Entrevista Armando

Entrevista com Armando Freitas Filho

Poeta dos mais singulares no cenário poético nacional, Armando Freitas Filho é homem de grandes desassossegos: só escreve de pé ou deitado em “cama-de-pregos”, no meio da ventania. Não é daqueles que repousa sobre a conquista de apenas um canal para a voz, mas segue abrindo ramais na própria carne, fazendo traqueostomias, escalavrando as feridas da expressão. Por isso também, é preciso apreender a singularidade de seu trabalho com atenção anticoagulante, evitando, se possível, a formação de quelóides conceituais.

Na entrevista que concedeu ao Memorial, Armando trata da sua filiação à poesia práxis, da amizade com os poetas Ana Cristina César e Tite de Lemos, da assimilação dialética da lição cabralina e da relação, tensa e abrasiva, que é possível estabelecer entre escrita e pensamento.

por José Almino, Viviana Bosi e Fabio Weintraub

Viviana Bosi: Um dos motivos centrais do livro Fio terra é a obsessão com a própria escrita e sua relação com a vida. Você tematiza constantemente a dificuldade de exprimir-se, alcançar o real, “morder o mundo”, “inscrever-se, intenso”. Há momentos de esforço para vir à tona, forcejar, irromper, sempre nas entrelinhas ou por frestas (como a umidade do muro que teima em vazar a despeito da cal, ou a luz que fura a parede de tão furiosa): como que uma dosagem de vitalidade e da entrega com a procura do ponto certeiro de expressão – o fino, concentração depurada do explosivo. Gostaria que falasse sobre essa tensão.

Espero não “fetichizar” a tensão

Armando Freitas Filho: “Escrever é duro como quebrar rochas”, disse Clarice Lispector. Concordo. Num poema meu que está em Duplo cego, livro de 1997, e que se chama “Sobre pedra”, constato:

Escrevo contra, e incompreensível

em pé, direto na parede

sem horizonte à mão, pois não porto

a necessária talhadeira de legendas

indeléveis, nem o ranho, o catarro preto

do piche que impõe sua mancha de gordura

mas o ligeiro spray lavável e ilegível

que não suja fundo o futuro dos muros

que não entranha, não dói, e até decora

a cara fechada (descascada) da cantaria.

Sinto, enfim, que ao conseguir vazar essa parede, essa dificuldade original, não consigo, na verdade atravessá-la plenamente: segrego, apenas, algo do que quero deixar claro, explícito, escrito. “Vale o escrito”, segundo a expressão comum no jogo do bicho? Acho que vale o esforço, embora só ele não signifique nada, além de suor. Pedaços dessas rochas de Clarice, dessa parede minha, têm que se agregar ao sentido, têm que juntar a ruína e o ruído à construção das linhas que vão sendo tiradas dali. Deduzo que a tensão advém desse procedimento, de só perceber ou captar o pensamento como um mix, um escombro, do que se sabe e do que se desconhece. Aliás, por falar em tensão, ao reler, recentemente, resenhas de variado tempo sobre a minha poesia, a palavra tensão aparecia em todas; senão ela, exatamente, termos correlatos. Não fiz por isso conscientemente. Até me incomodo, com a ocorrência repetida desse sentimento.

Afinal, para um hipocondríaco confesso, esse aspecto revelado é motivo de forte preocupação: faz mal à saúde. Como escritor, apesar das referências serem todas elogiosas, espero não “fetichizar” a tensão, pois essa atitude seria como acomodar-se numa cama de pregos e industrializá-la, digamos assim.

José Almino: Tite de Lemos e Ana Cristina César: ambos poetas, ambos seus amigos. Que relações você estabeleceria entre as idéias de “geração”, “amizade” e “poesia”?

Não fomos somente testemunhas isentas das nossas vidas

AFF: Geração, segundo entendo, e em poucas palavras, é o encontro de competidores e cúmplices. Apesar da poesia, e não por causa dela, a amizade que juntou a Ana e o Tite a mim foi, como todas, sujeita a chuvas e trovoadas de verão, mas o sol era forte e constante – atravessou anos, e continua em curso, brilhando. Pensando melhor: existência e poema eram indissociáveis, servidos na mesma colher e, ela, poesia (como às vezes acontece), não prejudicou o ponto perfeito que me uniu a cada um, tão diferentes entre si. Posso dizer, com simplicidade, que não fomos somente testemunhas isentas das nossas vidas: acompanhamos e interferimos nelas com rigor e amor, com reta e invariável atenção e intenção. Sem exagero, posso dizer, que estou sempre pensando neles. É um estado natural, como que um consolo para compensar a perda, a falta da voz, a ausência do corpo.

Fabio Weintraub: Você começou seu trabalho ligado à poesia práxis e ao poeta Mário Chamie, que escreveu sobre De corpo presente (“A linguagem e seus corpos”, incluído em Casa da época, coletânea de ensaios de 1979). Muitos anos depois, o mesmo Chamie, em Natureza da coisa (1993) endereçou dois poemas – “O poeta catatônico” e “A mosca” -, digamos, de escárnio e mal-dizer, a você. Gostaríamos que você falasse desse seu começo “vanguardista” e das marcas que ele deixou, se é que deixou, em seu trabalho posterior.

Não “cicatrizo” nunca. Vivo me escarafunchando.

AFF: Meu primeiro livro, Palavra, abriga poemas de 1960 a 1962. Quando o escrevi, não tinha conhecimento da instauração Práxis. Nem quando o publiquei, em 1963, com o incentivo de José Guilherme Merquior. Foi ele que me falou que estava colaborando numa revista chamada Práxis e que eu devia enviar meu livro para lá. Segui o conselho e fui convidado a participar do número 3 da publicação. A oportunidade chegou em boa hora, pois os espaços literários na imprensa e nas poucas revistas existentes eram quase todos ocupados pela pregação concreta e neoconcreta e pela chamada geração de 45. Para mim, o verdadeiro “inimigo” era esse, com seu beletrismo insuportável, com suas aspirações, desde muito tempo, de passar a limpo e a ferro as conquistas libertárias de 22. Que as facções de vanguarda se digladiassem entre si eu até achava que fazia parte do jogo; do processo de crescimento de todos nós que incorporava bem bate-bocas e caneladas, na poesia e fora dela.

Além do livro que você cita, Palavra (1963), Dual (1966) e Marca registrada (1970) mereceram resenhas longas e elogiosas, que até me soavam exageradas, do criador da chamada literatura práxis. Ficou difícil compreender, então, os ataques à minha poética, em 1993.

Claro que se pode mudar de opinião, mas tanto assim? Ir de um pólo a outro sem nenhuma mediação? Fiquei espantado com essa velocidade, mas também me senti confortável: afinal, não era só eu que era mal criticado naquelas páginas. Ao meu lado estavam três escritores que admirava (e admiro) muitíssimo. Me senti não só acompanhado, mas em excelente companhia. Quanto às marcas da minha militância praxista, creio que elas aparecem em Dual e Marca registrada. Penso que no livro imediatamente seguinte, De corpo presente, elas aparecem mais diluídas. Ou falando de outro modo: eu não as deixei cicatrizar naquela forma que já estava virando fôrma. Pensando bem, eu não sei agir de maneira diferente, na literatura, na vida, pelo menos até hoje: eu como que não “cicatrizo” nunca. Vivo me escarafunchando.

JA: A primeira parte de Fio terra é composta por um longo poema (450 versos) com estrutura de diário. Quais os destinos do “poema longo” neste momento da produção lírica brasileira?

Uma assepsia do significante resultando em anemia do significado

 

AFF: Não sei. Não tenho clareza sobre esse ponto, que me preocupou sempre. Ainda mais com essa “oswaldite” que grassou sem controle nos últimos anos. Acredito que o problema principal não está nem no comprimento do poema, mas na sua densidade. Há uma espécie de assepsia do significante que acaba resultando em uma anemia do significado. Mas “Fio terra” não é o meu primeiro poema longo. Pode ser o mais “declarado”. Em longa vida, Ana Cristina César, no prefácio, afirma, “este livro poderia ser pensado como um poema inteiro, desenhado por um verso em forma de fio longo”. Gosto de pensar que longa vida é o meu Poema sujo. Acho que todo poeta deve tentar fazer os seus “poemas sujos”.

FW: Ao longo de sua obra, encontramos vários momentos de diálogo com as artes plásticas: as litografias de Rubens Gerchman para Mademoiselle Furta-cor (1977), a antologia poética para as gravuras de Marcelo Frazão, em Erótica (1999) e, mais recentemente, a parceria com Anna Letycia. Como tal diálogo se liga às obsessões imagéticas, aos modos de figuração com que você opera?

Não sei se chego a ter “obsessões imagéticas”.

 

AFF: Sempre fui muito ligado às artes plásticas. O convívio, desde moço, com Rubens Gerchman, Antonio Dias, Roberto Magalhães, Carlos Vergara, e mais tarde com Cildo Meireles, Artur Barrio, Milton Machado etc. apurou o meu gosto. Dos meus doze livros, oito têm capa de pintores: seis do Rubens (com quem fiz dois livros de arte: Mademoiselle Furta-cor e Dupla identidade), um do Cildo, outro do Milton. Guaches do Barrio ilustraram uma pequena edição numerada de duzentos exemplares de Dois dias de verão, escritos, em co-autoria, com Carlito Azevedo. Elaborei inúmeras apresentações para exposições, catálogos e convites. Ultimamente, além de Erótica, com Marcelo Frazão, Vladimir Freire e eu fizemos um folder, 3TIGRES, que é um belo objeto de arte gráfica

Agora, está saindo do forno um álbum, Sol e carroceria, com dois dedos de prosa minha iluminados pelas serigrafias de Anna Letycia, em tiragem limitada.

Não sei se chego a ter “obsessões imagéticas”, mas, seguramente, formas e cores, alimentam a poesia que pratico, e colaboram, em muito, na minha imagerie ou com a minha imaginação. Prova disto é que não são raros, em meus poemas, homenagens ou menções a artistas plásticos.

JA: Li recentemente que o poeta Robert Lowell ministrou por anos um curso-oficina cujo título/mote era a seguinte pergunta: “A poesia confessional estaria condenada à lata de lixo da história?” O que você diria a este respeito?

Na poesia de Drummond, a “confissão” acontece em larga escala

AFF: Creio que essa inquietação é sintomática e bem apropriada a Lowell, cuja poesia tem forte marca autobiográfica. No seu livro Life studies há uma seqüência impressionante de poemas confessionais.

É possível que ao promover esse curso ele quisesse pôr em debate uma dúvida sua, que o devia atormentar. Talvez porque se sentisse confrontado com as presenças formidáveis de Pound, Eliot e o William Carlos Williams,dePaterson, que lidavam literariamente com grandes questões da humanidade e não com as histórias miúdas do homem. Mas isso é mera especulação lítero-psicológica. Na poesia de Carlos Drummond, para só ficarmos com esse exemplo maior em português, a “confissão” também acontece em larga escala. Nele, como em Lowell, nada me faz crer que essa produção esteja condenada “à lata de lixo da história”. Muito pelo contrário. Só a má poesia, seja qual for seu conteúdo, merecerá esse destino inglório.

FW: Em depoimento para o livro Artes e ofícios da poesia (1991), “Os três mosqueteiros”, você se refere à impressão deixada em você pela obra de João Cabral de Melo Neto, autor que, segundo você, perseguia e exauria o tema “com uma vontade titânica”, escrevendo como quem acende “uma a uma, todas as luzes de uma casa”. O curioso é que apesar do incômodo em relação à claridade cegante de Cabral, encontra-se em sua obra uma ímpeto ordenador semelhante ao dele, no sentido de constelar cada livro em torno de temas a que a voz permanece cingida. No seu último livro há mais de um poema que evoca a presença cabralina como espécie de contraponto à sua concepção de escrita. Desenvolva um pouco essa idéia de uma escrita sem “(…) a calma e o cálculo / de quem cata feijão”

Para se “exorcizar” uma influência tem

que se entrar em “luta corporal” com ela.

AFF: João Cabral é, no mínimo, referência obrigatória – incontornável – para minha geração. Temos que encará-lo, enfrentá-lo mesmo, até para que a leitura de sua obra possa ser feita com mais distanciamento evitando, com esse procedimento, mimetizá-lo acriticamente, como quase sempre acontece, pegando ou fazendo o mais fácil: rigor de fachada (não levando em conta o quanto de visceral sua poesia contém) e ranhetice idiossincrática, tal como sua eleição engraçada, mas que não se sustenta, de certas palavras em relação a outras, por apresentarem mais concreção, o que é uma bobagem, pois o que vai determinar concretude ou vaguidão é o uso que se faz do vocabulário. Em Duplo cego questionava em “Para João, com amor e sordidez”, seus métodos de composição, propondo alternativas mais aleatórias, menos dirigidas:

Exercício de estilo, se existe

não visa, como o de tiro

um alvo único, fixo e físico

mas a muitos

mais de imaginação do que de imagem.

Não usa bala burocrática, numerada

de calibre certo, didático.

E sim um punhado de chumbo

de pedras

que pega um pouco em tudo

assinando o nome com garranchos

sem carimbo

ou caligrafia pré-fabricada

picotando o papel jornal

com furos de franco atirador.

O mesmo se dá com o poema de Fio terra citado por você, “Caçar em vão”, que contrapõe à ordem ou à didática cabralina de “Catar feijão”, certa desordem veloz, na hora da captação e da escrita. Quanto ao “ímpeto ordenador semelhante ao dele” que você encontra em minha poesia é normal que seja assim: para se tentar “exorcizar” uma influência tem que se entrar em “luta corporal” com ela, deixar-se contaminar, enfim, para criar anticorpos eficientes. A pretensão pode ser grande, mas temos obrigação de buscar essa “imunização”, para sermos nós mesmos, dentro dos limites do nosso “corpo”, mesmo que pequeno, e não cópias desbotadas ou apêndices desfibrados do outro.

FW: Em entrevista recente a Adolfo Montejo Navas, publicada na revista CULT (nov/2000), você discorre sobre como a poesia é afetada pelos instrumentos e suportes de que a escrita se serve. Escrever a lápis é diferente de escrever à caneta, da mesma forma que a máquina de escrever é muito diferente dos atuais processadores de texto. Você chega a dizer que o advento de computador permite uma “volta ao começo de tudo”, uma escrita “na água do pensamento”. Discorra um pouco mais sobre tal assunto aproveitando para falar do título de seu próximo livro: Máquina de escrever.

Ao destruir os rascunhos, perde-se algo que foi

nomeado e que resta inominado ou inominável.

AFF: Espero que essas nuances da sensibilidade acerca do ato de escrever não sejam por demais preciosistas. Ou que não sejam pura fantasia.Mas se assim for não há porque se negara fantasiar,pois essa possibilidade existe na natureza humana e pode colorir ou fazer delirar qualquer das suas atividades. Escrevo à mão não apenas por datilografar ou digitar mal, lentamente: procedo assim por sentir mais próximo de mim o texto, com suas idas e vindas, com suas rasuras; por sentir a marca da mão – o peso do seu calor – de maneira mais plena. O que quis dizer com uma escrita na água do pensamento é que o computador possibilita essa simulação (ou ilusão), devido à complacência com que aceita mudanças de rotas, de correções radicais – tudo isso sem deixar marcas, absolvendo por completo nossos erros de ortografia, enunciado e inflexão. Visto por esse ângulo, mais radical do que o próprio pensamento é o processador de texto: ele pode não ter memória alguma, remorso nenhum ao apagar o que pareceu impróprio.

Sob esse ponto de vista é ruim: ao destruir os rascunhos, as variantes, tão inteiramente, perde-se algo que foi nomeado e que resta inominado ou inominável. E ao fim e ao cabo, posso estar precisando exatamente disso. Para uma pessoa tão preocupada, sabe-se lá porquê, com essa parafernália miúda envolvendo meios e modos da escrita, é perfeitamente coerente que o livro em preparo se chame Máquina de escrever, título ambíguo, e que vai servir para todo o volume que recolherá a minha poesia reunida e revista, de 1963 a 2003. Se a vida não começa aos quarenta, como reza o ditado, talvez a vida de uma poesia possa tentar essa peripécia arriscada, já que, parafraseando o prosador fabulógico, escrever é muito perigoso.

Viviana Bosi é professora do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da FFLCH-USP e autora de John Ashbery: um módulo para o vento (São Paulo: Edusp, 1999). Membro do Conselho consultivo do projeto “Poetas na Biblioteca”.

José Almino é poeta e pesquisador da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro. Autor, entre outros títulos, de Maneira de dizer (São Paulo: Brasiliense, 1991) e O motor da luz (São Paulo: Editora 34, 1994). Membro do Conselho consultivo do projeto “Poetas na Biblioteca”.

Fabio Weintraub é poeta, autor de Sistema de Erros (São Paulo, Arte Pau-Brasil, 1996) e trabalha no Centro Brasileiro de Estudos da América Latina (CBEAL), da Fundação Memorial.

Bibliografia

Antologia

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