Antologia Armando

CORPO

Acrobata enredado

em clausura de pele

sem nenhuma rutura

para onde me leva

sua estrutura?

Doce máquina

com engrenagem de músculo

suspiro e rangido

o espaço devora

seu movimento

(braços e pernas

sem explosão).

Engenho de febre

sono e lembrança

que arma

e desarma minha morte

em armadura de treva.

MOTO

Sob a pele

viajante

instantâneo diamante

sob a pele

sob a pele

ultra-breve sinfonia

lancinante.

Rio retesado

nervo alucinado

lince de relance

em órgão aveludado

raio!

Sob a pele

sob a pele

sonha o diamante

um anjo facetado

sincopado.

Sob a pele

sob a pele

navegante ensolarado

sem murmúrio naufragado.

Sob a pele

sob a pele

Do livro Palavra, 1963

FLASH

Repente

a mente

sente

a árvore

desde

a semente

sente

mão vegetal

em tenra parede

fremente

braço animal

contraído

porão mineral

ruído

mental

folhafalhafolha

f a r f a l h a

vento – navalha

contra o cimento

meu pensamento

RECANTO

Rente o vento

traça a casa

na argamassa

traça

o vento, varanda

fachada

com sua queda

calculada

fechada

artéria

na matéria

exprime esta janela

em silêncio… açude

no cimento

marasmo

após espasmo

o tempo – autômato

autônomo, ao relento.

Do livro Dual, 1966

ENTRETEMPO

O tempo estende

um trem? No espaço

o instante estampa

pressa e passos.

Lance de escadas:

degrau a degrau

leque se abrindo

de grau em grau.

Teia de prováveis

trânsitos – traços

de giz atravessam

através: pássaros?

Impressos no espaço

sem pauta, escapam

sem o pouso da linha

sem a pausa, passam.

Filmes, fragmentos

nas folhas do vento

nas falhas do tempo

flagrantes e flashes

num átimo! O íntimo

instantâneo do instante

seus momentos atônitos

seus átomos: milminutos

… se escoam céleres

nos teclados da água

em que o tempo tenta

trêmulo o seu toque

seqüência de sílabas

que seguem, segundos

cegos/ciclos/circuitos

concêntricos: círculos.

SENSORIAL

para R.

Pulsam os corpos:

plantas de sangue

sufocadas no chão

sem sol, soluça

sem som a seiva

latejam as setas

do amor na terra

da carne amarga.

Costuradas celas

de pele e de pedra

prisão de treva

trançada, travo.

A mordaça amarra

o beijo à beira

da boca um trevo

se tece e morre.

A luta

avança em lentos

lances de corpos

nus: subterrâneos

de seda em transe

o tato do terremoto

esgarça os tecidos

e a teia subcutânea

estremece à tona

da terra, explode

expande e escapa

se atira no espaço

um ramo que afere

seu rumo florido:

flecha de folhas

sem fim – fincada.

Do livro Marca registrada, 1970

CINEMA

Com o que guardo eu te ataco:

faca sob a capa, em todo escuro

está a minha pata, e o tiro

do revólver que dispara no lusco-fusco

do filme mudo – o dente de repente

que estraçalha, por dentro, sua carne.

Eu ataco e nunca estou onde está

a minha marca, eu te afago

com esta mão de gato que te furta:

novelo de disfarçada fúria

vestindo de lã e anelo

o arame de cada garra que arranha

a concha da pele, a curva de pétala

do peito feito oferta, e rasga

o pano, o forro, o estofo

vermelho do coração, e fura

até o fundo – pisa – o que de você

ainda vive e resiste: cauda, pulso

a lembrança muscular do gesto

amputado, qualquer migalha, caco

pedaço, o que sobrou, e o resto.

COMUNICAÇÕES

Eu falo de mim – daqui –

desta central

pelo microfone do corpo

por esse fio que vem do fundo

eu me irradio

assim, numa transmissão de

sustos e rangidos

veia e voz, ao vivo, sob tanto

sangue: pantera escarlate

que passa e pisa

e se espatifa nesse chão

pata de lacre

grito, pingo sobre o alvo

tão tátil da minha carne

nos panos

repentinos do meu espanto

nas janelas

onde me debruço sucessivo

e vário, seqüência de mim

em fotonovelas

me desdobro – quadro por quadro

nos desenhos

de dentro do que sou e projeto

aos poucos, plano e pausa

para fora

com a vida que me veste

pelo avesso:

filmes de sêmen onde publico

figuras de suor e celulóide

numa lâmina

de velocidade e de lembrança

em fotogramas

de esperas e procuras – falha

folha de slides-células, sopro

e pulso

página de pele em que escrevo

o uso

a articulada letra do meu gesto

o rascunho de unhas e rasuras

feito à unha

nas nuas marcas do meu corpo

no espaço

e nos lençóis da claridade

monograma, silhueta, cadência

e a fala

que se imprime nesta fita

neste sulco

a linguagem como um fim

a linguagem por um fio

e a morte em morse.

Do livro De corpo presente, 1975

MADEMOISELLE FURTA-COR

Eu conheço o seu começo

ponto e novelo

meada de mel e langor

de lentos elos

que a minha língua lambe

no calor despido

no meio de suas pernas:

anéis de cabelos

anelos e nós se desmancham

em nada ou nódoa

por todo lençol do corpo

nu e amarrotado:

nós aqui somos todos lassos

e nos rasgamos

devagar – poro por poro

rumor de sedas

ou de uma pele toda feita

de suor e suspiro:

eu soluço a cada susto seu

que nos dissolve.

CORPO DE DELITO

I

Escuta o rumor nas margens plácidas

feitas de lama, sangue e memória.

Escuta o brado retumbante

na garganta do túnel.

Por entre as grades do grito

o céu da liberdade viaja

e o sol, sem Pátria, se espalha

nesse instante, no cimento.

Aqui, Senhor, tememos

o braço forte que sobre os seios

se abate, sem remorso.

Aqui, no peito, os sussurros do coração

o muro de murros desabado

os urros na boca do corpo de entulho

e os erros da minha mão

que apalpa a própria morte.

Nesta cela que sonho nenhum

se escreve nas paredes

nesta sala de azulejos lívidos

um raio de dor sempre aceso

e vívido, à terra desce.

O céu é o sol desta luz

em cada nervo

e em cada um de nós

um límpido incêndio resplandece.

Daqui escuto os passos dos gigantes

pisando, impávidos, a paisagem.

Escuto a marcha dos colossos

por cima dos ossos

por cima dos mapas de mar e grama

escuto as botas dos passos

nas poças do corredor

cada vez mais próximos

dos calcanhares nus do meu futuro.

II

Sentado na cadeira do dragão

largado no berço profundo do chão

sobre o som do mar o céu fulgura

com o seu sol elétrico

que não cessa

o curto, o choque, o surto

em chamas do dia iluminado

nos porões iniciais de um Novo Mundo.

As flores que aqui gorjeiam

garridas, em suas jaulas

se agarram na beira da vida

que cisma e insiste

e continua avançando

por entre vadias várzeas e charcos

e exclama e se espanta

como a primeira palmeira brusca

que busca o espaço

no bosque de fumaça do horizonte.

Aonde está você, amor eterno

que não drapeja no vento

sua flâmula trêmula de estrelas?

Aonde o verde-louro, o céu de anil e mel

o lábaro, a labareda de pano

que o látego rasga e marca?

Aonde a glória do passado

se o presente é este furo

de bala na pele do futuro?

Mas se ergues, ainda sim

a clava forte do seu corpo

e não foge à luta

nem teme a própria morte

que avança armada até os dentes

verás os raios fúlgidos

do sol da liberdade no céu

e neste chão de terra que se ama!

Do livro À mão livre, 1979

LONGA VIDA

Mesmo que a vida dure

apenas uma hora

eu como

um pedaço de Plus Vita.

Mesmo que dure

menos

eu bebo

meu copo de Longa Vida.

Mesmo que o coração

possa morrer

em 2000 – CCPL

(cuidado coração parando lentamente)

ou no próximo segundo

dentro do peito

longa

continua a ser – sempre –

a vida

sob telhados

e espaçonaves de Eternit.

LONGA VIDA

Envoi, avião – torpedo

vá de vez

e voe

movida a Wild Musk Oil

enquanto aquela voz

de mulher nua

mas vestida de veludo

avisa que sua viagem

começou naquele beijo

à la Rita Hayworth

em technicolor

recostada num monte de feno

e que vale a pena.

Ou em preto e branco

como Ingrid Casablanca

no portão de embarque aéreo

porto (onde fiquei), Rio

mas com saudade.

Do livro longa vida, 1982

3 x 4

 

A tarde precipita sua cor

cai, no começo

no princípio da noite

e o que ainda aqui resiste

meio fera, ao precipício

ficou na beira da taça

que não suporta mais

sequer um riso

pois todo cristal está sempre

na iminência, um minuto antes

de partir.

3 x 4

Um dia

impossível de lilases.

Um dia

ou um dilema?

Qual a face da moeda

que resistirá mais tempo

fechada na palma

ao suor da corrosão, à ferrugem

emudecendo uma voz do dueto

para dourar a outra, em solo

para durar ao sol de um dia inteiro

às voltas com sua própria sombra

num duelo único, unânime

no espelho, longe das luzes dos diademas?

Do livro 3×4, 1985

SEM ÓCULOS

Nerval é negro

tanto

que não vejo o rosto

onde ele começa e termina

ao longe, no de Laforgue

que afoga no álcool, o seu

em Lautréamont, ou em outro

que se cobre com a sombra

do de Corbière, triste

sob a capa encapelada

e o capuz de Poe, depois

Baudelaire volta ao éter

Mallarmé está no ar

e de novo, Novalis

eu mordo o que não posso –

e o veneno aí, evém.

Você é nervo, never, nó e não

Nerval

e morre na ponta, em curto

fora do sol, de uma vez só

em negativo

valendo-se de todas as lâmpadas

aceso sem cessar

cobrindo todo o deserto

com altas voltagens que não caem:

volantes, sem nuvens, somente vídeos

nus e nada mais

que não se evaporam nem esvanecem

debaixo desse céu

nítido, raro e feito

com luzes frias e oásis zero

onde só Valéry sobrevive

e vê sem véu.

FÓRMULA UM

Segredos de pele e alma

não precisam de voz.

Um grito

no máximo

que se descobriu

durante a vida

pode bater e berrar

sem chegar à palavra

e caber na cena.

Te amo a seco

de mim para mim

sob a luz da fera

enquanto esmalte e fuga

luxo, extremamente

sem tempo para colecionar oásis

você vem e passa na veia

volante

usando seu único fôlego pneumático

podendo parar de repente

quebrar e morrer

como um perfume fundo

ou tubarão.

AR

Música de árvores.

Não a das folhas e ramos.

Mas a outra, para percussão solo.

Madeira, raízes, cascas, nós, galhos.

Tudo que pede machado, corte, pancada.

O que é duro – áspero – bate, e estaca.

O que estala e cresce da terra contra as estrelas.

10 set. 87

. 50

A morte são os óculos

sem meus olhos.

Depressa, e por dentro

terror sereno

que a cortina não registra

ou não há vento?

Inveromíssil, nenhum

rasgo, disparo

altera o dia invariável

e este céu que já aconteceu.

Moto-perpétuo, motosserra

matemático mar

de muitos cavalos

que não pára de morrer

arranca instantâneo

a correia, dente por dente.

24 mai. 90

Do livro Cabeça de homem, 1991

NÚMEROS ANÔNIMOS

Ferido de flores em muitos pontos

o jardim já começa a fugir

em perfume e desperdício

com a cor de cada cor em alta

antes de cair:

folhas que foram até o fim

e voltam sem vida ao chão original

de onde voaram, antes da primeira linha

quando nada se registrava ainda

aqui, na superfície

de encontro ao muro molhado de azulejos.

NÚMEROS ANÔNIMOS

Sketch de luar visto como estrépito:

pratos, louça, talheres, papel rochedo

o lado lata dos gatos – no ladrilho.

Vem de viés, obliquamente, via raio

no melancólico solilóquio dos lagos

lasca de espelho, cortante e nua

ou sinuosa e branca perna de mulher saindo

pela abertura do vestido de noite

descendo de um carro brilhante e preto.

Do livro Números anônimos, 1994

ESCRITÓRIO

Igual ao que as pedras pesam

os livros lidos, relidos e idos

me carregam, não sei se mais

ou menos, do que aqueles que não.

Do que aqueles tantos fechados

ou só folheados que curvam a tábua

da estante, que cavam um lugar

cerrados, cegos de mim, que vão fundo

mesmo ficando parados – à espera

e que apenas as traças atravessam.

 

GRÃO

Toco, instante, início

talvez de uma árvore

que não foi em frente.

Alguma coisa deste lado

insiste, mesmo sem ramais

em sentir o que se passa

no outro

onde cresceu e floriu o rio.

Mas não consegue ouvir tudo

nem ver claro

o que raspa e invade o campo de força

se é não ou sim, se são leões

arremessando contra a presa

ou atividade de índole diversa

sem precisão de imagens

e de trilha sonora – algo alusivo

iludido, oblíquo, contra a parede

algo de alma, ímã e ruína.

Do livro Duplo cego, 1997

ÁGUA

“Escrever é cortar”, mas somente

quando se está perto da perícia

de quem faz com que a mão seja

o punho da lâmina que o sol

alimenta, e, talho a talho, sem erro

se enterra, sai e tira – célere –

a cor verde escuro da pele da casca

do coco, até que a carne alvejada

com tanta precisão, se deixe ver:

clara, rente à superfície, sangrada

não ferida, a não ser pela delicadeza

aberta ao cerne, onde se sacia a sede.

OBRA

Morder a mesa porque não consigo.

O coração bate descalço e os óculos

embaçam. Viajo sentindo, sem ver

ao certo, o que passa além da janela.

Paisagem feita no tira-linhas, no túnel

que tumultua, o gráfico tão definido

e o altera, errático: morro, terra, borrasca

árvore desarvorada, ventilador na sombra.

A mão que escreve na ventania

não acompanha mais o que é descrito

pela voz de quem mexe com dormentes

vergalhão e ferro-velho, mas continua

arriscando, fora do suporte, longe

da significação – salvei?

Do livro Fio terra, 2000

 

Abertura

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