Veja como foi a Cátedra Unesco Memorial sobre imigrantes e refugiados

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A professora Marília Franco, diretora do CBEAL (Centro Brasileiro de Estudos da América Latina), o cineasta e escritor João Batista de Andrade (presidente do Memorial), e a professora da Unicamp Bela Feldman-Bianco. Eles compuseram a mesa de abertura da Cátedra Unesco Memorial, que este semestre teve o título “Desloca (Migra)Mentos/Mentes”.

Um balanço neste segundo semestre da Cátedra Unesco Memorial da América Latina indica que mais uma vez as atividades foram bastante satisfatórias. Organizado pela professora da Unicamp Bela Feldman-Bianco, o curso de extensão universitária reuniu especialistas latino-americanos para esquadrinhar o tema da imigração ou – para dizer de uma forma mais geral e contemporânea – debater a questão dos deslocados, internos e externos. Sob o instigante título “Desloca (Migra) Mentos/Mentes”, participaram pesquisadores de pós-graduação, ativistas dos direitos humanos e cônsules. A coordenação geral foi da professora Marília Franco, diretora do Centro Brasileiro de Estudos da América Latina, deste Memorial.

“Desde o início do ano queríamos abordar esse tema na Cátedra”, conta a professora Marília Franco, “antes ainda dele entrar na ordem do dia com a crise de refugiados na Europa e o acidente de Mariana no vale do Rio Doce”. Agora tudo tornou-se mais urgente, a problematização e reflexão sobre os deslocamentos e os deslocados se impõem. “Neste ano, apoiamos também um seminário e exposição sobre as “arpilleras” e as vítimas das barragens”, complementa a professora Marília Franco. Especialmente as mulheres deslocadas pelos grandes empreendimentos de hidroelétricas ou mineradoras tem protagonizado um movimento de resistência não só no Brasil.

Não era de hoje que a professora Feldman-Bianco vinha percebendo padrões semelhantes em

A professora Bela Feldman-Bianco

diferentes acontecimentos sociais que tinham que ver com o agravamento de fenômeno antigo – o deslocamento forçado de pessoas. Essas podiam ser tanto os refugiados internacionais e os imigrantes, obviamente, quanto os moradores das favelas do Rio de Janeiro, das periferias de São Paulo ou dos centros velhos das metropóles, dos territórios indígenas e assim por diante. Todos esses estavam se deparando com a remoção forçada provocada pelo avanço cego de um certo capitalismo que pouco se importava com os direitos humanos e o ecossistema. Ao mesmo tempo e por outro lado, havia um incremento do discurso multiculturalista e em prol da democracia e do liberalismo.

Como intelectual que atua na intersecção entre a Antropologia e a História, a professora Bela se sentiu preparada para pensar o fenômeno de uma perspectiva geral, mas não só: como pesquisadora, ela intervém e convoca os protagonistas para pensar juntos sua ação e voltar a agir com mais consciência. Para tanto, organizou dossiês e promoveu seminários. Mais recentemente elaborou um curso sobre esse pano de fundo para a Cátedra Unesco Memorial da América Latina. “Convidei alguns dos meus interlocutores latino-americanos, principalmente de um grupo sobre migração, cultura e política da CLACSO – Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais. E outros interlocutores que trabalham com remoção urbana, gente que respeito muito. E o pessoal dos movimentos populares, claro, que são fundamentais”. Em agosto deste ano, portanto, o início dos trabalhos da Cátedra Unesco Memorial parecia a coisa certa, na hora e no lugar certo.

“Foi o melhor curso que já fiz sobre imigração”, confessa a peruana radicada no Brasil Berenice

A peruana Berenice Rabines (ao centro) e seus colegas da Missão da Paz

Carmem Augusta Young Rabines, que não perdeu uma aula. “Muito profissional, sério e didático. Ele me ajudou a ver o momento atual da imigração, compreendê-lo globalmente”. Ela se deu conta melhor do Outro, que pode ser o imigrante, o refugiado, “mas também o índio, o membro de qualquer grupo excluído, como o internado no cárcere.”

Formada em psicologia em seu país, Berenice Rabines chegou a São Paulo porque queria respirar novos ares, para se distanciar de problemas pessoais e repensar a vida. “Mas não estava preparada, não sabia a magnitude que era imigrar”, conta. Em Lima trabalhava com psicologia comunitária e psicoterapia familiar. Aqui iniciou uma “pesquisa de intervenção para aplicar biodança em um grupo de imigrantes”. Foi quando percebeu que os imigrantes recém-chegados precisavam de um lugar de escuta, mas não podiam pagar. Então apresentou-se como voluntária para um serviço de atendimento psicológico na Pastoral do Imigrante, hoje Missão Paz, coordenada pelo padre italiano Paolo Parisi. “Uso para esse trabalho meu conhecimento de psicologia intercultural, que é uma linha muito desenvolvida nos EUA”, conta.

O cônsul do Equador Luis Wladimir Vargas Anda

O cônsul geral do Equador, Luis Wladimir Vargas Anda, foi outro  aluno assíduo e aplicado. Para ele, é muito rico “escutar a experiência de outros países, com seus problemas específicos, e conhecer as diferentes soluções”. Seu país experimentou um êxodo na década de 90 de uns 20% da população. “Hoje os equatorianos emigrados estão voltando. Para nós a questão é como recebê-los.”

Os equatorianos encontram um país mais aberto, em que os estrangeiros que decidem morar lá tem praticamente os mesmos direitos dos nativos, podendo votar e concorrer a cargos públicos até a um certo nível (a presidente, não, evidentemente). Basta dizer que é na representação diplomática do Equador em Londres que está refugiado, até hoje, o polêmico ciberativista australiano Julian Assange, desde junho de 2012.

Já o cônsul geral do Peru,

Jorge Arturo Jarama Alvan, cônsul do Peru em São Paulo

– que também participou da Cátedra Unesco assiduamente e frisa a “qualidade e boa escolha dos palestrantes” – destacou outro aspecto do legado desse curso: “quando ouvi a palestra da colombiana Marta Villa sobre o deslocamento forçado das vítimas da guerra civil, me identifiquei muito com o que aconteceu em nosso país, provocado pelo Sendero Luminoso, nos anos 80.”

O Peru também enfrenta deslocamentos internos, muito semelhantes ao brasileiro. As cidades incharam com a recente industrialização e grande empreendimentos de mineração e energergia ameaçam a população autóctone. “Somos um país amazônico, como o Brasil, com grande e diversificada população indígena. Em suas terras há prospecção de petróleo. Os povos andinos também se vêm às voltas com projetos de hidrelétricas e exploração de minérios. Por isso, criamos uma lei que exige que o investidor obtenha antes um acordo com os indígenas, amazônicos ou andinos”.

Essa Cátedra Unesco Memorial sobre os deslocados contemporâneos atraiu pesquisadores de outros estados, como o Caio da Silveira Fernandes, que vinha por conta própria toda semana de Curitiba, e Ileana Celeste Fernandez Franzoso, que reside em Macaé, RJ. “Quero estudar os imigrantes da minha cidade, que é cheia de estrangeiros por causa da Petrobrás”, anuncia, ela que é argentina e se mudou para o Brasil por amor. “Me apaixonei por um brasileiro aos 19 anos, me casei e aqui fiquei”.

Ileana Celeste Fernandez Franzoso

Nos áureos tempos da Petrobrás, com a explosão do Pré-Sal e antes da atual crise econômica e política, calculava-se que cerca de 10% de Macaé (que tem 200 habitantes) era de ibero-americanos, canadenses, estadunidenses e europeus. Ileana Franzoso entrou no programa de mestrado da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro justamente para pesquisar – sob o ponto de vista dos estudos da cognição e da linguagem –  a inserção da mulher imigrante nesse universo a partir das mudanças do estatuto do imigrante. Ou seja, ela uni questões de gênero e imigração para fazer uma espécie de etnografia linguística a partir das mulheres imigrantes de Macaé. “A Cátedra Unesco Memorial veio bem a calhar, foi muito inspiradora, os palestrantes eram ótimos.”

Na verdade, o cenário descrito pelos palestrantes não é nem um pouco animador. Apesar da narrativa multiculturalista e da retórica pelos direitos humanos e pela democratização, o que vemos não só na América Latina são grandes empreendimentos de mineração e produção de energia, além de diversos outros  “grandes projetos de desenvolvimento”, que não levam em conta os direitos dos moradores tradicionais nem o meio ambiente. Há uma criminalização da pobreza,  remoção de populações autóctones, aumento da desigualdade, perda de direitos trabalhistas, tercerização precária…“Parece que estamos voltando ao período colonial”, desabafa a professora Bela Feldman-Bianco, “naquela época falava-se do homem selvagem que habitava as terras a serem exploradas. Bom, hoje ele foi pacificado. Mas atualmente essas vítimas são vistas como desnecessárias, como bêbadas inúteis”.

Nem tudo está perdido, no entanto. O próprio curso da professora Bela Feldman-Bianco mostrou isso. Ela trouxe às atividades pessoas comuns que ganharam consciência e se tornaram ativistas quando perceberam que eram elas as vítimas. Por exemplo, a última aula da Cátedra Memorial Unesco reuniu numa mesma mesa de debates o índio guarani-kaiowá Tônico Benites, a boliviana Jobana Moya, o congonês Luambo Luhata Pitchou e o paraguaio Leo Ramirez. Todos são deslocados que se tornaram líderes de sua comunidade em São Paulo e avançam na crítica aos rumos do capitalismo contemporâneo. “Eu confio nos movimentos populares”, resume a professora Bela.  “Eles apontam o caminho.”

Todos os palestrantes da Cátedra Unesco Memorial da América Latina Desloca (Migra) Mentos/Mentes enviaram um paper para publicação com o conteúdo revisado de suas palestras. Esses artigos vão gerar um livro que será lançado em 2016, em edição digital, pelo Centro Brasileiro de Estudos da América Latina (CBEAL), do Memorial.

Conheça alguns dos cursos já oferecidos pela Cátedra Unesco Memorial 

Por Eduardo Rascov

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