Vertentes do Cinema Cubano: curso esquadrinha o audiovisual da ilha desde a Revolução

jul 02, 2012 Sem comentários

“Habana Blues” (2005), de Benito Zambrano,

A Fundação Memorial da América Latina apresenta o curso de extensão “Vertentes do Cinema Cubano”, que será ministrado aos sábados de manhã, das 9 às 12:30hs, de 11 de agosto a 6 de outubro, em 8 encontros. O curso abordará o cinema cubano de uma maneira aberta, sendo sua história concebida não sob uma ordem cronológica ou em torno de seus autores canônicos, mas a partir de certas linhas de força que a perpassam, e que podem ser vislumbradas tanto em filmes mais antigos como em contemporâneos. Linhas temáticas, de gênero ou estilo estruturam o curso: o papel da cidade no cinema cubano, as adaptações cinematográficas de obras literárias de Edmundo Desnoes ou a realização cinematográfica na diáspora podem ser vistos como eixos temáticos; enquanto que o documentário ou o recurso ao melodrama, à alegoria e ao humor podem ser relacionados aos gêneros ou ao estilo.

O curso – dirigido a estudantes, pesquisadores, cinéfilos e interessados em geral – procura ampliar o conhecimento sobre o cinema cubano e fomentar as práticas de leitura de filmes. Especialmente para professores do ensino médio, espera-se que o curso contribua para o amadurecimento das atividades pedagógicas, uma vez que a aproximação a obras cinematográficas é cada vez mais frequente em contexto escolar. Para se matricular nele é necessário pagar a taxa única de R$200,00.

O curso “Vertentes do Cinema Cubano” é coordenado pelas pesquisadoras Elen Doppenschmitt e Maria Alzuguir Gutierrez. Além delas, algumas aulas ficarão a cargo dos palestrantes convidados Mariana Villaça, professora da Unifesp, e Nicolau Bruno, doutorando na ECA/USP. Os objetivos do curso são contribuir para a aquisição de competências para leitura, análise e interpretação de filmes em geral; gerar curiosidade e interesse pelo cinema cubano e divulgar o acervo existente no Memorial de filmes cubanos, argentinos, mexicanos e do restante da América Latina; difundir pesquisas teórico-acadêmicas sobre o cinema cubano e latino-americano em geral a um público mais amplo, enriquecendo o debate e a crítica sobre este cinema; e estimular a realização de pesquisas e a organização de grupos de estudos sobre o cinema latino-americano.

 Elen Döppenschmitt é graduada em Ciências Sociais (USP) e doutora em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), com uma passagem pelo Chile, onde

“La última cena” (1976), de Gutiérrez Alea

viveu por quatro anos como bolsista do PNUD-ONU. Possui pesquisa sobre cinema e oralidade e sobre cinema cubano e desenvolve projetos acadêmicos e de divulgação cultural na área de Cinema e Literatura. Entre outras publicações, destaca-se a tradução de Memórias do Subdesenvolvimento de Edmundo Desnoes (Fundação Memorial da América Latina: São Paulo, 2008). Atualmente desenvolve estágio pós-doutoral na Faculdade de Educação da UFMG com atividades docentes e de pesquisa na área de cinema em contexto escolar.

Las aventuras de Juan Quin Quin (1967), de García Espinosa

Maria Gutierrez é doutoranda na ECA-USP, com pesquisa sobre o cinema novo latino-americano em sua relação com a literatura. Coordenou e ministrou, em 2011, com a colega Elen Döppenschmitt, o curso Literatura e história no cinema latino-americano, no CBEAL/Memorial da América Latina. Organizou, em 2006, a edição brasileira do Festival Latino Americano de la Clase Obrera, e as retrospectivas do cinema militante latino-americano, no CINUSP, e do audiovisual militante brasileiro, na Galeria Olido.

Durante as aulas serão exibidos trechos dos filmes (podendo haver casos de exceção em que sejam exibidos na íntegra), se abordará conteúdos pertinentes às linhas de forças que são o eixo de cada aula e se discutirá elementos estéticos das obras. Será feita menção a bibliografia que incluirá: teoria e crítica de cinema, pesquisas sobre cineastas específicos, textos dos próprios cineastas, e a historiografia do cinema cubano. Serão recomendados textos para leitura fora de sala de aula, de caráter opcional. Conforme o interesse e a disposição dos alunos, poderá ser proposto, ao final do curso, um pequeno exercício de análise fílmica.

Em Otras maneras de pensar el cine cubano (Santiago de Cuba, editorial Oriente, 2009), Juan Antonio García Borrero reivindica uma nova historiografia para o cinema de seu país: não teleológica ou apenas centrada na produção do ICAIC, mas que compreenda uma noção ampla do que seja o cinema cubano, que possa incluir, por exemplo, aquele realizado por cubanos fora da ilha, ou filmes já não estritamente cinematográficos, como a experimentação em vídeo de jovens realizadores. As ideias de Borrero nos servem de inspiração. O curso, embora se paute pelas linhas de força acima citadas, por outro lado não se furtará a abordar os grandes nomes da cinematografia cubana e seu pensamento sobre cinema, compreendendo-se o caráter fundante das formulações de autores como Gutiérrez Alea e García Espinosa.

*A maioria dos filmes a serem exibidos e discutidos são falados em espanhol, sem legendas em português. Poderão também ser recomendados textos em espanhol, de leitura opcional.

Programa de aulas:

 Duas vezes Memórias

As duas adaptações cinematográficas a partir das obras literárias homônimas de Edmundo Desnoes, Memorias del subdesarrollo(1968) e

“Memórias do Subdesenvolvimento”, de Tomaz Gutierrez Alea

 Memorias del desarrollo (2010) revelam-se como filmes críticos a dois momentos distintos da história cubana. O clássico representante do ICAIC de Gutiérrez Alea e o filme independente do jovem Miguel Coyula servem para construir um traçado comparativo entre técnica, arte e política.

Alegorias da nação

Foi fomentada pelo Estado nos anos 1970 a realização de filmes históricos, que privilegiaram certos momentos da história cubana, vistos retrospectivamente como preparatórios para a Revolução de 1959. Os cineastas, no entanto, não se limitaram à mera celebração nacionalista da história. Filmes como El otro Francisco (1975), de Sérgio Giral, e La última cena (1976), de Gutiérrez Alea, são exemplos em que a ambiguidade e a polissemia garantem à arte sua riqueza e profundidade. O recurso à alegoria foi vastamente utilizado pelos cineastas cubanos. Nos anos 1960 e 1970, algumas vezes a personagem feminina figurou como alegoria da nação (Xavier, 1997) enquanto alguns filmes históricos puderam ser vistos como alegorias do presente. Este recurso, no entanto, não ficou confinado àqueles anos, podendo ser encontrado em filmes recentes como La vida es silbar (1998) e Madrigal (2007), de Fernando Pérez.

 A cidade no cinema cubano

Em alguns filmes cubanos a cidade pode vista para além de sua representação como espaço físico, mas como figuração da própria cultura cubana, cuja oralidade, a literatura e a música constituem-se como elementos fundantes e aparecem como personagens centrais. Filmes como Habana Blues (2005), de Benito Zambrano, Barrio Cuba (2005), de Humberto Solás, e Amor vertical (1997), de Arturo Soto, serão abordados a partir de suas relações com tal figuração da cidade.

 A vertente do humor / Negociações com o melodrama

O choteo, maneira crítica e bem humorada do cubano fazer troça, tem sido estudado como elemento intrínseco da cubanía ou “cubanidade”. Neste sentido, cabe pensar que o humor teve grande espaço na cinematografia cubana de ficção. Através dele os cineastas fizeram críticas contundentes aos descaminhos da Revolução e às suas condições de vida e por meio do humor seus filmes tornaram-se populares. Sejam os filmes Las doce sillas (1962), La muerte de un burócrata (1966) e Guantanamera (1995), de Gutiérrez Alea, Las aventuras de Juan Quin Quin (1967), de García Espinosa, ou até uma comédia de costumes como Hacerse el sueco (2001), de Daniel Díaz Torres, todos comprovam o potencial da comédia em sua capacidade de reunir crítica e diversão.

A partir dos anos 1990, e durante os 2000, o cinema latino-americano obteve novo fôlego em países como Argentina, México e Brasil. Grande parte deste cinema encontrou seu sucesso nas concessões aos paradigmas do mercado e no diálogo com a indústria televisiva. O cinema cubano não é exceção nesta nova produção, mais atenta ao grande público e às convenções da linguagem audiovisual. Em Cuba, o melodrama foi então recuperado e incorporado de maneira crítica. Sob este vértice, analisaremos filmes como Barrio Cuba (2005), de Humberto Solás, entre outros.

 Documentário

Linha de força fundamental na história do cinema cubano, o documentário, presente desde os princípios da Revolução, foi visto como meio de formação para os cineastas do ICAIC, que deveriam praticá-lo antes de passar à ficção. A obra vanguardista de Santiago Alvarez ou filmes como Suíte Havana (2003), de Fernando Pérez, revelam a proeminência do documentário na cinematografia cubana. Para além do próprio gênero, a veia documental se mistura à ficção, sendo incorporado em vários filmes, como Hasta cierto punto (1983), de Gutiérrez Alea, paradigmático neste sentido.

 Na diáspora

Filmes realizados fora da ilha, por cubanos exilados, bem como aqueles censurados ou realizados fora do ICAIC vêm sendo integrados à história do cinema cubano, através do trabalho de alguns estudiosos. Nesta aula, serão discutidos filmes como Conducta impropria (1984) e Nadie Escuchaba (1987), de Nestor Almendros, e Ochoa (1993), de Orlando Jimenez Leal. Para além do cinema, vamos remeter à discussão mais geral a respeito da cultura produzida dentro e fora da ilha, que envolve intelectuais e artistas de várias áreas.

Calendário de aulas e palestras:

11/08 – Alegorias da nação [Maria Gutierrez]

18/08 – A vertente do humor / Negociações com o melodrama [Maria Gutierrez]

25/08 – A política cultural cubana e o ICAIC [Mariana Villaça]

01/09 - Realizadores estrangeiros em Cuba [Nicolau Bruno]

15/09 – Na diáspora [Mariana Villaça]

22/09- Duas vezes Memórias [Elen Döppenschmitt]

29/09 – A cidade no cinema cubano [Elen Döppenschmitt]

06/10 – Documentário [Elen Döppenschmitt]

 Bibliografia:

 BERTHIER, Nancy. Tomás Gutiérrez Alea et la revolution cubaine. Paris: Cerf-Corlet, 2005.

CHANAN, Michael. Cuban cinema. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2004.

GARCÍA Borrero, Juan Antonio. Otras maneras de pensar el cine cubano. Santiago de Cuba, editorial Oriente, 2009.

GARCÍA-Espinosa, Julio. Algo de mí. La Habana: Ediciones ICAIC, 2009.

GUEVARA, Alfredo. Revolución es lucidez. La Habana: Ediciones ICAIC, 1998.

GUTIÉRREZ Alea, Tomás. Tomás Gutiérrez-Alea: volver sobre mis pasos. Mirtha Ibarra (org). Madrid: Ediciones Autor, 2007.

Dialética do espectador – seis ensaios do mais laureado cineasta cubano. São Paulo: Summus, 1984.

LABAKI, Amir. O olho da revolução: o cinema-urgente de Santiago Alvarez. São Paulo: Iluminuras, 1994.

OROZ, Sílvia. Gutiérrez Alea: os filmes que não filmei. Rio de Janeiro: Anima, 1985.

PARANAGUÁ, Paulo Antonio (org). Le cinéma cubain. Paris: Centre Georges Pompidou, c1990.

SCHROEDER, Paul A. Tomás Gutiérrez Alea: the dialectics of a filmmaker. New York: Routledge, 2002.

 STOCK, Ann Marie. On Location in Cuba: Street Filmmaking during Times of Transition (Envisioning Cuba). Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2009.

VILLAÇA, Mariana. Cinema cubano: revolução e política cultural. São Paulo: Alameda, 2010.

XAVIER, Ismail. “A personagem feminina como alegoria nacional no cinema Latino-Americano”. Balalaica – Revista Brasileira de Cinema e Cultura, São Paulo, n. 1, 1997, pp.84-101.

Serviço

Curso Vertentes do Cinema Cubano
Período: 11 de agosto a 6 de outubro
Oito aulas aos sábados, das 9h às 13h (32 horas-aula)
Taxa de inscrição: R$ 200,00  (taxa única, dinheiro ou cheque à vista).
Inscrição no CBEAL – Centro Brasileiro de Estudos da América Latina
Local das aulas: Anexo dos Congressistas
Portão 12
Obs.: Caso não se alcance o número mínimo de inscritos, o curso será cancelado e a taxa de inscrição devolvida.

Informações:

E-mail: cursos@memorial.sp.gov.br
Tel.: (11) 3823-4780

Interna
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