isso que estou falando é uma tentativa de refletir sobre a minha própria inserção como crítico, professor universitário e poeta. Veja, as únicas manifestações criativas surgidas fora do âmbito da Universidade foram o concretismo e, um autor bastante avesso ao discurso acadêmico, Raduan Nassar. Este último, a quem dediquei Negativo, sempre foi um contraponto, um grande amigo de quem sempre recebi estímulo no sentido de privilegiar a poesia. Outro exemplo que poderia reforçar minha tese seria o Modesto Carone. Somente depois da aposentadoria ele conseguiu escrever Resumo de Ana, um dos livros mais bonitos publicados nos últimos anos. Enfim, este é um dilema que conheço de perto devido à minha atividade como professor na USP. Por outro lado, para essa reflexão ser mais abrangente teríamos que analisar a enorme tentação que o jornal representou para as gerações mais novas.

CARÊNCIA CRÍTICA

Mas, voltando à vaca fria, ultimamente a situação se inverteu. Hoje a criação dá sinais de vitalidade e o que está em falta é a reflexão crítica. A nossa geração não formou nenhum crítico militante. Não há ninguém se dedicando por inteiro à produção contemporânea. Desse ponto de vista, o modernismo preparou melhor o terreno. Mário de Andrade, Oswald de Andrade fizeram de tudo: peça de teatro, romance, pesquisa folclórica, revistas… mas principalmente polemizaram e refletiram criticamente. Quando Drummond e Murilo Mendes estrearam, o caminho estava aberto para uma poesia nova. Mário e Oswald não somente limparam o terreno, como ainda estimularam e escreveram sobre a geração seguinte: Drummond, Murilo etc.

Não tenho duvido de que hoje passamos por uma bom momento para a poesia. No entanto, os críticos insistem em fazer tabula rasa da produção contemporânea. Veja o caso da Iumna Maria Simon, ela afirma que, à exceção do Valdo Mota, não há nada de valor. Penso justamente o contrário. Falta à Iumna uma olhar mais crítico e menos dogmático. Me parece que ela está escrevendo ensaios sobre questões que pertencem mais a uma outra época. Em primeiro lugar, há um desejo de polemizar abertamente com os concretos, questão totalmente superada pela minha geração. Nosso horizonte crítico não é mais esse. O concretismo existe e teve um imenso valor. Atualmente, até eles acham a idéia de vanguarda problemática. Os poetas abandonaram aquela velha nostalgia de que precisamos ter um movimento, repetir a semana de 22, o concretismo. É fundamental que a crítica abdique da muleta dos textos panorâmicos, da reflexão por décadas, das falsas polaridades.

Algumas coisas estão reclamando uma discussão mais aprofundada. Só para dar outro exemplo, o prefácio que a Heloísa Buarque de Hollanda escreveu para Esses poetas: uma antologia dos anos 90 (Rio de Janeiro: Aeroplano,1998) deixa a desejar. Reconheço que foi simpático, demonstrou sensibilidade para captar que havia alguma coisa nova no ar, mas foi uma visão “de fora”. Comparada à antologia sobre os poetas dos anos 70, que ela mesmo havia organizado, é visível que, na primeira antologia, os comentários foram feitos do ângulo de quem participa e vê a poesia por dentro. Agora, além da falta de adesão, há um desconhecimento das questões internas, do que está em pauta. As antologias de poesia são importantes para montar um quadro, fornecem subsídio para a discussão, mas é óbvio que não representam o próprio debate. Além do perverso desejo de institucionalização dos grupos (e da luta por hegemonia) que se oculta atrás da explosão editorial das antologias, o critério cronológico é apenas mais uma muleta didática, não adensa a percepção histórica nem aprofunda a discussão. Chega a ser ridículo, tal poeta deixa de entrar porque nasceu dois anos antes, outro porque estreou no final da década. Ora, em que década está Chico Alvim? Ele ainda é um poeta marginal? Quando um poeta é bom ele acaba transcendendo a idéia de movimento. Para ficar num exemplo clássico, Menotti del Picchia foi modernista? No calor da hora, no bojo do movimento, ele teve a sua participação. No entanto, jamais foi um moderno; visceralmente modernos foram Drummond, Murilo Mendes…

A meu ver, o erro consiste em não enfrentar diretamente os textos. É fácil falar abstratamente em volta às formas tradicionais, mas o importante é saber lidar com a enorme diferença que se estabelece entre o uso do soneto em Alexei Bueno e no Paulo Henriques Britto. Existe uma série de chavões no repertório da crítica. Começo a desconfiar que, além de publicar poesia, traduzir poesia, editar revistas, escrever crítica nos jornais e publicações universitárias, teremos pela frente mais uma tarefa: responder a textos tão diferentes como os da Iumna Maria Simon e o da Heloísa Buarque de Hollanda. É curioso notar que, em ambas, há um insinuação de que a poesia contemporânea é meio classicizante, de que somos uma espécie de nova geração de 45, que somos praticantes do poema curto etc. É preciso responder saudavelmente a tudo isso. Todos estes diagnósticos estão muito distantes do que a gente vem fazendo. Obviamente é cômodo traçar esse tipo de perfil. Que história é essa de que nossa geração é feita de poetas “bem colocados”? Na universidade? Dando aula? Nossa vida é super precária, a situação do professor é hoje quase uma situação de marginalidade, é desvalorizada, ridicularizada.

UMA SOCIABILIDADE DIFERENTE

Quando vou ao Rio para o lançamento da Inimigo Rumor, percebo uma sociabilidade diferente. Lá as pessoas vão direto ao texto, comentam primeiro os poemas. Em São Paulo, se dá o inverso: comenta-se primeiro os textos críticos, depois a tradução, por último, a poesia. Não há uma confusão de hierarquia? Nesse sentido, a vida literária que há em torno de uma revista como a Inimigo é importantíssima. Sei que há gente que nos vê como figurões, encastelados numa revista literária que só publica determinado grupo. Embora uma das funções de uma revista seja juntar um grupo de amigos em torno da literatura, ela deve ultrapassar a dinâmica da auto-promoção, da mera ocupação do espaço, do grupo que fala só entre si. Essa tipo de sociabilidade, que está se perdendo, tem que ser recuperado. E penso que está sendo, até pelo fato de existirem várias revistas, articulando e rearticulando permanentemente os grupos.

Fabio Weintraub – Queria fazer uma pergunta-defesa sobre a Iumna. Eu a considero uma pessoa atenta ao contemporâneo, não penso que seja tão anacrônica quanto você sugeriu. Você também disse que ela não faz análise de texto, não particulariza. Ela faz panoramas gerais, sim, e faz análise de texto quando é o caso. É uma leitora precisa, muito fina, atenta. Iumna não está brigando só com os concretos, está atenta ao que está acontecendo agora.

REFÉM DE TRUQUES

Augusto Massi – Serei bem incisivo na resposta. Atualmente os críticos falam com muita tranqüilidade das fragilidades da poesia contemporânea. Curiosamente eles não são nada auto-críticos. A Iumna, por exemplo, ainda tem que provar que é uma boa crítica, ainda está nos devendo um trabalho de fôlego sobre a poesia. Não acho que ela esteja revestida de autoridade intelectual para desancar a poesia brasileira contemporânea. Nos dois textos que escreveu recentemente – “Revelação e desencanto: os dois livros de Valdo Motta” (Revista Praga, n.º 7, março de 1999) e “Considerações sobre a poesia brasileira em fim de século” (Novos Estudos Cebrap, n.º 55, novembro de 1999) -, há um alto grau de generalização e nenhum avanço no sentido de um juízo de equilibrado. Ela só colhe o louro fácil da polêmica. Da perspectiva da análise literária, tudo aquilo que foi dito precisa ser comprovado com análises, debatido de modo mais exaustivo, confrontando posições e poemas. Ela simplesmente não corre riscos. Por outro lado, em suas generalizações, nunca há desconfiança, possibilidade de erro, é um exemplar digno do autoritarismo que ela combate no concretismo. Em primeiro lugar, pelo quadro que ela montou, é visível que ela ou desconhece a obra de muitos poetas ou ignorou solenemente seus interlocutores. É possível um crítico ignorar livros recentes como os de Ferreira Gullar, de Chico Alvim, do Carlito Azevedo, do Paulo Henriques Britto? De que poesia brasileira contemporânea ela está falando?

Penso que o Cacaso, o José Paulo Paes, a Flora Süssekind foram e são críticos mais representativos. Um crítico tem a obrigação de estar em dia com a produção contemporânea, buscar um diálogo, uma interlocução. Não sou contra a crítica. Muito pelo contrário, estou reclamando da ausência de crítica. O Antonio Candido fez uma crítica do primeiro livro do João Cabral em que, além de elogiar, apontou problemas. O João Cabral sempre citava a importância que aquela crítica teve sobre a sua produção futura. Penso que crítica e criação devem andar juntas. É o caso do José Paulo Paes, que retomou a crítica militante, indicando novas leituras, traduzindo, apontando problemas, interferindo na criação de vários autores jovens. O que estou dizendo não é um ataque à Iumna; ela não precisa da sua pergunta-defesa. Estou discutindo as idéias dela, respondendo criticamente aos seus textos, chamando-a para o debate.

O que vejo como problemático é, por exemplo, a Iumna eleger o trabalho do Valdo Motta como paradigma de uma surpresa literária. Reconheço um esforço crítico notável no sentido de analisar e chamar atenção das pessoas sobre esta obra. Até aí, tudo bem. No entanto, há um certo exagero quando, para elogiar o Valdo Motta, ela desqualifica todo o resto. Bem, o debate seria muito longo e precisaria de mais tempo… Só para dar um exemplo do que considero descalibrado nesse ensaio, a sua falta de percepção da história literária: o Roberto Piva é bem mais contundente que Valdo Motta, está tudo lá, bem antes do Valdo Motta e não merece uma referência sequer. E olha que há em Piva o mesmo tipo de pesquisa em torno da homossexualidade, a incorporação da gíria gay, esoterismo, antropologia, mitologia clássica e afro-brasileira, que ela aponta como decisivos para a valorização da poesia de Valdo Motta. Como alguém que se quer uma crítica da produção contemporânea pode deixar passar em branco relações desse tipo? Como provocação, eu diria que o Piva dá de dez a zero no Valdo Motta.

Se assumirmos a perspectiva do estudo de gêneros, a coisa piora. É isso que a gente quer? Estudos de gênero? A Heloísa Buarque de Hollanda também incorreu neste erro na antologia dos anos 90: entra um pouco de tudo, poesia feminina, poesia gay, poesia judaica… Mas fico me perguntando: os poetas são bons? Os concretos também tinham essa mania: “Augusto de Campos fez o primeiro poema-holograma”. Tudo bem, mas… o poema era bom? Se não for bom, não adianta nada ser o primeiro poema-holograma. No máximo, você entra pro livro de recordes, ou fica pra história literária como o Gonçalves de Magalhães da poesia gay.

UMA MISTURA DE BANDEIRA COM VINÍCIUS

É preciso escrever um ensaio mostrando como o Age de Carvalho é um poeta importantíssimo, nem digo em termos de Brasil, mas internacionalmente. Não tenho dúvidas que o Carlito, que andou fazendo belíssimas crônicas para o JB e que acaba de publicar Versos de circunstância e Sublunar, está se tornando um poeta que é uma espécie de mistura de Manuel Bandeira e Vinícius de Moraes. Está ocupando um lugar que é um pouco o do cronista de uma época. Virou quase um personagem. É bonito você testemunhar um poeta da sua geração que vai adquirindo esta estatura. É preciso ter a generosidade para falar: “Um dia vou escrever um poema em homenagem aos 50 anos do Carlito Azevedo”. É um poeta que começa a se destacar dos seus contemporâneos. É um grande amigo. Devo muito a ele, o que não me impede de criticá-lo, às vezes, apontando: “Carlito, aqui você perdeu a mão”. Não posso me omitir, é preciso opinar sobre as coisas.

Há outros poetas que merecem ensaios e que foram prejudicados pela falta de resposta crítica. O crítico de poesia tem muito trabalho pela frente. É preciso falar escrever sobre o Paulo Henriques Britto, sobre o Arnaldo Antunes, sobre Marcos Siscar etc. Acho os poetas tímidos criticamente e muito intimidados com a crítica. É preciso mudar urgentemente de posição. Tenho uma grande admiração pelo trabalho que o Cacaso vinha fazendo como crítico. Era um leitor fino. Armou um quadro intelectualmente generoso e estimulante. Até mesmo o José Guilherme Merquior teve mais olho para a poesia contemporânea do que os críticos atuais.

Alberto Alexandre Martins – Tenho uma crítica dirigida ao poeta. Em primeiro lugar, acho que você expôs de maneira límpida, na primeira parte da sua fala, a dificuldade de vir à tona como poeta, todos os dilemas. Na hora da leitura, achei curioso, percebi dicções diferentes. O “Apartheid” e o “Liquidação”, que exigem certa neutralidade na leitura, você leu com alguma veemência e, no “Separação”, que é um poema mais “machucado”, você leu de modo, digamos, didático. Era isso o que eu queria sondar: você reconhece essa mescla de dicções? Elas precisam chegar a um lugar comum? Para onde isso aponta?

BOCA SECA

Augusto Massi – Bom você tocar nesse ponto. Assumo que sinto certa dificuldade com relação à leitura. Melhorei um pouco por conta das aulas na universidade. Às vezes, a gente vai ler e adota esse neutro que mata o poema. Certos poemas pedem uma interpretação e a leitura neutra afasta o aluno. Também detesto esse negócio de teatralizar a leitura. Por outro lado, acho que uma das saídas para a poesia contemporânea alcançar um público maior seria ampliar o registro dos poetas em CD. O Gullar lê muito bem os poemas dele. As últimas leituras do Drummond são inesquecíveis. Algumas pessoas não gostam porque muitas vezes ele interrompe a leitura em função de um pigarro, da boca seca… Eu gosto justamente disso, das pausas, dos silêncios, do timbre sujo. Existem poemas do Drummond, como “Viagem na família”, que só fui entender completamente quando escutei na voz do próprio poeta. É interessante perceber as pontuações, onde o intérprete coloca o humor, isso pode ajudar a interpretar um poema.

Eu pessoalmente sou muito tímido. Arrisco um pouco ao variar a entonação, realçar certas passagens, baixar o tom, rente às leituras do Drummond, mais para o melancólico… O “Liquidação” não dá para ler nesse tom baixo. Em casa leio o “Liquidação” bem melhor do que o li aqui (risos). Versos como “Queima! Queima total!” pedem maior ênfase, sutilezas e recursos que ainda não tenho.

Viviana Bosi – Fiquei pensando que, dos seus poemas, os de que mais gosto são aqueles em que você vai além das idéias. Você sempre teve muito humor, muita capacidade de inverter as situações e perceber uma fresta, uma coisa inesperada, o que rende bons poemas. Mas meus poemas favoritos são aqueles em que você vai além disso, como, por exemplo, “Musa trágica”, ou “Breu” ou aquele do tubarão. São poemas nos quais há uma profundidade inesperada que não se reduz ao trocadilho, à boutade. Será que isso também não tem a ver com a relação, mencionada por você, entre crítica e poesia? Poetas como José Paulo Paes, Ferreira Gullar, Sebastião Uchoa Leite, e mesmo Chico Alvim deram um salto no último livro. Livros como Prosas, Muitas Vozes, Fio-terra, O elefante, A espreita têm alguma coisa de diferente em relação aos livros anteriores. Ao contrário do que você disse, não acho que o Armando Freitas Filho e o Sebastião Uchoa Leite sejam autores que se repitam. Deram um salto justamente para além das idéias. Nos anos 60 e 70, as idéias e as polêmicas marcaram muito a poesia, trazendo rupturas fundamentais, mas que tinham que ser digeridas; o que ocorreu só agora. Agora é que esses poetas digeriram aquelas rupturas e amadureceram, indo além. Alguma coisa vem vindo e também aparece no trabalho dos novos poetas. Penso que o problema da crítica é que ela ficou presa àquelas polêmicas ou aos grandes nomes da tradição. Ela ainda não viu que alguma coisa mudou, bebendo na tradição anterior e ultrapassando-a.

Augusto Massi – Concordo. Do ponto de vista pessoal, tive dificuldade de assumir minha condição de poeta. Entre inúmeras coisas que eu podia desempenhar – dar aula, ser editor etc. -, poesia era a mais difícil. Quando resolvi essa questão, meus poemas cresceram, passei a escrever a partir das minhas obsessões pessoais, coisas íntimas que podem resvalar e tocar os outros. Atualmente, tento me livrar dos poemas em que pareço didático. Eu também gosto mais dos poemas em que, como disse Fernando Pessoa, “o que em mim sente está pensando”. Embora o Negativo também trouxesse uma forte preocupação com a forma, notei que os poemas mais bem realizados eram justamente aqueles abertos à dicção pessoal, dotados de uma porosidade individual. Com A vida errada, livro mais brechtiano, quero crer que faço isso de um modo mais complexo e mais livre.

Abertura

Antologia

Bibliografia