Depoimento Armando

Depoimento de Armando Freitas Filho

Biblioteca Latino-Americana Victor Civita

Fundação Memorial da América Latina

18 de outubro de 2001

Armando Freitas Filho – Agradeço por ser convidado a falar neste espaço enorme, em que me sinto minúsculo, menor do que habitualmente me sinto quando falo em espaços públicos. De fato, sou mais uma pessoa telefônica, um ser de quarto-e-sala mais que de palco, auditório. Falo melhor testa-a-testa; boca-a-boca rendo mais.

Exatamente há um ano eu estava em São Paulo, lançando o livro Fio terra. Por causa disso, venho numa sucessão de bate-papos, entrevistas orais, por escrito, entrevistas mentais (em que a gente pensa que vai falar uma coisa e não fala). Esse também foi um ano singular porque até então, por superstição e medo, eu não queria editar a minha poesia reunida. Achava que seria como cortar a veia, fechar a porta. Mas agora, pelas mesmas razões, superstição e medo, resolvi fazer a reunião, o que fez com que eu levasse um bom tempo visitando-me, numa retrospectiva desde a minha estréia, há quarenta anos atrás. Como será uma edição revista, tive que ler aquilo tudo, aqueles poemas todos. Sou um autor que se relê pouco, até porque, obsessivo como sou, estou sempre querendo mexer, alterar etc. Foram 625 páginas de computador, doze livros (só tinha dois livros, os últimos, no computador). Isso me demandou um esforço enorme. Nunca pensei que fosse tão difícil e dolorido esse trabalho retrospectivo.

Isso também se liga à coisa da morte, que persegue a todos nós, principalmente os mais velhos. Principiamos a saber o que sempre soubemos: não há saída viva da vida. Fica-se pensando em quanto tempo nos resta para fazermos as coisas que ainda queremos fazer. Tenho muito pouco tempo para fazer o que eu penso. Não porque eu pense grande, mas porque o pensamento sempre vai à frente da mão. As ocupações humanas nos impedem, desorientam-nos, distraem-nos. Isso tudo me põe aflito. Eu, que já não sou calmo, fico ainda mais aflito. Além disso, a essa altura da minha vida, aconteceu também uma coisa que, paradoxalmente, me deu um raio de luz, para dizer o mínimo. Tenho uma filha de trinta anos e tive agora um menino que tem hoje dez anos. A chegada dele foi a melhor coisa que aconteceu em minha vida. Ser pai aos 51 anos, como eu fui, é algo que a gente recebe na boca. É como se eu tivesse recebido esse filho na boca. Saboreio este filho como quem degusta um vinho que não era mais para mim. Um vinho que eu não podia comprar, um vinho cujo sabor eu já não poderia discernir. Foi como achar numa adega um vinho maravilhoso a que eu não teria direito. Essa graça me foi dada.

Ao mesmo tempo, penso: eduquei a minha filha, com ele eu não terei a mesma presença física, enérgica. Ou energicamente doce, quando é o caso. Não serei muito doce, nem muito amargo, porque estarei me fragilizando. Cada dia é uma barba a menos que se faz. Não há dia em que eu não pense nisso, assim como não há dia em que isso não se reflita no que escrevo. Assim, tudo isso se juntou a esse esforço retrospectivo. Brinco dizendo que fiz a minha Guerra e paz, em número de páginas, mas foi uma guerra tout court, conforme disse a uma moça da editora.

Estou há 23 anos na mesma editora, sou mais fiel a ela que… A fidelidade é uma coisa que a gente tem que sofrer mais do que fruir. Então, eles me ofereceram uma moça para digitar as minhas coisas. Eu recusei, quis eu mesmo bater. No fim, fiquei doente, arrasado, por comprimir 40 anos em um mês e meio de digitação. Não sou nada hábil como digitador, sou gago de voz e de mãos. Cristina falava: “Bata dez poemas por dia, siga uma programação”. Mas eu nunca consigo fazer nada conforme a programação, sou uma pessoa voraz, que está indo “parafuso, para frente, para o fim”, como já disse num verso. Dormia pouquíssimo, acordava com aquilo na cabeça.

Eu já disse isso, mas vocês me perdoem, sou um só, se eu tivesse um irmão gêmeo… Os filhos únicos sempre querem ter irmãos para partilhar o que sentem em relação aos pais. Quando eles, os pais, morrem, não há ninguém ao seu lado que sinta parecido. Você está só no mundo diante daquela morte. Mas não era isso exatamente que eu queria falar, estou apenas me confessando. Minha mãe queria que eu fosse padre, mas as mulheres me tiraram da minha possível vocação. Se bem que eu me considere um pouco padre ainda hoje, porque adoro ouvir e aconselhar. Não que os conselhos sejam lá grande coisa, mas, de qualquer modo… Então esse balanço, que eu fui forçado a fazer, foi frenético porque o trabalho me exigia que fosse assim. Sentia-me como se tivesse uma faca de açougueiro numa mão e uma faca de cirurgião-geral em outra. Isso era uma sensação bastante veraz, física. Ficava com medo de trocar as facas, de usar uma no lugar da outra. Tudo isso consumiu-me, tive de tomar calmantes. Dormia pessimamente, sonhava coisas absurdas, nada literárias. Ao contrário, havia carne no sonho, carne esponjosa. Estou fazendo um preâmbulo contando o que foi minha vida neste último ano. Trata-se, como Godard fala, de um auto-retrato dos meus 60 anos em outubro. Espero não ficar assim, espero que a barra se alivie um pouco no futuro, que as coisas não me pareçam assim tão urgentes.

Mas como pensar diferentemente se o mundo que nos cerca é tão precário e cada dia parece perigoso? Amanhã voltarei ao Rio de Janeiro. Hoje mesmo li uma nota dizendo que em Congonhas, ontem, na ponte-aérea Rio-São Paulo, havia um pó branco que fez com que fechassem o aeroporto. Antigamente pó branco era outra coisa (risos), agora virou uma coisa horrorosa. Não estou dizendo que o outro fosse uma maravilha, mas não era isto. Como viver então neste dia perigoso, não se sentindo ameaçado? Sem querer, a gente vai ficando poroso a tudo isto. Principalmente quando se tem filho pequeno, que depende da gente para tudo. Fico pensando: “Que vida é esta que esse menino vai encontrar? Que sexo é este que ele vai encontrar?”. A minha geração foi a geração que encontrou o sexo livre, bonito… nem sempre bonito, mas livre, para ser mais exato (risos). Para fazer sexo, amor, seja lá que nome tenha, você saía com a sua pele. Hoje você tem que sair emborrachado. Antes, a camisinha evitava a vida, hoje, evita a morte. Quer dizer, trocaram-se os sinais, isso para mim é muito forte. Talvez as crianças, os moços de hoje lidem mais naturalmente com tudo isso. Sou de uma geração para quem transar, como diz um amigo meu, era como apertar a mão de alguém. Hoje, não só por causa do pó branco, vemos os escafandros com naturalidade, parece que não estamos mais na Terra. A contaminação está em tudo. Você abre um arquivo de computador e logo aparece o Norton Antivirus avisando que há um vírus que você deve combater. Hoje a paranóia, em muitos campos, virou realidade.

Evidentemente a minha visão é pessimista, sempre fui assim. Há coisa de nove dias, uma repórter do JB me procurou porque queria mostrar poemas e tal. Pensei que fosse apenas isso. Mas ela me disse algo que me deixou aterrorizado. Os jornais costumam guardar um portfolio das suas fotos durante muitos anos. Então ela levou para mim, teve essa crueldade, de levar cópia das minhas fotos durante os últimos quarenta anos. Tive vontade de bater nela, mas só disse: “Puxa vida, porque você me trouxe essas fotos antigas, não quero isso, tenho fotos novas, com meu filho. Não quero essas fotos mesmo porque não posso mais usá-las, porque o JB cobra, como qualquer agência…”. Daí ela foi mais cruel ainda e disse que havia trazido as fotos porque, em uma ou duas das fotos, o meu olhar era de uma tristeza que, segundo ela “não é dessas de que a gente se livra”. E prosseguiu: “É uma tristeza que habita você o tempo todo”. (risos). Isto me foi dito por uma moça de trinta e poucos anos, toda catita, no restaurante. “Foi a expressão de olhar mais triste que já vi”, disse ela. Não mereço uma crueldade dessas, principalmente vinda de alguém que quer que eu opine sobre o que ela escreve. Fiquei com vontade de dizer: “Não serve, não presta, seus poemas são tristérrimos”.

Sou capaz de raivas também. Sou um padre leigo raivoso. Rezo com raiva ao sabor de iras súbitas. Este é meu auto-retrato. Vocês podem ver que o autor que está aqui, o que ele escreve sai desta terra. Ou melhor, sai deste mood, de tudo isto, reflete esse trançado, isso que os outros vêem. Se os outros vêem, deve haver alguma verdade nisso. Nenhuma mulher que eu tive me disse isso, por que é que essa menina foi me dizer, assim, de pronto, sem nem me conhecer? Era verdade para ela. É essa pessoa, que tem uma tristeza nos olhos “dessa das que a gente não se livra”, que escreve o que eu escrevo. Esse que tem medo, pavor, em relação a tudo.

Tudo meu é muito instável, embora o texto pareça arrumado. E, falando tecnicamente, não é arrumado, porque incluo muitas coisas de oitiva, coisas vulgares, no meio daquilo que faço. Nesse ponto, sou pop, procuro juntar coisas díspares. E juntar a martelo, sem muito verniz. Não porque queira, mas porque não consigo fazer de outro jeito. Estou sempre aquém ou além do que quero. Então a coisa fica sempre meio turva. A intenção é escrever na linha do horizonte, mas há um intervalo entre intenção e expressão. Sabemos que só poucos conseguem escrever naquela linha. No caso brasileiro, que eu saiba, só Drummond. O que está ao nosso alcance é a linha do papel, do caderno. Por isso o pensamento fica muito à frente do que a gente realiza. Sartre dizia que gostava de fazer as coisas “pleno uso”. Tomava aquelas bolinhas que dão speed para não perder o ritmo enquanto escrevia L’être et le neânt. Falta a mim a coragem do pleno uso. Talvez só tenha experimentado isso neste mês e pouco em que viajei para trás visando o futuro. A vida não começa aos quarenta, mas talvez uma poesia mediana possa começar.

O DEBATE

Fabio Weintraub: Queria começar com uma pergunta sobre o título do último livro, Fio terra. Até pouco tempo, imaginava se tratar de uma expressão referente aos processos eletromagnéticos deslocada, com total felicidade, para o campo da poesia. Recentemente descobri se tratar de uma gíria que também se aplica aos “prazeres anais”. Com relação a este último ponto, há um poema no livro, intitulado “Prega-rainha suíte” que confirma essa segunda acepção. Fale um pouco sobre isso.

Armando Freitas Filho: Como já disse, lido com coisas díspares e procuro usar expressões que permitam, ainda que de modo muito velado, uma segunda leitura. Sobre essa questão, o poema “Prega-rainha suíte” supõe, como se trata de uma suíte, um poema anterior, de outro livro. A sensação e a prática referidas pelo poema originaram-se de uma leitura que fiz de James Baldwin, mais ou menos em 75, 76, um livro cujo nome agora me foge. Nesse livro, que é, salvo engano, da década de 30, 40, ele fala que, de uma maneira geral, os homens desconhecem o prazer que existe na entrega passiva. O homem é muito executivo e não conhece esse outro lado. Os dois poemas “prega-rainha” versam sobre isso, sobre o prazer que se pode ter numa entrega passiva.

Público: Armando, não quero parecer inconveniente, mas você falou sobre a fotografia e o olhar triste que a jornalista guardou para sempre. Eu não queria guardar esse olhar triste na minha lembrança, por isso faço um pedido: queria que você declamasse agora um poema. Ao vivo. Quero guardar a sua emoção de uma leitura ao vivo, nem que fosse um poema pequeno

Armando Freitas Filho: Infelizmente não é possível. Não falo poesia em público. Falo tudo em público, menos poesia (risos). Nisso sou absolutamente inflexível. Qualquer outra coisa que você queira eu faço.

Mara Ribeiro: Fiquei com um pouco de curiosidade sobre o que você falou sobre saborear um filho aos 50, como um vinho raro. Queria que você identificasse, nos seus poemas, os vestígios desse prazer, disso que você recebe na boca. Queria saber se essa relação com a criança que é o seu filho também traz a criança Armando Freitas Filho. Você se descreveu como um cara pessimista, “baixo astral”… Queria saber se a criança Freitas Filho também era assim e se ela tem voz e vez nos seus versos.

Armando Freitas Filho: Tem sim. Não me considero exatamente “baixo astral”. Sou um pessimista inconformado, alguém que luta contra isso. Fui católico praticante até bem tarde e acredito em Deus. Na ferocidade dele. Os poemas sobre meu filho estão no livro Números anônimos. Há ali uma pequena suíte com dois ou três poemas. Quando ele fez dez anos, fiquei muito triste por ele ter entrado, para sempre, na casa dos dois dígitos. Foi a primeira coisa que pensei. Daí, como sou um ginasta, andarilho, saí para andar. Fui comprar uns discos do Miles Davis que haviam saído em CD. Não que eu seja um jazzófilo, mas eram discos antigos, que eu só tinha em vinil. Os meus discos já estavam todos roucos e arranhados, como eu estou. Então eu queria um Miles Davis novo, daquele que eu ouvia quando moço. Aí saí com o jornal onde aparecia a foto do Miles. De repente, começou a vir um poema sobre os dez anos do meu filho, sobre o que significa ter dez anos. Este poema vai estar no livro novo que sairá em 2003. Como eu não saio de casa de caneta em punho, fui pegando a caneta do porteiro, do jornaleiro, do florista… e escrevendo os versos que vinham, as linhas que vinham, em cima da testa do Miles Davis. Guardei inclusive o retalho do jornal em que foi tudo escrito com canetas diferentes. Parecia que eu também havia utilizado inflexões diversas, correspondendo às cores diversas, para fazer o poema. Cheguei surpreso com o meu desejo de fazer um poema sobre os dez anos de meu filho. Estava feito.

É claro que isso já me aconteceu outras vezes, não é um caso isolado, não quero dar aura de único a este poema. Na vida existem poucas coisas únicas, principalmente na minha idade. Então, ao voltar para casa, eu tinha aquele poema com inflexões diversas. E o poema ficou legal, ficou forte. Quase não retoquei, coisa rara; não única. Assim, a alegria aparece nos meus poemas, poucas vezes, mas aparece. O êxtase sobretudo, aquilo que a Katherine Mansfield chamava “bliss”; palavra sem correspondente exato na nossa língua.

Fabio Weintraub: Na terça-feira passada, você encerrou o seu depoimento no Instituto Moreira Salles falando de um sonho recorrente seu: escrever com a papel apoiado nas costas de alguém. Achei essa imagem muito enigmática, queria que você associasse um pouco a partir dela.

Armando Freitas Filho: É enigmática para mim também. Tenho alguns sonhos que se repetem, dos quais me lembro pouco. Mas, à força de repetição, a lembrança se impõe. Sou um escritor que não escreve sentado. Não me sento à mesa, sou um deambulador. Ando com uma prancheta pela casa. Na rua é mais raro. Não fico pedindo canetas a todo momento (risos). No meu sonho, também me vejo escrevendo em pé. Há uma pessoa em quem me apóio. Sem cerimônia, sem pedir licença, sem conhecer a pessoa. Não há nenhuma nobreza nessa pessoa: não é um escritor, não é alguém de quem eu queira tirar algo. É uma pessoa sem cara em quem me apóio para escrever. Já pensei algumas vezes se não há nessa imagem a distorção de um desejo homicida, vontade de matar alguém (risos). Quando se tem filho pequeno, a gente se sente perfeitamente capaz de matar e morrer. A gente é capaz disso. Aliás, há um filme da minha época, chamado La dolce vita, em que um personagem secundário, chamado Steiner, mata a família toda por desespero, por falta de perspectiva. Esse é um filme de 1960. Mata a família toda e não vai a cinema algum, para lembrar o título de outro filme, do Bressane, porque ele se mata também.

A explicação que eu tenho para o sonho é essa. É um abuso, porque acho que escrevo um pouco abusadamente. No Instituto Moreira Salles não fui tão longe, porque a platéia era um pouco mais vetusta e talvez ficasse de cabelo em pé. Ou talvez não, porque os velhos compreendem melhor a morte.

Mara Ribeiro: Achei interessante quando você falou que o homem não sabe se entregar passivamente. Queria saber em que altura da sua vida você descobriu isso. Foi depois de maduro? Queria saber também se essa entrega passiva se dá também no trato com as palavras. Os versos se impõem a você, que os acolhe passivamente? Ou você os submete, exerce sobre eles uma espécie de domínio?

Armando Freitas Filho: Sobre a segunda parte da questão, que é complexa, eu teria que pensar com calma. Acho que no processo criativo há as duas coisas, controle e obediência, atividade e passividade. Mas é difícil responder de imediato questões como essa. Embora as pessoas se habituem a responder de chofre qualquer coisa. A televisão faz isso. Ninguém diz “não sei”, todo mundo sabe tudo. Perguntam coisas dificílimas e as pessoas discorrem com uma certeza fantástica. Fico perplexo porque em geral eu não saberia responder quase nada do que se pergunta na televisão. Saberia, quando muito, fazer variantes, para usar uma noção musical.

Sou uma pessoa muito ligada à música, por influência familiar. Meus pais e meus tios gostavam muito de música clássica, tanto que a primeira coisa que eu quis foi ser maestro. Ouvia Petrouchka, de Stravinski com naturalidade. Sou stravinskiano desde os seis anos. Digo isso sem pose, porque meu pai e meu tio escutavam, eu apenas ia atrás. Até estive com Stravinski, em 1964, quando ele veio ao Brasil pela segunda vez (a primeira foi eu 1938, eu não era nato).

Mas voltando à sua pergunta, a primeira parte é mais fácil de responder. Tive essa experiência em plena maturidade. É na maturidade, quando você deixa de acreditar que possui um eixo, que não pode se abrir ou se fragmentar, quando você abre um pouco mão de si mesmo, quando você perde um pouco o seu nome, o nome que você acha que tem, que coisas assim acontecem. Foi num momento bom, em que pude curtir o ocorrido.

Mara Ribeiro: Mas quando foi isso?

Armando Freitas Filho: Você quer a data e o dia? (risos) Foi em 1979 e em 1982, quando eu estava entrando nos meus 40 anos. Quer a hora? (risos)

Público: (alguém pede que Armando retome uma afirmação feita em entrevista, algo sobre escrever num lugar em que venta)

Armando Freitas Filho: Sim, venta onde escrevo. Mesmo quando estou em casa. Não é para fazer gênero, não me sinto à vontade em lugar nenhum. Nem na minha casa me sinto à vontade. Não tem esse lance do meu canto, minha cadeira… A minha cadeira é de pregos. Sempre foi assim, sou uma pessoa absolutamente inquieta e dolorida. Dolorida não apenas pela dor, porque a alegria também machuca, embaralha. É claro que a dor aguça o corpo mais do que a alegria, não é? A dor revela o corpo que se tem, esse corpo sujo de Judas que te vai trair. Um dia ele vai trair, pode estar começando agora. Pode estar se formando um caroço qualquer, que tem ódio de você e quer a sua vida. Você alimenta esse caroço. Tudo isso pode estar acontecendo neste exato momento

Fabio Weintraub: Na terça-feira também, você se referiu à poesia concreta de um jeito bastante crítico. No entanto, você começou ligado ao movimento Práxis, que é uma vanguarda bastante próxima do Concretismo…

Armando Freitas Filho: … agora eu poderei falar com mais propriedade. Confesso que não compreendi tão bem a vanguarda concreta no campo da literatura como compreendi no âmbito da música e das artes plásticas. Ou melhor, na música e nas artes plásticas a arte concreta sempre me pareceu mais produtiva, enquanto na literatura não passava de um expediente interessante. Inclusive achava, ao contrário do que se dizia na época, que o que importava não era a teoria, mas os poemas. A teoria eu achava furada. Não podia acreditar numa teoria feita para servir a si própria, torcendo a história.

Em 1958 eu tinha 18 anos, sendo os poetas de São Paulo 10 ou 12 anos mais velhos do que eu, o que na época era muita coisa. Escrever que “o ciclo histórico do verso estava encerrado” era uma bobagem, para dizer o mínimo. Nós tínhamos Bandeira lançando as Obras completas, Drummond lançando Fazendeiro do ar e poesia até agora e João Cabral lançando Duas águas. Dizer que o ciclo histórico havia se exaurido, com três poetas de gerações diferentes em pleno vapor, era um erro.

Eu não dava muita bola para isso, porque o meu poeta de vanguarda era o Gullar. O grande livro de poesia de vanguarda que li em 1956 foi A luta corporal. Meu espanto foi tal que copiei o livro do Gullar à mão, já que não havia xerox. Éramos um grupo de jovens, tínhamos 16, 17 anos e apenas um de nós tinha o livro. Comprei um caderno quadriculado, para obedecer os cíceros e espaços, e copiei o livro inteirinho à mão. Então foi Gullar o poeta que me despertou para a poesia dita de vanguarda. Augusto, Décio e Haroldo eu vim a conhecer depois, mais tarde. Eu os achava burocráticos, pessoas que casavam apenas uma vez só (risos). Queria eu uma felicidade dessas, de casar uma vez só. Eles escreviam uma poesia de médicos, advogados e tal… Hoje a poesia concreta é uma micro-empresa familiar: o Décio é o irmão adotado; o filho, Cid Campos, compõe com o pai; o José Lino Grunewald era casado com a irmã da Lygia, esposa do Augusto e assim por diante. É uma micro-empresa que tende a desaparecer porque, como todos sabem, as empresas familiares acabam sempre muito mal. (risos)

E tem mais: estranho muito as dicotomias que eles costumam criar. João Cabral pode, Drummond não. Webern pode, Stravinski não. Caetano pode, Chico Buarque não. Há sempre um fator dicotômico regulando as preferências. Fazendo uma psicologia barata, talvez pudéssemos remontar essa disputa a uma rivalidade infantil: “Quem pode? Augusto ou Haroldo?”. Quem sabe eles, em criança, brigavam feito loucos pra ver quem era o maior (risos). E isso se resolve nesse ímpeto maniqueísta, antinômico, que separa tudo para que cada um deles possa existir. É mais ou menos como a América do Norte, que adora fazer guerras civis nos outros países. Como os norte-americanos, durante a Guerra da Secessão, se dividiram em norte e sul, ficaram com a mania de querer separar os outros países de forma similar: é Coréia do Norte, Vietnã do Norte… daqui a pouco teremos o Afeganistão do Norte. Parece que é um trauma da Guerra da Secessão.

Da mesma forma, Augusto e Haroldo criando pendengas em que só cabe um. Eu quero tudo, quero todos, não apenas João, Drummond…, quero Murilo, Cassiano Ricardo… O Cassiano mesmo, que Décio considerava “legítima expressão do espírito de 22”, quando ele colaborava na revista Invenção, virou um pústula depois que passou para Práxis. É uma coisa completamente louca e passional.

Mas a preocupação que eu tinha era com a poesia de 45, com Péricles Eugênio da Silva Ramos, Domingos Carvalho Silva, Ledo Ivo etc. No Rio, Ledo Ivo, para honrar o nome, cometeu o ledo engano de organizar uma passeata ao túmulo de Bilac (risos). Ficava pensando: “Será inveja minha por não ter a mesma destreza deles?” Ao mesmo tempo, o conteúdo daquilo, tão contrário ao espírito libertário de 22, me deixava estarrecido. As vanguardas serviam para negar a Geração de 45. O José Guilherme Merquior, que era meu amigo, fazia artigos arrasando a Geração de 45, metendo o malho. Eu pensava: “Será que é assim mesmo? Será que não é inveja da pureza dos caras?”

Por isso, tudo o que fugia daquilo, daquele problema que eu não sabia resolver, era bem-vindo. A Práxis, então, era a teoria de vanguarda que não havia abolido a sintaxe, a frase. Eu não queria escrever “Ivo viu a uva” ou “vai-e-vem / vem-e-vai”. Se eu fizesse poeminhas assim, ia acabar me sentindo por baixo dos sonetistas de 45.

É claro que o verdadeiro soneto do século XX vamos encontrar em Drummond. Era preciso que se fizesse um livro com 30 sonetos de Drummond, o núcleo duro de sua obra, para mostrar a beleza que existe ali, principalmente no mais perfeito livro de poesia que eu conheço, que é Claro enigma. Foi a resposta que Drummond deu à Geração de 45, que o hostilizava demais. Diz a lenda que Domingos Carvalho Silva enviou a Drummond um livro dele, Domingos, com a seguinte dedicatória: “Ao prosador Carlos Drummond de Andrade, homenagem de Domingos Carvalho Silva”. Fontes que não posso revelar dizem que Drummond respondeu, devolvendo o livro ofertado com os seguintes dizeres: “Domingos, vá tomar no cu” (risos). Se não foi assim, devia ter sido. Havia essa briga. Drummond contava que, enquanto ele fazia os sonetos, ia cedinho à casa de Américo Facó, que era um sonetista exímio, para checar se a contagem dele, Drummond, estava certa. Tanto que há poemas dedicados a Américo Facó. Acho interessante contar isso e dizer às pessoas que leiam Carlos Drummond de Andrade.

Agora, voltando às vanguardas, eu tinha também muita ligação com o pessoal neoconcreto do Rio, que dava um banho nos concretos de São Paulo. Cito cinco: Franz Weissmann, Lígia Clark, Lígia Pape, Amílcar de Castro e Hélio Oiticica. É um five de ases contra Geraldo de Barros e Waldemar Cordeiro. Cinco a dois, perdem de goleada. É a recepção crítica quem decidiu assim, não há, de minha parte, nenhum ufanismo de província.

Quanto à Práxis, fui convidado, por intermédio de José Guilherme Merquior, a colaborar com a revista do Mário Chamie. Mandei o meu primeiro livro, que havia saído em 63, e recebi uma carta em que o Mário me pedia colaboração. Aí comecei a colaborar, achando tudo mais ou menos interessante. Aquilo que eu mandei poderia também estar em outra parte. Mas não nego que foi uma guarida importante para um problema meu, que não tinha onde publicar, pois a Geração de 45 dominava o panorama editorial, os espaços para resenha etc. Bandeira se queixa várias vezes disto em suas crônicas. A Geração de 45 queria simplesmente pentear o cabelo do Modernismo. Eles queriam matar mesmo, não queriam Drummond, Bandeira, Murilo…, queriam se impor a qualquer preço. Isso é natural, é da condição humana querer matar os antecessores.

Evidentemente não vou cuspir no prato que comi. Em 1979 ouve uma mudança no Mário Chamie, que não me cabe analisar aqui, a qual levou ao afastamento entre nós. É só isso, nada mais tenho a dizer.

Viviana Bosi: Enquanto você falava, eu pensava que, além da questão formal, havia uma outra diferença entre a “família” dos “magros tensos” da luta corporal, que são você e o Gullar, e a Geração de 45. Na segunda-feira o Gullar esteve aqui em São Paulo e falou uma coisa bonita, disse que a poesia dele nascia “do chão”, de uma procura horizontal do mundo, onde a luz irrompe sem muita transfiguração, uma poesia que penetra, que morde o real. Por outro lado, esse arremeter contra a realidade não impede momentos de distensão, de pequenas revelações. Como se dá a relação entre as duas coisas? Recentemente o Gullar publicou um poema sobre a morte de Rilke, que era o deus da Geração de 45. Acho que na sua poesia também existe esse “sublime”, que vem precedido do enfrentamento com a terra, das trevas…

Armando Freitas Filho: Vamos ver se eu consigo responder… Não é à toa que o clube de Poesia de São Paulo, que era dirigido por Péricles Eugênio da Silva Ramos, editou os primeiros livros de Haroldo e de Décio. A edição princeps de Auto do possesso, de Haroldo, tem uma dedicatória a Péricles e a Mário da Silva Brito, dois mestres da Geração de 45, que foi suprimida na coletânea Xadrez de estrelas; o que é ignóbil. Posso até gostar das coisas que eles fazem literariamente, mas não gosto nada do que eles são como pessoas. É preciso que vocês leiam um livro do Álvaro de Sá, poeta morto recentemente e que fazia parte da Poesia Processo junto com Wladimir Diaz Pino. Houve uma resenha de Augusto de Campos sobre a obra do Wladimir, adjetivada muito elogiosamente. Anos depois ele republica o mesmo texto, em uma coletânea de ensaios, retirando todos os adjetivos, numa espécie de anorexia forçada. Então o Álvaro de Sá juntou as duas versões e publicou nesse livro, mostrando como a história é feita. Augusto não fez uma revisão não, ele abrandou o aplauso. Ou melhor, ele aplaudiu com uma mão só (risos). Disso eu não gosto porque, antes de tudo, a gente tem que ser homem. Isso é um papelão, é horrível, algo apenas digno de uma micro-empresa familiar que só acredita no próprio sangue e que vai se viciar, vai acabar gerando monstros. Bom é ser mestiço, é juntar tudo e não ficar com essa mesquinharia de “pode-não-pode”.

Há uma confissão psicanalítica que devo fazer. Fiz análise durante 11 anos. O problema central da minha vida é a autoridade. Brigo com todo mundo, sem me importar com a hierarquia. Em sala de aula, não admitia que nenhum professor começasse… não que eu fosse pimpão, sabido, que me achasse o máximo. Não gostava do jeito de ser de determinados professores que vinham pôr o dedo na cara da gente. Tenho este problema até hoje, a análise não resolveu isso. Um chofer de ônibus já me ameaçou de morte. Eu disse: “Então desce, desce e me mata, quero ver!”.

Dessa forma, eu só podia detestar o dictat concretista. “Webern pode, Stravinski não…” Pôxa, eu ouço Webern muito antes deles. E naturalmente, por causa da minha família. Não foi uma coisa apreendida, cultivada com fins práticos. É uma coisa fruída. Digo que não quero ficar puto, mas acabo ficando. Isso tudo são águas passadas, mas as águas passadas é que movem moinhos.

Público: E o “sublime” na sua poesia?

Armando Freitas Filho: Na minha poesia, o sublime é “malhado”. Pertenço a uma linha de poesia construtiva, que talvez comece em Cláudio Manuel da Costa, poeta que eu amo, mas sou um construtivista desconfiado. Talvez eu também seja um sublimador desconfiado. Talvez Gullar, por ser dez anos mais velho que eu, encontre mais essa possibilidade do sublime. No último livro dele, do qual eu gosto tanto, o sublime e a transcendência comparecem em vários poemas. Eu prefiro que a minha transcendência surja, se for possível, da imanência, desse frigir de ovos, dessa horizontalidade que a imanência tem. Como uma flor, num canteiro, surge da terra. Se for possível. Não é à toa que o primeiro livro de Gullar, renegado, chame Um pouco acima do chão.

Drummond, num lindo poema do fim da vida, chamado “Canções de alinhavo”, disse que não era digno de transcendência. Imagine, ele, que foi o mais digno de transcendência, que chegou à linha do horizonte como nenhum outro poeta brasileiro… Viva Drummond.

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