A Festa do Cavalo Nóia chega ao Pavilhão da Criatividade

jul 04, 2012 Sem comentários

No chão da Praça do Relógio, da USP, há uma frase que se aplica bem ao que os moradores da Vila Missionária têm feito do ano 2000 para cá: “No universo da cultura o centro está em toda parte”. A diferenciação centro/periferia deixa de ter sentido quando se olha para uma manifestação cultural que integra festas e ritos arcaicos aos ritmos, costumes, comportamentos e estéticas modernas. E que – com voracidade contemporânea – traga e retroalimenta a atitude tropicalista e antropofágica de gerações passadas.

E o que se nota na “Festa do Cavalo Nóia”, que se realiza toda última sexta-feira de novembro, para encerrar com apoteose o ano letivo dos alunos da Escola Estadual Dr. Lauro Pereira Travassos e para convulsionar a comunidade da Vila Missionária, pelos lados de Cidade Ademar, na Zona Sul da metrópole. Por incrível que pareça, nos anos 90, essa escola deu abrigo a três cavalos que apareceram por lá. Dois deles se aventuraram pela rua e foram atropelados. O terceiro ficou lá, participou das primeiras  festas e virou símbolo.

O que é a Festa do Cavalo Nóia? E difícil definir. A etimologia diz que a palavra “nóia” vem do grego compreender, ter no espírito. Em tempos da praga do crack, cujo usuário é chamado de “nóia”, seu uso no contexto da festa não deixa de ser uma provocação. Uma bem humorada provocação. Essa atitude irreverente é expressa nos poemas, canções, cordéis, figurinos, alegorias e coreografias compostas ao longo do ano especialmente para a festa.

Tudo começou com uns trezentos alunos do EJA, Ensino de Jovens e Adultos, contaminados pelo entusiasmo do professor de artes Jacson Matos, entre outros mestres. No início do milênio a maioria desse grupo era constituída por migrantes de diversas regiões do Brasil. Trouxeram com eles a memória de outros folguedos, nos quais não eram expectadores, mas sim protagonistas. A turma organizou um desfile pelo bairro no qual se misturavam vestígios de antigos reisados e congadas a brincadeiras do carnaval de rua, a cadência do samba de roda aos jogos e as cantigas populares dos brincantes das festas juninas tradicionais à destreza do maracatu…

Essa mistura de manifestações culturais tradicionais, típicas do Brasil rural, encontrou seu lugar na cidade e entrou em diálogo fecundo com o meio envolvente. Desde então a Festa do Cavalo Nóia não parou de crescer, hoje mexe com mais de quatro mil pessoas, e já foi parar em uma exposição no Metrô e na festa de encerramento da Bienal de Artes de São Paulo de 2008.

Agora o Cavalo Nóia chega ao Pavilhão da Criatividade Popular Darcy Ribeiro, na Fundação Memorial da América Latina. Cai como uma luva num espaço cuja razão de existir é justamente, como o próprio nome diz, abrigar a “criatividade popular”. No próximo dia 11 de julho, quarta-feira, será a abertura da exposição “Festa do Cavalo Nóia: Tradição Periférica Paulistana”, da qual fazem parte alegorias, bonecões, fotografias, painéis pintados, brinquedos personalizados, instrumentos musicais improvisados, vídeos, roupas especialmente confeccionadas, sombrinhas estilizadas, chapéus rodeados por fitas multicoloridas, robôs feitos de material reciclado e de utensílios do dia-a-dia, bonecas fantasiadas de Fridas Khalos e outros ícones da cultura internacional.

Os curadores da exposição são Jacson Matos e Bruno Mesquita, também conhecido por Bruno Nascibem. Eles tentaram reproduzir no Memorial o universo luxuriante de cores, formas, texturas e padrões da festa que eles organizam anualmente na Vila Missionária. E claro que não conseguiram reeditar os cheiros, os sons, as vibrações, a energia da Festa do Cavalo Nóia. Mas trouxeram ao Memorial um pouco da beleza, da força, do mosaico de manifestações, da espontaneidade, da alegria e do grito ingênuo por um lugar ao sol.

Serviço:

Festa do Cavalo Nóia: Tradição Periférica Paulistana
De 11 de julho a 9 de setembro
Local: Pavilhão da Criatividade
Mais informações: www.cavalonoia.blogspot.com
Entrada Franca.

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